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VIDA

Operações policiais são “máquina de enxugar gelo” na guerra às drogas

Pesquisa da UFF revela que apenas 1,4% do tráfico de entorpecentes é efetivamente desarticulado por operações policiais

A “Operação Contenção”, que devastou os Complexos da Penha e do Alemão em 28 de outubro de 2025, se ergue como um monumento à ineficácia e à seletividade das políticas de segurança pública no Rio de Janeiro. Com um saldo oficial que ultrapassou 130 mortes – embora relatos de moradores e organizações de direitos humanos apontem para números ainda maiores -, a ação mobilizou 2.500 policiais e centenas de mandados. No entanto, a escalada de violência não se traduz em efetividade, mas sim na perpetuação de um ciclo sangrento que beneficia a narrativa política em detrimento da vida.

Especialistas e dados históricos desmentem a ideia de que a repressão massiva em favelas combate o tráfico. Luís Flávio Sapori, criminólogo e pesquisador da PUC Minas, reitera que o “tráfico de drogas é uma racionalidade econômica, não apenas um problema de polícia”, e que a política de guerra às drogas, focada unicamente na oferta, tem se mostrado “completamente falha”. De fato, um estudo da Universidade Federal Fluminense (UFF) publicado em 2024 aponta que apenas 1,4% do tráfico é efetivamente combatido por operações policiais em favelas. Em 20 anos, o crescimento do tráfico no Rio de Janeiro foi de impressionantes 340%.

Essa estratégia resulta em um custo humano e social incalculável, transformando comunidades inteiras em verdadeiras zonas de guerra. A rotina de medo é uma constante. “Entrei na estação para me esconder dos tiros”, relatou a professora Marise Flor, testemunha dos confrontos, em reportagem publicada pela Agência Brasil, descrevendo a barbárie que força cidadãos comuns a fugir da violência em seu próprio bairro.

Pesquisa do Instituto Data Favela revelou que aproximadamente 30% dos moradores de favelas brasileiras já se sentiram discriminados. Entre os motivos apontados, 30% citaram a condição de morar em uma favela como causa do preconceito. A discriminação também impacta abordagens policiais: 37% dos moradores reportaram terem sido revistados por policiais, percentual que sobe para 65% entre jovens de 18 a 29 anos.

Estudo publicado na revista Geografares aponta que a estigmatização das favelas tem contaminado diversas políticas públicas formuladas para esses territórios. Segundo pesquisador André Almeida de Abreu, da Universidade Federal Fluminense, a falta de diálogo entre diferentes órgãos públicos envolvidos em tais políticas gera uma ‘atrofia burocrática’, perdendo-se potencial de atuação da esfera pública.

Ainda que a Operação Contenção tenha sido a mais letal da história do Rio, superando a chacina do Jacarezinho de 2021 (28 mortos), a essência do problema permanece intocada: a demanda por drogas nas áreas mais abastadas da cidade. Carolina Christoph Grillo, socióloga da UFF, em sua pesquisa sobre a dinâmica do tráfico, diferencia a violência do “morro” da discrição da “pista”. Enquanto o “morro” sofre o peso da repressão letal, a “pista”, que é o principal motor financeiro do tráfico, opera com relativa impunidade.

A cada operação, a escalada de violência se acentua. Entre 2007 e 2025, foram 707 operações policiais na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, resultando em 2.936 mortes civis, segundo dados do Geni/UFF. A “Operação Contenção” apenas adiciona um capítulo sombrio a essa triste estatística, sem atacar a raiz do problema. A ilusão de que a repressão ao elo mais fraco da cadeia do tráfico resolverá a questão da segurança pública custa vidas e perpetua a desigualdade, enquanto a verdadeira máquina do crime, impulsionada pela demanda, segue intocada.

 

Governador Cláudio Castro tenta explicar operação no Morro do Alemão mais letal da história do Rio de Janeiro. Foto: RS/Fotos Públicas

Escalada da violência e o timing eleitoral

A comparação histórica das operações revela uma escalada preocupante na letalidade. Enquanto a Chacina do Jacarezinho chocou o país com 28 mortos em 2021, a Operação Contenção de 2025 superou esse número em quase cinco vezes. Entre 2007 e 2025, foram 707 operações policiais na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, resultando em 2.936 mortes civis, segundo o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni/UFF). Os números não param de crescer.

Este padrão de violência recrudescida frequentemente coincide com períodos pré-eleitorais. Operações massivas, com grande cobertura midiática, rendem dividendos políticos e reforçam a imagem de um governo “linha dura” na segurança. A Operação Contenção, um ano antes das eleições de 2026, segue essa triste tradição. O custo humano é ignorado em prol de uma narrativa eleitoreira que não resolve o problema, mas agrada a parte do eleitorado. Enquanto a demanda se mantém intocada e as causas sociais da oferta persistem, as operações continuarão a ser meras “máquinas de enxugar gelo”, produzindo mais mortes e miséria em vez de paz e segurança duradouras.

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