Se a ideia era demonstrar força, a extrema direita conseguiu exatamente o oposto. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) subiu no trio elétrico neste domingo (1º) para lançar sua pré-candidatura à Presidência da República, mas acabou discursando para uma Avenida Paulista melancolicamente esvaziada. Segundo o impiedoso Monitor do Debate Político da USP, que usa inteligência artificial para contar cabeças e destruir narrativas, o evento reuniu minguadas 20,4 mil pessoas. Para quem no passado, quando o pai hoje preso na Papuda exercia a presidência, já lotou quarteirões inteiros, o número soa como um atestado de óbito político.
Mas o vexame não se resumiu à falta de público. O que mais gritou na Paulista foi o silêncio das ausências ilustres. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que adora um microfone, preferiu ficar em casa. O governador Tarcísio de Freitas, sempre pragmático quando o barco ameaça afundar, arrumou as malas e foi providencialmente para a Alemanha. Sobrou para o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) a ingrata tarefa de atuar como guarda-costas de luxo para um Flávio Bolsonaro visivelmente isolado no próprio palanque.
Delírios no trio e a rampa da Papuda
Sem o calor das multidões de outrora, Flávio tentou inflamar os gatos pingados que restaram com um discurso que misturou covardia e delírio. Cuidadoso, o senador poupou os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) de ataques diretos — afinal, a coragem bolsonarista tem limites muito claros quando a cadeia é uma possibilidade real. Em vez disso, focou no presidente Luiz Inácio Lula da Silva, implorou por anistia aos golpistas de 8 de janeiro e, no ápice da ficção científica, prometeu que seu pai, o inelegível Jair Bolsonaro, subirá a rampa do Palácio do Planalto em 2027.
A piada veio a cavalo. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (Psol), não perdoou o devaneio do senador: “Só se for a rampa da Papuda”, ironizou, lembrando ao clã que o patriarca já cumpre uma pena de 27 anos no complexo penitenciário. A ministra Gleisi Hoffmann (PT-PR) também aproveitou o enterro para jogar sua pá de cal, associando Flávio aos escândalos financeiros do Banco Master e cravando que “o Brasil acordou do pesadelo”.
O preço do fracasso
O fiasco custou caro, literalmente. O deputado estadual Tomé Abduch (Republicanos) admitiu que o movimento “Nas Ruas” torrou cerca de R$ 130 mil para organizar o evento. Uma conta salgada para um público que não chegou à metade dos 42,2 mil apoiadores registrados em setembro de 2025. No Rio de Janeiro, a situação foi ainda mais patética: um ato simultâneo em Copacabana arrastou insignificantes 4,7 mil pessoas.
A matemática das ruas é cruel e não aceita contestação. A extrema direita, que um dia sequestrou o verde e amarelo para chantagear a democracia, agora gasta fortunas para alugar caminhões de som que ecoam apenas o desespero de uma família abandonada pelos próprios aliados.






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