Jair Bolsonaro, o capitão golpista em prisão domiciliar, acaba de fazer algo que nem os generais-presidentes da ditadura de 1964 ousaram: transformar o cárcere em palanque eleitoral e a família em comitê de campanha, por escrito, em carta pública, lida em vídeo nas redes sociais pelo filho senador no sábado, 11 de julho. O ex-presidente, recolhido cumprindo pena em sua residência por ordem do Supremo Tribunal Federal, estampou no papel o que seus asseclas vinham repetindo há meses: Flávio Bolsonaro é “seu pré-candidato e porta-voz”. A carta, publicada nas redes sociais pelo senador do PL em uma live de YouTube, é um documento que mistura o patético e o cínico, o filial e o eleitoreiro, o desespero de um chefe de clã encurralado pela Justiça e a presunção de quem imagina que o Brasil ainda aguarda, de joelhos, suas instruções políticas.
A manobra tem uma destinatária oculta que todo Brasil conhece e que a própria carta não nomeia: Michelle Bolsonaro. A ex-primeira-dama não foi avisada, não foi consultada, não foi sequer informada. Tomou conhecimento da existência do documento pelas redes sociais, como qualquer internauta, enquanto estava fora de casa. Aliadas dela informaram ao colunista Valdo Cruz, do G1, que a publicação aprofundou a divisão familiar e política, causando incômodo. O eufemismo é generoso. O incômodo de Michelle não é de hoje, não é com a carta, é com o rumo inteiro da sucessão presidencial no campo bolsonarista, rumo que ela imagina deveria passar por ela, não pelo enteado.
A crise no clã não é briga de família. É luta autofágica.
O canibalismo familiar
A fratura entre Michelle e Flávio é pública, notória e irreconciliável, com a ex-primeira-dama se afastando da presidência do PL Mulher, comunicando a saída ao presidente do partido, Valdemar Costa Neto. A reconciliação entre os dois, segundo aliados, é hoje “impossível”. O afastamento de Michelle do PL Mulher foi o primeiro passo formal de um movimento que tem tudo a ver com a carta de sábado e nada a ver com a harmonia familiar.
Há uma razão mais funda, e mais suja, por trás desses movimentos todos. Paira sobre Flávio Bolsonaro o rumor persistente, reiterado, never-ending, de um vídeo em que ele aparece no meio de uma orgia. Não é boato de rodapé de WhatsApp, é informação que circula nos corredores do PL, nas conversas de bastidor do bolsonarismo mais raivoso, entre os mesmos evangélicos que sustentam o clã com dízimo e voto. Se o vídeo existe e vem a público, é um tiro de morte na já frágil candidatura do senador neofascista à Presidência. Não sobrevive, politicamente, um pré-candidato a presidente da República exposto em um vídeo desse jaez, nem mesmo no Brasil de 2026, país que já tolerou muita coisa mas ainda não tolerou tudo.
Michelle sabe do vídeo. E, com a ajuda dos evangélicos do PL, inclusive o infantil deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que se imagina estrategista mas é mero arauto da bancada gospel, colocou-se como alternativa, caso Flávio seja inviabilizado. A ex-primeira-dama tem boa aceitação entre as mulheres e os evangélicos, além de ser esposa do golpista Jair Bolsonaro, que é o grande líder neofascista no Brasil. Logo, uma candidatura dela à Presidência, em vez da dele, é abertamente construída pelo neofascismo evangélico brasileiro. Não é Michelle que se candidata. É a igreja que se candidata através de Michelle.
Só que o bolsonarismo, neofascista que é, cultiva com gosto outra característica dos tempos antigos: o machismo. Não aquele machismo dado a moderninho, meio acanhado. Não! O machismo mesmo, aquele que acha que lugar de mulher é dentro de casa, obedecendo o homem candidamente e cuidando da família. Logo, no código bolsonarista, o que Michelle faz com Flávio é coisa de alta traição ao machão Jair.
O cárcere como palanque
A carta de Bolsonaro, lida pelo filho em live no YouTube no sábado à noite, não é apenas um documento de apoio à pré-candidatura de Flávio. É uma peça de comunicação política produzida por um réu em prisão domiciliar, que usa o regime de cumprimento de pena para fins eleitorais. O PT entendeu isso imediatamente. Na noite de sábado, horas depois da divulgação, o partido entrou com recurso no Supremo Tribunal Federal questionando a prisão domiciliar de Bolsonaro por suposto uso do regime para fins eleitorais. A decisão ainda não foi julgada, mas o argumento é claro: o ex-presidente está usando a casa onde deveria estar recolhido como quartel-general de campanha.
Aliados de Bolsonaro e de Flávio reagiram com o argumento mais gasto do arsenal bolsonarista: Lula, durante sua prisão em 2018, também se comunicou politicamente. A diferença, que o bolsonarismo teima em não enxergar, é que Lula não escreveu cartas endossando candidaturas de familiares enquanto cumpria pena. Escreveu cartas a brasileiros, ao povo, à democracia, não ao próprio clã para impor sucessão dinástica. Mas o bolsonarismo nunca se constrangeu com a diferença entre fato e ficção, entre analogia e apropriação indébita.
A fábula gospel
A manobra de Michelle Bolsonaro não é improvisada. É desenhada, costurada e financiada pelo neofascismo evangélico que se consolidou como a força política mais organizada e mais perigosa do bolsonarismo pós-golpe. O PL de Valdemar Costa Neto, o mesmo partido que abriga o capitão golpista e seu filho senador, é hoje um instrumento de poder das igrejas evangélicas, que veem no Brasil uma oportunidade de repetir o modelo americano de fusão entre púlpito e urna, entre Bíblia e Constituição, entre fé e Estado.
Nikolas Ferreira, o deputado mirim que se notabilizou por discursos histéricos na Câmara e poses de militante de trincheira nas redes sociais, é o rosto mais visível dessa operação. Não é o cérebro, porque o cérebro está nos templos e nos gabinetes dos pastores que controlam o PL, mas é a voz que vocaliza o projeto: Michelle como candidata, Michelle como alternativa, Michelle como mártir da família desfeita pelo enteado ambicioso.
O problema desse roteiro é que ele depende de uma variável que nenhum pastor controla: o vídeo de um alegre Flávio numa festa quente dessas que a Bíblia fala das famosas cidades dos Gênesis, capítulo 18. Se o vídeo existe e vira público, a candidatura do senador desaba antes de decolar, e Michelle passa a ser não a alternativa de última hora, mas a candidata planejada desde o início, o que muda a narrativa de “resgate da família” para “projeto de poder da igreja”. Se o vídeo não existe ou nunca vem a público, Flávio permanece como candidato e Michelle como a inconformada que tentou roubar a sucessão do enteado. Em ambos os cenários, o clã Bolsonaro sai menor do que entrou.
O silêncio do capitão
A carta de sábado é o último gesto de um líder que não lidera mais nada além da própria família, e mesmo essa ele não consegue governar. Bolsonaro escreveu um documento para dizer ao Brasil que Flávio é seu candidato, mas não conseguiu dizer à própria esposa que ia escrever. Michelle tomou conhecimento pelo feed do Instagram. O capitão que sempre se gabou de comandar o clã como um quartel, que distribuiu cargos para os filhos como medalhas, que transformou a família em extensão do projeto político, agora vê o quartel em motim, os filhos em crise, a esposa em campanha paralela, e o próprio cárcere como o único palco que lhe resta.
A democracia brasileira, que sobreviveu ao golpe de 2022 por um fio, assiste agora ao espetáculo de um ex-presidente golpista em prisão domiciliar usando carta manuscrita para impor sucessão dinástica, enquanto a esposa articula com pastores uma candidatura alternativa e o filho senador navega sob a sombra de um rumor que pode destruí-lo a qualquer momento. O neofascismo evangélico, que se imagina o futuro do Brasil, não percebe que está reproduzindo, com Bíblia e tudo, a mesma farsa palaciana que sempre denunciou nos adversários.
O clã Bolsonaro não é uma família. É uma tragédia em cinco atos, e o último ainda não foi escrito.





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