Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, o corrupto ex-controlador do liquidado Banco Master, ligam o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, a um suposto encontro com uma garota de programa, cujo aconcheco custou a nada pequena quantia de R$ 10 mil, paga por Vorcaro. A negociação teria sido intermediada por uma agenciadora identificada como Rayanna e aqui o que já era feio, piora: os carinhos teriam sido trocados num apartamento que então pertencia ao então pastor Fabiano Zettel, da Igreja Batista da Lagoinha. Cunhado de Vorcaro, Zettel é apontado pela Polícia Federal (PF) como operador financeiro da lavagem de dinheiro do Master. O ministro nega o encontro.
Claro que nega. Quem admitiria uma patifaria dessas? A negação é o esperado, o óbvio, o protocolo. O que importa é o que o celular do banqueiro corrupto revela: um ministro da corte constitucional “ficando” com uma garota de programa pela bagatela de R$ 10 mil, tudo alcovitado por um pastor evangélico. Corrupção, sexo e fé. Essa mistura fedida é que dá nojo.
A pauta de costumes é o combustível político dos evangélicos. Eles vivem por aí pregando moralismo, se declarando conservadores, defensores dos valores da família, cobrando do Estado a criminalização do aborto, a censura à arte e o controle dos corpos alheios. É com esse discurso que elegem bancadas, arrancam cargos e se apresentam como os guardiões da ética. Mas quando o celular de um banqueiro corrupto é aberto, o que aparece é o pastor — o mesmo que comanda o “banco da igreja” — alcovitando o encontro de um ministro do Supremo com uma garota de programa. O moralismo é o disfarce; o cofre e a cama são a verdade.
O diálogo que o celular guardou
A conversa começa em 28 de fevereiro de 2025. Rayanna pergunta a Vorcaro: “Qual o endereço, Dani?”. Na sequência, avisa: “As meninas estão prontas”. Vorcaro responde com o endereço da própria residência: “Leopoldo 1377, 23 andar itaim” — a Rua Leopoldo Couto de Magalhães Júnior, 1377, no Itaim Bibi, em São Paulo, o condomínio de altíssimo padrão Pateo Leopoldo.
Uma semana depois, em 7 de março, Rayanna retoma o assunto. “A minha amiga lá aquele dia! Deu certo né?”, pergunta. Em seguida, dispara: “Ela disse que ficou com o kassio” e “Ela tá me cobrando aqui”. Vorcaro responde pedindo os dados para o pagamento: “Me manda aqui” e “Dados e valor”. Rayanna fecha: “10 né!”, acrescenta “Ela ficou com ele” e envia um endereço de e-mail. O valor: R$ 10 mil.
Segundo reportagem conjunta dos sites Alma Preta e ICL Notícias, o imóvel do suposto encontro não era qualquer um. Era um triplex de 914 metros quadrados, adquirido pela Super Empreendimentos e Participações por R$ 38 milhões em 2022. A empresa teve como diretor Fabiano Zettel, o pastor.
Ou seja, se o encontro aconteceu, foi no apartamento que era do pastor. Nesse caso, ele é o alcoviteiro. Meses depois, em outubro de 2025, o triplex foi vendido ao empresário Ricardo Faria, o “rei do ovo”, cerca de um mês antes da liquidação do Master e da prisão de Vorcaro.

Pastor Fabiano Zettel preso e Igreja Batista da Lagoinha fecha templo no bairro de Belvedere, em Belo Horizonte, onde ele e a esposa atuavam. Foto: ICL Notícias
A renda que o ‘date’ engoliu
Os R$ 10 mil pagos por um único encontro equivalem a mais de quatro vezes o rendimento domiciliar per capita médio do brasileiro, de R$ 2.316 em 2025, segundo o IBGE. Para uma família média de três pessoas, o valor supera a renda mensal total do lar — um mês inteiro de trabalho de uma família inteira, gasto em uma noite de volúptia. Enquanto mais da metade das famílias brasileiras vive com menos do que isso por mês, um ministro do STF, presidente do TSE, “fica” com uma garota de programa paga por um banqueiro corrupto, em um apartamento de R$ 50 milhões que pertenceu à empresa de um pastor.
E o pastor não era qualquer um. Zettel, casado com Natália Vorcaro, fundou o Clava Forte Bank, fintech criada para gerir dízimos e recursos de fiéis, investigada como duto de capital para as fraudes do Master. A igreja liderada pela família Valadão, segundo o Coaf, movimentou R$ 57 milhões de forma atípica. O altar, o cofre e a cama. A Frente Livre já mostrou que Nikolas Ferreira, “cria” da Lagoinha, fiel à velha tática do diversionismo, publicou uma mentira sobre a taxação do PIX e convocou uma caminhada tresloucada e epopeica à Brasília, chamada de Marcha pela Liberdade, menos de 48 horas após a prisão de Zettel: tudo para “esconder” o escândalo.
O incêndio e a blindagem
A revelação explode em meio à mais grave crise da história do STF. O incêndio criminoso foi provocado por André Mendonça, que acusou sem nenhuma prova o filho do presidente da República, depois açoitou publicamente outro ministro da Corte – -Alexandre de Moraes — e afastou o diretor-geral da PF, criando uma quizumba dos infernos, tudo para permitir que Flávio Bolsonaro passe impune durante a campanha eleitoral.
Enquanto isso, o celular de Vorcaro — o mesmo que guarda os diálogos da irmandade bolsonarista — expõe um ministro da corte em uma rede de prostituição, corrupção e dinheiro sujo. Kassio, que se declarou suspeito e deixou a sessão extraordinária que analisa o material, nega. A negação é o protocolo. O celular não nega. Ele guarda.
