O filme O Conclave (2023), dirigido por Edward Berger e indicado e derrotado ao Oscar de Melhor Filme na premiação deste ano, mergulha nas sombras e tensões da eleição papal, oferecendo um retrato cinematográfico que ecoa dramaticamente o atual processo de sucessão de Francisco. Com roteiro baseado no best-seller de Robert Harris, o longa transforma o ritual sagrado do conclave em um thriller político repleto de jogos de poder, traições e dilemas morais – um espelho perturbador das divisões que hoje agitam a Igreja Católica.
O Enredo: Um Jogo de Xadrez no Sagrado
Ambientado em um Vaticano sufocante, o filme acompanha o cardeal Lomeli (interpretado por Ralph Fiennes), encarregado de supervisionar um conclave após a morte do papa. O que começa como um processo espiritual rapidamente descamba em uma batalha entre facções: conservadores dogmáticos, representados pelo cardeal Bellini (um tradicionalista que rejeita reformas), e reformistas, encarnados no carismático cardeal Adeyemi (que defende transparência e modernização). A trama se aproxima da realidade ao incluir vazamentos secretos à imprensa, alianças subterrâneas e até chantagens – elementos que lembram as manobras reais em torno do sucessor de Francisco.
Paralelos com a Sucessão Atual
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A Divisão Ideológica:
- No filme, como na vida real, a disputa entre “guardiões da tradição” e “agentes da mudança” é central. Francisco, como Adeyemi, enfrentou resistência ao questionar privilégios do clero e ao propor uma Igreja “em saída” para as periferias.
- A eleição de um papa africano no longa (um gesto ousado de Berger) reflete os debates atuais sobre a necessidade de um pontífice não europeu – algo que ganhou força com o legado latino-americano de Francisco.
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O Peso das Crises:
- O filme expõe escândalos financeiros e acobertamentos, ecoando os desafios reais de Francisco para limpar o Banco do Vaticano e punir casos de abuso.
- A pressão midiática retratada (com jornalistas invadindo a privacidade do conclave) lembra o assédio sofrido por Francisco por suas posições progressistas.
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O Dilema da Reforma:
- A cena em que Lomeli destrói documentos comprometedores simboliza a luta entre transparência e tradição – mesma encruzilhada que o próximo papa herdará, especialmente após Francisco abrir arquivos secretos e limitar mandatos da Cúria.
O Filme vs. a Realidade: O Que Fica de Fora?
Berger opta por um final ambíguo, com a eleição de um papa moderado que promete “unidade”. Na vida real, porém, a polarização é mais crua:
- Conservadores como o cardeal Sarah (Gana) já vocalizam a necessidade de “corrigir desvios” de Francisco, especialmente em temas LGBTQIA+.
- Progressistas sonham com um novo pontífice que legalize o casamento de padres ou aprofunde a justiça climática – agendas que o filme apenas insinua.
Por que o Oscar se Interessou?
O Conclave cativou a Academia por ser um drama sobre instituições em colapso, tema caro ao cinema atual (vide Os Suspeitos e Anatomy of a Fall). Sua fotografia claustrofóbica (com câmeras em closes de crucifixos e anéis papais) e o elenco estelar (além de Fiennes, John Lithgow e Isabella Rossellini) elevam a tensão, mas é a urgência política do roteiro que ressoa: em tempos de extremismos, até a Igreja vira palco de guerra ideológica.
O Legado de Francisco na Tela
Embora o filme não cite Francisco, sua sombra paira sobre cada cena:
- A citação final – “Um papa deve morrer mártir ou louco” – parece ecoar os riscos que Francisco enfrentou ao desafiar o status quo.
- A ausência de mulheres no conclave cinematográfico (salvo freiras em cenas menores) critica indiretamente a resistência real à ordenação feminina.
Veredito: Um Espelho Quebrado
O Conclave acerta ao retratar a Igreja como uma arena de poder, mas falha ao romantizar sua capacidade de autocrítica. Enquanto o filme sugere que a “mudança vem de dentro”, a realidade mostra que as transformações de Francisco só avançaram sob pressão externa – de movimentos sociais a escândalos globais. Assistir ao longa hoje é como observar um ensaio ficcional do que está por vir: um conclave que decidirá se a Igreja enterra ou amplifica a revolução silenciosa do papa dos pobres.
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