A dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou pela primeira vez a marca de US$ 40 trilhões, segundo balanço divulgado na quarta-feira (19) pelo Departamento do Tesouro americano. O total registrado foi de US$ 40,047 trilhões. A dívida mais que dobrou em menos de dez anos. Em janeiro de 2017, quando Donald Trump tomou posse pela primeira vez, o estoque era de aproximadamente US$ 19,95 trilhões. A passagem de US$ 39 trilhões para US$ 40 trilhões ocorreu em menos de cinco meses. O país levou até 1981 para alcançar pela primeira vez a marca de US$ 1 trilhão. Agora, adiciona US$ 1 trilhão a cada poucos meses.
A gestão Trump, com sua guerra insana contra o Irã, vem pressionando os gastos públicos e elevando a dívida num ritmo alucinante. O New York Times reportou que a guerra do Irã, que elevou os preços de energia nos EUA, reduziu o crescimento econômico que a administração Trump esperava que aumentasse a arrecadação. Trump pediu um orçamento de defesa de US$ 1,5 trilhão para o próximo ano — aumento de 42%, a maior expansão em gastos militares desde a Segunda Guerra Mundial. O Time reportou que US$ 12 bilhões já haviam sido gastos com a guerra do Irã em março. Agora, cinco meses depois, a conta é infinitamente maior. E os EUA perderam a guerra.
O império que se afoga
Maya MacGuineas, presidente do Committee for a Responsible Federal Budget , organização apartidária, afirmou à Reuters que o impacto da dívida não fica restrito aos registros contábeis do governo. O custo se espalha pela economia e chega ao orçamento das famílias. O aumento do endividamento pressiona a inflação, reduz o espaço para outras prioridades orçamentárias e deixa os EUA mais vulneráveis a emergências internas e a instabilidades no exterior.
Os investidores já cobram caro. Uma emissão de US$ 25 bilhões em títulos com vencimento em 30 anos registrou o maior rendimento desde 2021. Os juros dos papéis de prazo mais longo alcançaram o nível mais elevado em quase duas décadas. O prêmio de prazo dos títulos de dez anos atingiu o maior nível em mais de 12 anos.
Investidores estrangeiros, que detêm quase um terço dos títulos do Tesouro americano, reduziram a demanda ao longo do último ano. Com menos compradores estrangeiros, uma parcela maior da dívida precisa ser absorvida por investidores mais sensíveis a variações de preço. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou a ampliação das operações de recompra de títulos para tentar reduzir a pressão sobre os juros. Desespero.
A lição que Roma deu
Impérios caem justamente porque perdem o fôlego para financiar seus gastos. O Império Romano é o exemplo definitivo. A crise econômica romana no século III foi, em grande parte, reflexo de excessivos gastos públicos. O Império estava em guerra constante, enfrentando múltiplas ameaças nas fronteiras. Os custos administrativos, logísticos e militares não paravam de crescer. Roma encontrou formas criativas de pagar por tudo: desvalorização da moeda, aumento de impostos, confisco de bens.
O denário de prata, a moeda que valia um dia de trabalho de um artesão qualificado, foi sucessivamente desvalorizado. A inflação passou de 0,7% ao ano nos séculos I e II para 35% ao ano no final do século III. O governo pagava seus soldados com moeda de menor teor de prata. Os preços dispararam. O comércio se fragmentou. A economia se localizou. Os impostos esmagaram a população. A burocracia cresceu. As requisições de bens e metais preciosos exauriram a economia romana a níveis incríveis. O estado não conseguia mais financiar o exército que o protegia. Em 476, Roma caiu.
O paralelo com os EUA de Trump é pertigoso. Guerra perdida no Irã. Gastos militares em expansão recordista. Dívida que quadruplicou em 20 anos. Inflação que pressiona o orçamento das famílias. Investidores estrangeiros que recuam. Moeda que perde valor relativo. Título que rende mais porque ninguém confia mais. O Império Romano levou três séculos para cair. O império americano pode estar indo mais rápido.
O Brasil que não é Roma
Enquanto isso, a direita brasileira repete que o Brasil está quebrado. A dívida pública brasileira está em 81,9% do PIB. A americana ultrapassou 120% do PIB. O Brasil não tem dívida externa relevante e tem reservas de mais de US$ 350 bilhões. Os EUA têm a maior dívida externa do planeta. O Brasil tem inflação controlada. Os EUA têm inflação pressionada por uma guerra que perderam. O Brasil não está quebrado. Os EUA estão. E quem fala em “país quebrado” no Brasil é quem quer entregar a soberania nacional justamente ao império que está afogando em sua própria dívida.






Deixe seu comentário