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Estudante de Campinas perdeu a bolsa do ProUNI porque a mãe movimentou dinheiro nas plataformas de apostas. Foto: Reprodução.
VIDA

O incrível caso do estudante que perdeu ProUNI pra BET

Estudo aponta perda de 0,68% da renda das famílias para plataformas

A indústria das apostas online, a mesma que promete “enriquecimento fácil” em propagandas estreladas por celebridades e influenciadores, segue cobrando um preço cada vez mais alto das famílias brasileiras. Enquanto um estudo aponta que as famílias perderam R$ 62,5 bilhões para as BETs em 2025, um estudante de Campinas (SP) viu a bolsa integral do Programa Universidade para Todos (Prouni) ser negada porque sua mãe movimentou dinheiro nessas plataformas.

Eduardo Luvizetto dos Santos foi pré-selecionado para cursar Psicologia com bolsa integral em uma unidade da Universidade Paulista (UNIP). O benefício, porém, foi negado durante a análise socioeconômica: a instituição considerou como renda as movimentações bancárias da mãe relacionadas a plataformas de apostas online.

O estudante afirma que a renda familiar permanece dentro do limite exigido pelo programa e que os registros não representam salário, benefício ou ganho financeiro — são apenas depósitos e saques ligados aos jogos, além de operações de crédito relacionadas ao problema com apostas. Após ter um recurso administrativo negado, Eduardo pretende recorrer à Justiça.

O rombo que as bets causam

Os R$ 62,5 bilhões perdidos pelas famílias em 2025 são o valor líquido da transação: a diferença entre o dinheiro apostado pelos usuários e o montante devolvido pelas empresas em prêmios. Segundo o boletim, o valor equivale a aproximadamente 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias.

Ao mesmo tempo, as plataformas movimentaram R$ 350,97 bilhões em transferências via Pix no primeiro ano de regulamentação.

“Esse comportamento indica que o setor passou a absorver um volume substancial de recursos das famílias sem devolução proporcional, característica típica dos mercados de apostas, nos quais apenas uma parcela dos valores apostados retorna aos jogadores na forma de premiações”, diz o documento.

Os números do estudo, produzido pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), são superiores aos registrados pelo Ministério da Fazenda, que apontou receita de R$ 36,9 bilhões para as bets legais em 2025. A diferença de R$ 25,6 bilhões equivale a cerca de 41% do total estimado pelo boletim.

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Quem lucra com o vício

O estudo destaca ainda que a proibição de apostas para beneficiários do Bolsa Família, em outubro de 2025, produziu uma desaceleração do crescimento das transações — o que sugere que as famílias de menor renda têm participação relevante no mercado brasileiro de apostas online. “Em conjunto com os elevados níveis de endividamento e de comprometimento da renda, esse resultado reforça o diagnóstico de vulnerabilidade financeira das famílias brasileiras no atual ciclo econômico”, afirma o estudo.

Enquanto isso, o caso do estudante de Campinas expõe o absurdo do sistema: a mãe movimentou dinheiro em plataformas de apostas, a UNIP considerou essas movimentações como “renda” e o jovem perdeu a bolsa que o tiraria da condição de dependência financeira. A mesma indústria que suga bilhões das famílias ainda ajuda a tirar oportunidades de quem mais precisa.

Especialistas em direito educacional ouvidos pela reportagem afirmam que movimentações bancárias podem servir como indício para análise da renda, mas, por si só, não caracterizam acréscimo patrimonial. No caso das apostas, é necessário verificar se houve lucro efetivo — e não apenas o volume de transações. A UNIP, em nota, afirmou que considerou como renda apenas as entradas recorrentes relacionadas às apostas.

O jogo que só tem um vencedor

A lógica é perversa: a bet promete prêmios, o apostador perde, a família endivida, e quando o dinheiro aparece nos extratos — mesmo que seja o mesmo dinheiro indo e voltando — o sistema usa isso contra o mais vulnerável. O estudante perde a bolsa. As famílias perdem bilhões. O Estado, por sua vez, arrecada impostos de um setor que drena a renda dos trabalhadores.

A indústria das apostas não devolve nem 20% do que absorve. Mas devolve, sim, consequências: endividamento, desemprego, vício, e agora, até a perda de oportunidades educacionais. Enquanto o país discute regras para as bets, milhares de famílias já aprenderam, na prática, que nesse jogo o único vencedor é quem vende o vício.

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