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VIDA

Quem alimenta o tráfico? Os consumidores da classe média

Dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV) revelam que impressionantes 62% dos usuários de drogas no Brasil pertencem à classe A

Enquanto a Operação Contenção deixava um rastro de mais de 132 mortos nos Complexos da Penha e do Alemão, no último dia 28 de outubro, uma pergunta crucial ecoa, mas parece propositalmente ignorada pelas autoridades: de onde vem a demanda que sustenta essa máquina de violência? A resposta, apontam especialistas e dados, está nos condomínios fechados, nos bairros nobres do Rio de Janeiro, onde a droga é consumida sem a mesma letalidade ou repressão. Trata-se de uma política de criminalização seletiva, que atinge a oferta na favela enquanto protege o consumo na elite.

O consumo que ninguém vê

O problema do tráfico de drogas, em sua essência, é uma equação de oferta e demanda. No entanto, a política de segurança pública brasileira insiste em focar quase que exclusivamente na repressão à oferta, convenientemente localizada nas áreas de vulnerabilidade social. 

“Por que nunca vemos operações massivas no Leblon, Ipanema ou Barra da Tijuca com a mesma truculência das que devastam as favelas?”, questiona um sociólogo especialista em segurança pública. A retórica oficial sobre combate ao tráfico esconde uma verdade incômoda: o consumo é invisível porque não interessa ser visibilizado. Drones e helicópteros monitoram as favelas, mas jamais o fluxo de usuários em condomínios de luxo ou em festas de alto padrão.

A ‘Pista’ vs. o ‘Morro’: duas realidades diferentes

A pesquisa da antropóloga Carolina Christoph Grillo, da UFF, desvenda essa dicotomia ao traçar a diferença entre o tráfico na “pista” (bairros da classe média) e no “morro” (favelas). Na “pista”, a transação é discreta, os acordos são feitos com base na confiança e a violência é exceção. Já no “morro”, a presença do tráfico é uma resposta à ausência do Estado, e a violência se torna uma ferramenta de controle territorial e de defesa contra a repressão. Os fatos recentes evidenciam esse abismo: em 28 de fevereiro de 2025, uma “operação” em Ipanema resultou em 5 prisões e a detenção de dois adolescentes.

Essa distinção é ainda mais evidente quando se observa a movimentação em áreas de luxo. Operação conjunta no Novo Leblon em 13 de maio de 2025 desmantelou esquema do Comando Vermelho em mansão de luxo, apreendendo 240 armas e 43 mil balas. Embora impactante em si, a apreensão não se concentrou em entorpecentes, mas sim no poderio bélico e financeiro de um cartel que, inegavelmente, serve a uma clientela diversificada.

A lógica perversa da repressão atual não só falha em combater efetivamente o tráfico, como também o retroalimenta. Ao eliminar o elo mais fraco e visível da cadeia – o vendedor de rua -, as forças de segurança geram um vácuo que é rapidamente preenchido, muitas vezes com mais violência, enquanto o fluxo de capital dos consumidores abastados permanece inabalável.

Essas operações, no entanto, não resultaram em dezenas de mortos nem na destruição de comunidades, contrastando dramaticamente com o saldo da Operação Contenção.

Governador Cláudio Castro tenta explicar operação no morro do alemão mais letal da história do Rio de Janeiro. Foto: RS/Fotos Públicas

O lucro invisível da demanda

A ausência de repressão eficaz sobre o consumo nas classes abastadas não é apenas uma falha; é uma escolha estratégica que alimenta financeiramente o crime organizado. Enquanto a polícia se concentra na “bucha de canhão” das favelas, o dinheiro continua fluindo, irrigando as facções criminosas. Estudos mostram que a cocaína inalada representa 57,8% do consumo total no país.

O sociólogo Luís Flávio Sapori reitera que o tráfico de drogas, longe de ser irracional, é uma complexa racionalidade econômica que se baseia na demanda ininterrupta. Estima-se que o lucro das facções com o tráfico represente uma parcela significativa da economia paralela, chegando a 4% do PIB, conforme algumas análises. É esse volume de recursos que permite ao crime investir em armamento pesado e cooptar jovens sem perspectivas.

A Operação Contenção, com seu saldo letal, é o ápice de uma política que aumenta a violência nas comunidades, mas em nada afeta a origem real do problema. O aumento da violência é diretamente proporcional à seletividade dessa repressão, perpetuando um ciclo vicioso onde o Estado criminaliza a pobreza enquanto protege o mercado de luxo da droga.

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