Dólar
R$ 5.08 Subiu
Euro
5.789 Subiu
Brasília
18°C 29°C 18°C

Explore Mais

Colunas exclusivas e conteúdos especiais

convenção PL Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro é lançado candidato a presidente da República durante convenção do PL em São Paulo: participação grotesca do presidente neofascista da Argentina, Javier Milei. Foto: Beto Barata/PL
BRASIL

Convenção do PL revela isolamento e desespero de Flávio

Sem Centrão, com IA e com notas do Master, senador afunda

Neste sábado (25), o Partido Liberal formalizou, na Arena Pacaembu, em São Paulo, a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. O evento começou com quase quatro horas de atraso, o que, se houvesse senso de ironia na organização, seria um presságio. Valdemar da Costa Neto, presidente nacional do PL, abriu a convenção. O presidente da Argentina, Javier Milei, voou de Buenos Aires para discursar por trinta minutos, criticou o que classificou de “ameaças do socialismo” e, no meio da fala, a tradução no telão dessincronizou do espanhol, dificultando a compreensão de parte do público. Um estrangeiro que não fala a língua do país veio apoiar um candidato que não fala a língua do país que quer governar, e ninguém entendeu nada. A metáfora estava dada antes do primeiro discurso.

A convenção teve vídeos gravados pelos irmãos do candidato, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro e o ex-vereador Carlos Bolsonaro, e por Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama e ex-presidente nacional do PL Mulher, a mesma Michelle que tomou conhecimento da carta manuscrita de Jair impondo Flávio como candidato pelas redes sociais, como qualquer internauta, e que articula com pastores evangélicos uma candidatura alternativa para o caso, cada vez menos hipotético, de o enteado naufragar. A reconciliação entre Michelle e Flávio, segundo aliados, é “impossível.” Mas ali estavam os dois, na mesma tela, no mesmo evento, fingindo que a família não está em guerra civil. Flávio disse estar emocionado. A esposa, cirurgiã-dentista Fernanda Bolsonaro, discursou. O pai, cumprindo pena por tentativa de golpe de Estado, não pôde comparecer. Mas apareceu de outra forma. E é aqui que a convenção sai do patético e entra no criminoso.

O morto que fala

Durante o evento, foi exibido um vídeo produzido com recursos de inteligência artificial simulando a imagem e a voz do ex-presidente Jair Bolsonaro. No conteúdo, o capitão golpista, recolhido em prisão domiciliar por ordem do Supremo Tribunal Federal, aparece pedindo apoio à candidatura do filho. O problema é que Jair Bolsonaro está preso. Não pode gravar. Não pode discursar. Não pode participar de campanha eleitoral. E alguém, dentro do PL, decidiu contornar esse pequeno detalhe constitucional fabricando um Bolsonaro digital, um fantasma de pixels e áudio sintético, para endossar Flávio no palco.

O deputado federal Reimont (PT-RJ) protocolou, neste mesmo sábado, representação junto à Procuradoria-Geral da República solicitando a apuração de possível prática de propaganda eleitoral ilícita. Na representação, Reimont afirma que “a legislação eleitoral foi atualizada justamente para proteger a democracia dos riscos trazidos pela manipulação digital da realidade. O uso de inteligência artificial para simular a imagem e a voz de uma pessoa com finalidade eleitoral compromete a integridade do debate público e afronta as regras estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral.” O parlamentar pede que o Ministério Público Eleitoral instaure procedimento investigatório, identifique os responsáveis e determine a imediata suspensão da veiculação do vídeo.

A candidatura de Flávio Bolsonaro nasceu com um deep fake. Não nasceu com proposta, não nasceu com aliança, não nasceu com biografia. Nasceu com uma mentira fabricada por algoritmo, com a imagem de um preso fabricada por máquina, para ludibriar o eleitor. Lula, na convenção do PT em Campinas, no mesmo sábado, disse o que precisava ser dito:

“Os nossos adversários vão trabalhar muito nas redes digitais com inteligência artificial para inventar coisas que eles não fizeram, para inventar coisas que eles não são e para fazer promessas que eles jamais irão cumprir. Porque a base da sustentação da campanha deles é uma coisa chamada mentira.”

A indireta de Nikolas

E se o deep fake do pai não bastasse, a convenção produziu outro momento que merece dissecção. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), o infantil arauto da bancada gospel que se imagina estrategista, gravou um vídeo exibido no Pacaembu em que declarou apoio a Flávio e afirmou que a candidatura representa “fazer justiça com aqueles que estão presos injustamente, como os presos do dia 8 de janeiro, como nosso único líder Jair Bolsonaro que está preso, não por corrupção, não por rachadinha, não por nada além de uma perseguição que ele está sofrendo.”

A frase viralizou. Não pelo apoio a Flávio, mas pela indireta. “Não por corrupção, não por rachadinha.” A expressão foi interpretada por bolsonaristas como uma alfinetada no próprio candidato que a convenção lançava, porque Flávio Bolsonaro é investigado por rachadinha e é apelidado por muitos como “Flávio Rachadinha.” O deputado que deveria aplaudir o candidato acabou, sem querer ou querendo, lembrando ao público que o homem no palanque tem o mesmo esquema de desvio que o pai não tem, mas o filho tem. Nikolas tentou consertar dizendo que “a gente tá fechado com o Flávio,” mas o estrago estava feito. A convenção do PL produziu, em um mesmo vídeo, um endosso e uma acusação. Não é possível saber se Nikolas foi desastrado ou genial. Sabemos que foi Nikolas.

Canal no WhatsApp

Receba notícias da Frente Livre direto no celular.

O isolamento

Enquanto o PL fabricava Bolsonaros digitais e Nikolas dava indiretas, o mundo real seguia seu curso. O senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional do Progressistas, comunicou a Flávio que a federação formada por PP e União Brasil adotará neutralidade no primeiro turno. O Centrão subiu no muro. A mesma posição pode se repetir em segundo turno. Segundo fonte do Centrão, a relação de Ciro com Flávio azedou porque o presidente do PP reclama que o senador do PL não saiu em sua defesa quando a Polícia Federal realizou operação que o atingiu. Além disso, dirigentes das siglas temem o surgimento de novas acusações ligando o pré-candidato a Daniel Vorcaro.

Flávio tenta negociar com o Republicanos, mas enfrenta obstáculos: a sigla sinaliza neutralidade e reclama que o PL não quer apoiar seus candidatos a governador em estados como Mato Grosso, Roraima e Acre. Tereza Cristina disse não. O isolamento é a foto da campanha. O homem que foi ao Pacaembu buscar a coroa não conseguiu trazer um aliado de peso que não fosse estrangeiro. Milei veio da Argentina. O Centrão ficou em casa.

As notas que não calam

E há o Banco Master, que não sai do pé de Flávio Bolsonaro porque Flávio Bolsonaro não se desliga do Banco Master. A Frente Livre, em 22 de julho, três dias antes da convenção, noticiou que o senador não consegue explicar notas fiscais de R$ 1,5 milhão emitidas por seu escritório de advocacia para empresas ligadas ao esquema do Banco Master de Daniel Vorcaro. O mesmo Vorcaro que pagou 30 milhões de dólares em propina a Alcolumbre. O mesmo Vorcaro que tem áudio de Flávio pedindo dinheiro. O mesmo Vorcaro cujo “Sicário” aparece em foto ao lado de Flávio. O mesmo Vorcaro cujo iCloud do miliciano está sendo vasculhado pela Polícia Federal sob relatoria de André Mendonça no STF.

Flávio diz que fez trabalhos advocatícios para empresa ligada ao gângster Vorcaro. A empresa se chama Copenhagen. Ele diz que cancelou a nota. A explicação é tão crível quanto o deep fake do pai. O homem que quer presidir o Brasil não consegue explicar R$ 1,5 milhão em notas fiscais emitidas contra empresas de um banqueiro corrupto, preso, delator, e cujo chefe de milícia privada era seu conhecido fotografado. E a convenção do PL não mencionou uma única palavra sobre o Banco Master. Não mencionou porque não pode. Porque mencionar é confessar.

O outro palanque

No mesmo sábado, a 100 quilômetros de distância, em Campinas, a convenção estadual do PT lançou Fernando Haddad como candidato ao governo de São Paulo, com Márcio França (PSB) como vice e Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB) como candidatas ao Senado. O evento reuniu Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin, Haddad e as duas ex-ministras. Tebet, sem citar Flávio nominalmente, cravou:

“Não podemos nos enganar. 2022 não passou. Estamos no ano de 2026 enfrentando os mesmos desafios do passado. O presidente Lula, Geraldo Alckmin e o Brasil enfrentam, do lado de lá, não um democrata, mas um golpista de plantão. Tal pai, tal filho.” E completou: “Já começou questionando a segurança das urnas. Já sabe, já sente o cheiro da derrota em outubro. E já quer colocar em dúvida os resultados das urnas.”

Na terça-feira (21), Flávio questionou a efetividade das urnas eletrônicas em reunião com diplomatas, usou informações já desmentidas pelo Tribunal Superior Eleitoral e pediu que representantes estrangeiros enviassem o “máximo de observadores” para acompanhar as eleições. O PT acionou o TSE. O senador que sente o cheiro da derrota já prepara o terreno para contestar o resultado. Tal pai, tal filho. O pai contestou em 2022 e tentou golpe. O filho contesta em 2026 e prepara o que, exatamente?

Lula, em Campinas, foi cirúrgico: “Nossos adversários não têm tamanho, nem biografia, nem proposta.” E sobre a ingerência estrangeira, sobre o Departamento de Estado dos EUA que admitiu ter “interesse” no processo eleitoral brasileiro, sobre Trump que impõe tarifaço e recebe Flávio em Washington: “Quem quiser de fora vir se meter nas eleições brasileiras, já vou avisando logo: vão apanhar muito aqui nas eleições. Quem vai decidir o destino desse país são 157 milhões de eleitores.”

O retrato

A convenção do PL lançou um candidato que não consegue fechar aliança, não consegue explicar as próprias notas fiscais, não consegue parar de mentir sobre urnas, não consegue melhorar a imagem nas redes e não consegue se livrar do fantasma de Daniel Vorcaro. PP e União Brasil fugiram. Tereza Cristina disse não. O Republicanos fala em neutralidade. O PT pede multa no TSE. A PGR investiga deep fake. As redes o enterram. A foto com o Sicário não sai do noticiário. O iCloud do miliciano está aberto. As notas de R$ 1,5 milhão não calam. E o pai, preso em domicílar por tentativa de golpe de Estado, teve que ser ressuscitado por inteligência artificial para endossar o filho que não consegue se sustentar em pé sozinho.

A candidatura de Flávio Bolsonaro nasceu morta. O deep fake é o respirador artificial. Milei é o padre que veio dar extrema-unção. E o eleitorado brasileiro, que em pesquisa Genial/Quaest já culpa Flávio pelo tarifaço em 51%, já rejeita Flávio em 57% e já prefere Lula por 40% contra 28%, é o legista que vai assinar o atestado. Falta pouco. O cadáver já está na mesa.

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Final da página
WhatsApp

Frente LIVRE

Normalmente responde dentro de uma hora
Frente LIVRE

Olá 👋

Fale com o ciberporto da esquerda popular ✊💡

20:57