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Brasil Paralelo
Ilustração: FLIA
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Brasil Paralelo vira máquina fascista para crianças

Documentários distorcem ciência e atacam escola pública

A Brasil Paralelo é uma produtora que surgiu no Rio Grande do Sul em 2016, no contexto dos atos pelo impeachment de Dilma Rousseff. Fundada por Henrique Viana, Lucas Ferrugem e Felipe Valerim, em conexão com o empresário Leandro Ruschel, a empresa se estrutura desde o início com um projeto ideológico claro. Com táticas que vão desde a produção de documentários à infiltração nas escolas, ela tem atuado para interferir na educação e alcançar seus objetivos financeiros e ideológicos.

Para entender a sua atuação, é importante lembrar a influência de Olavo de Carvalho, que defendia que a Brasil Paralelo deveria ser uma “empresa militante”. Essa orientação se reflete na produção audiovisual da empresa, com temáticas históricas, políticas e educacionais. A produtora opera entre a lógica do negacionismo histórico-científico e a da desinformação – ou, melhor dizendo, para compreender suas “realidades paralelas”, vale mencionar o que o historiador e articulista da revista LibertaJoão Cezar de Castro Rocha, denomina de “sistema de crenças olavista”. No caso da Brasil Paralelo, esse sistema se estrutura a partir de três teses fundantes: 1) o mito fundacional da nação idealizada; 2) o pânico moral; e 3) a teoria da conspiração.

Brasil Paralelo

Henrique Viana, Lucas Ferrugem e Felipe Valerim, fundadores da Brasil Paralelo.

Mas entender a ideologia e a militância da Brasil Paralelo não é o suficiente. Para compreender, de fato, o projeto da produtora, é preciso dar nome aos bois. Esse é um projeto da elite empresarial do Rio Grande do Sul e carrega consigo, segundo seus fundadores, uma “missão”: construir um projeto ultraliberal e reacionário de educação. Uma educação privada e focada nos interesses e lucros de seus sócios e apoiadores, como Jorge Gerdau, Hélio Beltrão, Leandro Ruschel e toda a elite de empresários que constituem o IEE – Instituto de Estudos Empresariais e o Fórum da Liberdade, ambiente onde a BP surgiu e se financiou.

Projeto de longo prazo: o campo educacional

A produtora constrói uma narrativa sobre a educação que se assemelha ao projeto Escola Sem Partido, no qual o que deve ou não ser ensinado precisa ser orientado pelo seu campo ideológico. A lógica de suas produções está em colocar a escola e as universidades como as verdadeiras culpadas pela suposta “crise educacional” que o país vive e pelo baixo índice de alfabetização. Segundo ela, isso se dá porque “a educação formal no Brasil atual é amplamente ancorada nos métodos pedagógicos de Paulo Freire e Jean Piaget” (Brasil Paralelo, 2024).

Essas produções não são isoladas; elas fazem parte de um projeto de longo prazo, que tem como propósito minar a educação pública e ocupar esses espaços. Seu objetivo é nítido e central: “criar alternativas paralelas” às universidades e escolas. Isso se torna visível a partir das parcerias estabelecidas e dos projetos levados à frente pela empresa.

A parceria com o G10 Favelas (acordo firmado, no final de 2021, com a Sony Pictures) e as iniciativas de levar materiais da empresa para escolas por meio de bolsas de estudo (aglutinadas no Projeto Mecenas) ilustram essa estratégia. Reportagem do The Intercept Brasil mostra que o Projeto Mecenas tem sido usado para inserir conteúdos da Brasil Paralelo em escolas e organizações sociais, já tendo chegado a 284 instituições e cerca de 23 mil pessoas. A ação é financiada por aproximadamente 6 mil apoiadores, que custeiam assinaturas para essas instituições.

Pânico moral, desinformação e método

Até o momento, três documentários da Brasil Paralelo focam na educação pública do país. Em Pátria Educadora, de forma mais genérica, o ataque foi dirigido a todo o ensino público; depois, às universidades, em Unitopia; e, agora, em Pedagogia do Abandono, o mais recente, a produtora concentra os ataques na educação infantil de zero a cinco anos.

Ideologia e interesses financeiros se misturam. Para entender o método utilizado em Pedagogia do Abandono, voltaremos ao guru Olavo de Carvalho. O documentário é a cara dele. Fala do ensino infantil no Brasil como se este fosse dominado por ideologias de esquerda. E faz isso acompanhado de muita transfobia, pânico moral e distorções, como a tal ideologia de gênero, além de apresentar estudos científicos distorcidos.

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Olavo de Carvalho: guru dos criadores da Brasil Paralelo (Foto: Divulgação)

O que diferencia a BP de seu guru é o “profissionalismo” da produtora. Por lá, tudo é embalado como um produto, com a presença de vários supostos especialistas no tema, qualidade de áudio e vídeo impecáveis e muito sensacionalismo. Também não faltam os famosos gatilhos mentais do marketing digital para prender e convencer a audiência. Exemplos: “Vamos mostrar o que os professores estão ensinado para o seu filho” ou “Uma investigação inédita sobre a educação infantil no Brasil”.

E, depois de causar pânico moral para descredibilizar a educação básica, adivinha qual é a solução apresentada para o problema? A solução é o ensino em casa ministrado pelos próprios pais, longe dos supostos perigos da doutrinação do Estado. E se a solução é o homeschooling, a culpa pelos supostos problemas na educação é de Paulo Freire, criador da Pedagogia do Oprimido, e dos métodos criados e defendidos por ele.

É nessa combinação entre o pânico moral característico do olavismo e do bolsonarismo e o uso intensivo de estratégias de marketing digital que a Brasil Paralelo se consolida como uma engrenagem de propaganda alinhada à falsificação e à desinformação, compondo a base que sustenta sua estratégia de comunicação.

Isso se expressa também nos ataques direcionados a Maria da Penha no documentário A Investigação Paralela: o Caso Maria da Penha, que usa documentos falsos para sustentar uma narrativa infundada; e se repete na recente divulgação do documentário Pedagogia do Abandono, que faz uso da manipulação da voz e da exposição pública de uma criança, como já foi denunciado ICL Notícias. Para quem não acompanhou o caso, a Brasil Paralelo modificou a voz do filho da influenciadora Mari Lopes, dando a entender que uma professora o “doutrinou” para dizer que “meninos podem usar brinco e saia”. A produtora utilizou a frase inventada nas suas redes sociais e em anúncios pagos para divulgar o documentário. A fala nunca foi dita.

Além disso, a Brasil Paralelo afirmou que a filmagem foi autorizada pela gestão do atual vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), mas a direção da escola, os professores e os familiares não foram informados sobre o teor do documentário.

Como não é novidade, o caso choca, mas não surpreende. É parte da estratégia da produtora. A situação deixa à mostra a contradição óbvia: a BP não se importa com as crianças.

Mercado, lucro e disputa pela educação

Todo esse movimento, que, olhando de longe, pode parecer apenas mais um espetáculo desordenado do campo bolsonarista, também tem objetivos financeiros claros: é uma tentativa de reserva de mercado. Os interesses financeiros da Brasil Paralelo e de seus investidores vão além dos projetos de longo prazo, como o desmonte da educação pública com interesse em sua privatização e a entrada no mercado da educação privada. É necessário também lucrar no curto prazo. Para além da venda de assinaturas (carro-chefe da produtora), a aposta é no homeschooling (educação domiciliar).

Existem hoje diversos projetos de lei tramitando no Congresso Nacional que visam regulamentar o ensino domiciliar no Brasil. Inclusive, mais recentemente, houve a tentativa de incluir a pauta no Novo Plano Nacional de Educação (PNE 2025-2035). Após acordo do governo com os parlamentares, o plano foi sancionado, neste mês, pelo presidente Lula sem a inclusão do homeschooling.

Com uma busca simples nas redes da Brasil Paralelo, é possível identificar o lobby consistente do homeschooling em dezenas de conteúdos e anúncios, a venda de cursos de parceiros sobre o tema, além da comercialização dos próprios cursos de formação de pais, como o Travessia da Família, onde o homeschooling é incentivado como alternativa para a educação tradicional.

Essas iniciativas não deixam dúvidas: a atuação da produtora não se limita ao setor audiovisual, mas avança com uma estratégia estruturada de presença e disputa na área da educação, como forma premeditada de obtenção de ganhos financeiros para a Brasil Paralelo e para seus apoiadores.


João Pedro Procopio é especialista em comunicação e marketing digital e um dos administradores do perfil Brasil Para Lerdos no Twitter e no Instagram.

Mayara Balestro é historiadora e desenvolve pesquisas sobre extremismos de direita, desinformação e negacionismo histórico e científico.

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