Dólar
R$ 5.08 Subiu
Euro
5.789 Subiu
Brasília
19°C 29°C 18°C

Explore Mais

Colunas exclusivas e conteúdos especiais

Andrew Tate (à esquerda), ex-lutador de kickboxing, e o irmão, Tristan Tate, foram presos em Miami. Foto: Alex Nicodim/Anadolu Agency
VIDA

Guru redpill preso, lacaios soltos no Brasil

59 acusações de estupro e tráfico sexual

Os influenciadores Andrew e Tristan Tate foram presos neste sábado (18) em Miami, nos Estados Unidos, após um pedido de extradição do Reino Unido. A dupla, que se autointitula líder do movimento redpill — a “pílula vermelha” que promete despertar os homens para uma suposta verdade oculta sobre as mulheres — enfrenta 59 acusações de estupro, tráfico sexual, agressão e crimes relacionados a imagens indecentes de crianças.

Andrew Tate, ex-campeão de kickboxing de 39 anos, responde a 42 acusações, incluindo estupro, tráfico para exploração sexual, agressão e pornografia extrema. Tristan, de 38, responde a 17 acusações, entre elas estupro e tráfico. Os abusos teriam ocorrido entre julho de 2010 e agosto de 2017, com sete vítimas identificadas. A prisão ocorreu por agentes do U.S. Marshals Service, e o mandado estava sob sigilo.

O Ministério Público britânico informou que as novas acusações elevam o número de vítimas para sete. “Essas decisões de acusação ocorreram após o recebimento de um novo dossiê de provas da Polícia de Bedfordshire”, declarou Malcolm McHaffie, chefe da Divisão de Crimes Especiais.

O que é a redpill e por que ela interessa ao Brasil

O termo redpill é inspirado no filme Matrix — a pílula vermelha que revela a “verdade” ao protagonista. No universo da misoginia organizada, a redpill é o movimento que prega que os homens foram “castrados” pelo feminismo e que precisam retomar o controle sobre as mulheres. É a base filosófica da chamada “machosfera”, um conjunto de comunidades online marcadas pela hostilidade ao feminismo e pela defesa de uma masculinidade tóxica e violenta.

No Brasil, a redpill não é um fenômeno importado — é um afluente direto do bolsonarismo. Enquanto Andrew Tate ostentava carros de luxo e pregava a submissão feminina para milhões de seguidores no mundo inteiro, seus discípulos brasileiros faziam o mesmo em terras tupiniquins. Paulo Kogos, ex-YouTuber e militante bolsonarista que já defendeu a volta da monarquia e a “masculinidade tradicional”, é um dos nomes mais conhecidos. Thiago Schutz, o coach de masculinidade que ameaçou de morte a atriz Livia La Gatto, é outro. Nando Moura, músico e youtuber que acumulava milhões de seguidores pregando misoginia disfarçada de “humor”, completa a lista.

Do mesmo time, o ator global Juliano Cazarré, católico conservador e bolsonarista assumido, lançou em abril o curso “O Farol e a Forja”, que ele descreve como “o maior encontro de homens do Brasil”. A proposta, segundo a divulgação, é ajudar o “homem enfraquecido” a se reconectar com a masculinidade e a fé cristã — com direito a instrutor de tiro incluído no pacote. Questionado sobre o teor misógino da iniciativa, Cazarré nega qualquer ligação com a redpill e diz que seu curso é na verdade o “oposto” dela, que seria “usar as mulheres, não se relacionar com elas, vê-las como inimigas”. A diferença, no entanto, escapa a atrizes como Marjorie Estiano e Elisa Lucinda, que apontaram que o discurso do ator “mata mulheres”. Se Andrew Tate é o pai da redpill mundial, Cazarré é o primo católico que quer vender a mesma pílula com embalagem de vela e terço — mas o conteúdo, no fundo, é o mesmo veneno servido em cálice bento.

O que une todos eles é o discurso: as mulheres são inferiores, o feminismo é uma praga e a violência é uma ferramenta legítima de afirmação masculina.

Redpill é igarapé do neofascismo

Assim como o bolsonarismo no Brasil, o movimento redpill é um igarapé do neofascismo global. Eles compartilham o mesmo DNA: aversão à democracia, culto à violência, hierarquia de gênero como dogma e um desprezo profundo pelos direitos humanos.

No Brasil, as conexões são explícitas. O deputado Ricardo Salles (Novo-SP), candidato ao Senado, chamou Marina Silva de “tartaruga fugida do Acre”, atacou Simone Tebet e ofendeu a falecida dona Lindu, mãe do presidente Lula. O pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL-RJ) disse que “estancaria” a madrasta Michelle se ela não fosse mulher do pai. E o deputado Capitão Alden (PL-BA) — o mesmo que a Polícia Federal aponta como “laranja” de Valdemar Costa Neto no esquema de desvio de R$ 119 milhões em emendas — apresentou uma emenda para liberar o racismo no Brasil como condição para aprovar o PL da Misoginia.

A chantagem é clara: o PL, partido onde estão ajuntados todos os neofascistas brasileiros, condiciona a criminalização da misoginia a uma contrapartida que libera o ódio racial. É a redpill chegando ao parlamento — com direito a caneta e gabinete.

O ódio sobre nossas meninas na escola

O fenômeno não é isolado, como se dependesse de um ou outro grupo de adolescentes perdidos num grupo de WhatsApp. Em julho de 2026, a Polícia Civil do Rio de Janeiro investigou alunos do Colégio Cruzeiro, em Jacarepaguá, que criaram uma “tier list” online classificando ao menos 65 alunas em categorias sexuais degradantes — como se fossem cartas de baralho num torneio de machismo. Em março do mesmo ano, oito estudantes do IFSul, em Pelotas (RS), foram suspensos por produzir um “ranking sexual” com fotos não autorizadas de colegas, compartilhado em grupos de mensagens.
Também em março, alunas do Colégio São Domingos, em Perdizes (SP), zona oeste de São Paulo, iniciaram uma mobilização contra a circulação de mensagens misóginas entre adolescentes do nono ano. Três estados, três escolas, três casos — e um padrão: meninos que reduzem meninas a corpo, nota e categoria sexual, alimentados pelo mesmo caldo de cultura que vem da redpill, dos coaches de masculinidade e dos políticos que tratam a mulher como objeto descartável. Não é acidente. É o igarapé do neofascismo entrando nas escolas.

59 acusações e um império em ruínas

Enquanto seus seguidores brasileiros continuam soltos e produzindo conteúdo, os irmãos Tate estão atrás das grades. A prisão em Miami foi a consequência de um longo processo que começou na Romênia, onde foram detidos em dezembro de 2022 por suspeita de tráfico humano. Depois de passarem por prisão domiciliar, conseguiram deixar o país e voltaram aos Estados Unidos — onde agora aguardam a extradição para o Reino Unido.

O advogado dos irmãos, Joseph McBride, classifica a prisão como “injusta” e alega que os Tate colaboravam com a Justiça romena. Mas os números são contundentes: 59 acusações, sete vítimas, um período de abusos que durou sete anos. O império de luxo, misoginia e violência construído por Andrew Tate está desmoronando.

Resta saber quanto tempo os discípulos brasileiros vão conseguir se manter de pé — e quantos jovens continuarão engolindo a pílula vermelha do ódio antes que a Justiça também bata à porta deles.

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Final da página
WhatsApp

Frente LIVRE

Normalmente responde dentro de uma hora
Frente LIVRE

Olá 👋

Fale com o ciberporto da esquerda popular ✊💡

20:57