O mapa eleitoral do deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) é claro: sua votação se concentra no estado do Rio de Janeiro, com 65.443 votos em 2022, espalhados por 92 municípios fluminenses. Mas o destino de nada menos que
R$ 94 milhões em emendas parlamentares que ele “assinou” como autor formal aponta para uma geografia bem diferente. O dinheiro foi parar em cidades onde Sóstenes não teve votos — ou teve votação tão inexpressiva que chega a ser constrangedor.
A explicação, segundo a Polícia Federal, é que o verdadeiro controlador dessas emendas não era Sóstenes, mas o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto. O deputado do PL serviu como “laranja” para dar aparência de legalidade a um esquema de desvio de
R$ 119 milhões. E os dados eleitorais confirmam: o destino do dinheiro não tem relação com a base eleitoral do parlamentar.
Os números que acusam
O levantamento do portal Votografia mostra que Sóstenes teve votação inexpressiva em dezenas de municípios. Veja alguns exemplos:
- Quatis (RJ): 3 votos. Zero vírgula zero
- Pinheiral (RJ): 13 votos
- Comendador Levy Gasparian (RJ): 13 votos
- Rio Claro (RJ): 10 votos
- Areal (RJ): 20 votos
- Quissamã (RJ): 19 votos
- Santa Maria Madalena (RJ): 16 votos
Agora compare com os destinos das emendas. Um caso emblemático é o show da dupla Thaeme & Thiago na Festa do Peão de Guaimbê (SP) — cidade do interior paulista onde Sóstenes, deputado do Rio de Janeiro, teve exatamente zero votos. A emenda de
R$ 280 mil foi paga integralmente com dinheiro público. A investigação da PF aponta que, embora conste oficialmente em nome de Sóstenes, a indicação partiu de Valdemar, que tem base eleitoral em São Paulo.
O Estadão revelou ainda que as emendas “assinadas” por Sóstenes e pelos deputados Luiz Carlos Motta (PL-SP) e Capitão Alden (PL-BA) foram direcionadas para estados como Pará, Bahia e São Paulo — todos fora da base eleitoral do líder do PL fluminense.
O contraste entre votos e destinação
A maior parte dos votos de Sóstenes se concentra na capital (29.289 votos), Duque de Caxias (3.932), Nova Iguaçu (3.085), São João de Meriti (1.903) e São Gonçalo (1.662). São cidades da Região Metropolitana do Rio, onde o deputado construiu sua carreira política desde 2014, sob a mão evangélica de Silas Malafaia, de quem é uma espécie de contínuo político.
No entanto, as emendas investigadas pela PF seguiram direção oposta. Os
R$ 94 milhões que levaram a assinatura de Sóstenes foram parar em municípios distantes de sua base eleitoral, muitos deles em outros estados. A conclusão dos investigadores é que o deputado serviu como “solicitante formal” para ocultar o verdadeiro comando do dinheiro — o presidente do partido, Valdemar Costa Neto.
O padrão do laranja
O caso de Sóstenes não é isolado. Luiz Carlos Motta (PL-SP) e Capitão Alden (PL-BA) aparecem no mesmo esquema. Mas é o líder do PL na Câmara quem concentra a maior fatia:
R$ 94 milhões dos R$ 119 milhões investigados.
A pergunta que o mapa eleitoral responde de forma definitiva: se Sóstenes não tem votos nessas cidades, por que mandou milhões para lá? A resposta da PF é uma só — porque ele não mandou. Quem mandou foi Valdemar. Sóstenes só emprestou o nome.






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