Em editorial, o Estadão chamou a ofensiva de Trump de “coisa de mafiosos”. Mais que isso: convocou os “verdadeiramente brasileiros” a não serem “sabujos de um presidente americano que envergonha a democracia”.
A aventura bolsonarista é antidemocrática até para os padrões historicamente frouxos do jornal da família Mesquita. Nessa briga, a família Bolsonaro ficará sozinha, contando no máximo com a meia dúzia de vira-latas golpistas que integram o seu núcleo duro.
A definição escolhida pelo Estadão “coisa de mafiosos” é precisa. É exatamente do que se trata. A extrema direita internacional se articula como uma máfia: agredindo as instituições de poder, chantageando governos e atuando à margem da democracia. Tudo neste episódio cheira à máfia.
Vejamos: o deputado federal licenciado e fujão Eduardo Bolsonaro e seu assecla Paulo Figueiredo o neto de ditador que já foi preso em Miami por participar de esquema de propina fizeram questão de se apresentar como os coautores dessa intimidação à soberania e à democracia brasileira. E, de fato, o são.
Financiado pelo papai e por dinheiro público, Eduardo passou os últimos meses ao lado de Figueiredo nos EUA fazendo um intenso lobby na Casa Branca em favor do golpismo no Brasil. Após o anúncio do tarifaço, ambos escreveram uma nota que soa como um grupo de terroristas fazendo exigências para soltar reféns.
“Uma hora a conta chega”, começa o texto, que segue amontoando uma série de mentiras. Ao fim, a dupla golpista detalha quais são as exigências para evitar um mal maior para o Brasil:
“Apelamos para que as autoridades brasileiras evitem escalar o conflito e adotem uma saída institucional que restaure as liberdades. Cabe ao Congresso liderar esse processo, começando com uma anistia ampla, geral e irrestrita, seguida de uma nova legislação que garanta a liberdade de expressão especialmente online e a responsabilização dos agentes públicos que abusaram do poder. Sem essas medidas urgentes, a situação tende a se agravar especialmente para certos indivíduos e seus sustentadores. Restam três semanas para evitar um desastre.”
Ou seja, um deputado e um militante bolsonarista denunciado por participar de trama golpista no Brasil estão atuando como coautores e porta-vozes de um governo estrangeiro que nos ameaça e chantageia. Haja patriotismo para os nossos patriotas.
Steve Bannon, outro integrante da máfia e que já foi preso por participar de um esquema de fraude em favor de Trump, foi ainda mais direto que Bolsonaro. Em entrevista ao UOL, o criminoso foi claro na chantagem: “Derrubem o processo contra Bolsonaro, que nós derrubamos as tarifas”.
Bannon nem cargo tem no governo Trump, mas se sente à vontade para fazer esse tipo de ameaça a uma nação amiga dos EUA. O chefe da máfia autoriza que o criminoso atue como porta-voz informal do seu governo. Uma máfia não segue regras e formalidades.
Mas a coisa ficou mais mafiosa ainda quando o senador Flávio Bolsonaro entrou em cena. Em uma entrevista para a CNN, ele avisou que chegou a hora de dar uma segurada nessa história de patriotismo. Segundo ele, o Japão quis bancar o patriota na Segunda Guerra Mundial e acabou levando duas bombas atômicas.
“Como é que sai dessa enrascada agora? A gente vai continuar com o nosso orgulho, né? ‘Somos brasileiros’? Todos nós temos orgulho de ser brasileiros, mas como é que resolve essa situação? Se você olhar para a Segunda Guerra Mundial, o que os Estados Unidos fez [sic] com o Japão? Lançou uma bomba atômica em Hiroshima para demonstrar força. Qual foi a reação do Japão naquela época? Falou: ‘Olha, nós aqui somos patriotas; isso é uma interferência dos Estados Unidos aqui no nosso país; nós aqui vamos resistir; fora ianques’. Qual foi a consequência três dias depois? Uma segunda bomba atômica em Nagasaki”.
Trocando em miúdos: o Brasil capitula ou será atropelado pelos EUA. Como nos filmes de máfia, Flávio coloca a imagem da bomba atômica sobre a mesa para tornar tudo ainda mais ameaçador. Ele continua: “Não estamos em condições normais de exigir nada. Ele vai fazer o que ele quiser, independente da nossa vontade. Cabe a nós termos a responsabilidade de evitar que caiam duas bombas atômicas no Brasil, para depois anunciar que vamos fazer anistia”.
Ou seja, temos um senador brasileiro nos fazendo uma proposta irrecusável: obedecemos os EUA ou sofreremos consequências terríveis, inclusive bélicas. Isso é coisa de máfia ou não é?
Com a ajuda da máfia trumpista, a máfia bolsonarista sequestrou parte da economia brasileira para chantagear os poderes constituídos, tentar derrubar o presidente eleito e livrar Bolsonaro da cadeia para colocá-lo nas urnas na próxima eleição. É o golpismo em estado bruto.
Por outro lado, Lula agora tem a oportunidade de surfar uma onda nacionalista e chegar forte em 2026. Não há dúvidas de que o tarifaço prejudicará a economia, mas não chega a ser um bicho-papão. Segundo a avaliação de economistas da XP, as tarifas devem reduzir o PIB em 0,3 ponto em 2025.
É uma briga que dá para comprar, e Lula já sinalizou que responderá com reciprocidade.
Em todos os países em que Trump meteu o bedelho, o candidato alinhado a ele perdeu a eleição. Foi assim no Canadá e na Austrália. Enquanto Tarcísio de Freitas veste o boné do MAGA e continua caninamente alinhado ao bolsonarismo, Lula poderá encarnar a defesa dos interesses brasileiros.
Depois do IOF, o petista ganhou mais um mote eleitoral. Já o bolsonarismo terá de lidar com a pecha de entreguista, que sacrificou empregos brasileiros para tentar livrar Bolsonaro da prisão.
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