O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou neste domingo (23) que ninguém está acima da lei e que seu filho mais velho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, precisa se defender.
“Todos nós somos obrigados a agirmos corretamente. Se alguém está agindo de forma equivocada, de forma errada, esse alguém tem que ser investigado. Isso vale para o meu filho, vale para qualquer pessoa. Ninguém está acima da lei se cometer erro”, disse Lula em entrevista à Record.
O presidente ressaltou a independência da Polícia Federal (PF):
“Eu não sou um presidente que tenta proibir investigação. Eu não ameaço mandar ministro embora. Eu não ameaço punir delegado. Investigue-se. E todo mundo tem o direito de provar se é inocente”. E completou: “Meu filho sabe se cometeu erro, ele vai ser julgado, vai ser punido ou vai ser inocentado. Mas ele tem que provar a inocência dele”.
A Justiça de duas velocidades
Lula faz o que um presidente democrático deve fazer: respeita as instituições. Mas as instituições respeitam Lula? O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), nomeado por Jair Bolsonaro em 2021 com a missão explícita de ocupar a vaga de Marco Aurélio Mello com um perfil “evangélico e conservador”, abriu três inquéritos contra Lulinha em menos de uma semana. Cobra pressa da PF. Exige respostas. Pressiona diligências. As provas, segundo reportagem do ICL Notícias, ainda não foram juntadas aos autos. Mas o ministro cobra. E pedaços da investigação vazam gostosamente.
Na gaveta abaixo, na mesa do mesmo ministro, repousa adormecido o inquérito Dark Horse, que investiga os R$ 61 milhões repassados pelo banqueiro corrupto Daniel Vorcaro, ex-controlador do falido Banco Master, para, diz-se, o financiamento de uma cinebiografia de Jair Bolsonaro. O inquérito foi aberto em 23 de julho. Mais de um mês depois: nenhuma busca e apreensão, nenhuma quebra de sigilo, nenhuma prisão, nenhum vazamento. Nenhuma vírgula. O caso envolve Flávio Bolsonaro, candidato neofascista à Presidência pelo PL, que pediu dinheiro a Vorcaro. A PF pediu inclusão de Flávio na lista prateada da Interpol. É, por qualquer critério, o caso mais grave em tramitação no STF. Mas Mendonça espera. No Dark Horse, dorme. No Lulinha, corre.
O único fato comprovado
De tudo que vazou até aqui, de todas as manchetes, de todos os prints de tela, de todas as conversas soltas sem contexto, o único fato devidamente comprovado é este: o governo Lula disse não ao lobby pela venda de canabidiol sem licitação ao Ministério da Saúde. A lobista Roberta Luchsinger usou o nome do filho do presidente. Disse “Eu sou o Fábio”. Fez 40 visitas a ministérios. Apresentou o projeto. E o governo disse não. O negócio não fechou. A licitação não foi dispensada. O canabidiol não foi comprado. O não foi dado.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu ao STF que envie o inquérito à primeira instância. Para o procurador-geral Paulo Gonet, não há autoridades com foro privilegiado no caso. Ou seja: a PGR, que é o órgão acusador, diz que não há crime de competência do STF. O inquérito não deveria estar ali. E se não deveria estar ali, por que foi aberto ali? E por que está vazando de lá?
O laudo furado de Flávio
Enquanto isso, Flávio Bolsonaro diz que o caso Dark Horse é “página virada”. A prestação de contas à qual se refere é uma perícia privada do professor Castelo Branco, presidente do Instituto de Perícia Investigativa. Mas o próprio perito admitiu duas lacunas devastadoras em entrevista exclusiva ao jornalista Paulo Motoryn: a perícia não analisou se os preços pagos pela produção eram compatíveis com os praticados pelo mercado cinematográfico. E o trabalho não permite saber o que as empresas contratadas fizeram com o dinheiro depois que o receberam. “Não consigo controlar o que acontece da terceira camada para trás”, disse Castelo Branco.
O advogado de Lulinha, Marco Aurélio Carvalho, foi cirúrgico em entrevista à GloboNews: “São 61 milhões de reais que foram depositados por um banqueiro, que quebrou muita gente, na conta de um candidato à Presidência da República. Não é do filho dele, é dele, Flávio Bolsonaro”. E perguntou: “Por que não apareceu o resto que tem no Dark Horse? Por que não apareceram os vídeos que tem?”
A PF já intimou os responsáveis pela perícia a fornecer informações mais detalhadas. Enquanto Flávio declara publicamente que o assunto está encerrado, a Polícia Federal pede mais documentos. O perito disse: “Pode ser que agora a gente tenha que fazer um outro tipo de prestação de conta”. Parece que ainda há algumas páginas para ler.
A diferença entre os dois pais
Lula disse: “Se alguém cometeu erro e esse erro trouxe prejuízo aos cofres públicos, essas pessoas terão que pagar”. Bolsonaro mudou superintendentes da PF para proteger os filhos. Lula abre a porta para que a PF investigue a sua. A diferença entre os dois presidentes é a diferença entre democracia e autoritarismo. Mas a diferença entre os dois filhos, no STF de André Mendonça, é a diferença entre pressa e sono. E o sono tem padrinho. Está preso. Mas o afilhado, no STF, continua trabalhando.
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