O primeiro grande escândalo da eleição de 2026 não é o que pensam que é. Não é o inquérito que investiga Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente. É o vazamento metódico, sistemático e politicamente direcionado desse inquérito, sob relatoria do ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal, com o objetivo claro de pichar o presidente Lula em ano eleitoral. É a Justiça de duas velocidades: pressa para o filho de Lula, sono para o candidato de Bolsonaro. É a imprensa que amplifica o vazamento sem analisar o conteúdo. E é, sobretudo, o fato que ninguém menciona: de tudo que vazou até aqui, a única coisa devidamente comprovada é que o governo Lula disse não ao lobby pela venda de canabidiol sem licitação ao Ministério da Saúde, mesmo com a lobista tendo usado o nome do filho do presidente. O governo recusou. O negócio não fechou. O não foi dado. E o escândalo não é o não. É o vazamento de quem quer transformar o não em sim para poder atacar.
Vamos aos fatos, porque os fatos são o que o vazamento tenta esconder.
O inquérito e a lobista
A Operação Sem Desconto, da Polícia Federal, investiga um esquema bilionário de descontos associativos irregulares em aposentadorias e pensões do INSS, estimados em R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024. O lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, foi preso e indiciado como operador central dos desvios. O nome de Lulinha passou a ser citado a partir de depoimentos que apontavam uma suposta relação de sociedade entre ele e o Careca, com a empresária Roberta Luchsinger como elo. O novo inquérito, autorizado por Mendonça, apura se Lulinha teria atuado para favorecer a comercialização de canabidiol no governo Lula. A defesa nega irregularidades e afirma que ele não obteve nenhum pagamento por negócios de empresários com o governo.
Roberta Luchsinger é a peça central. Em mensagens obtidas pela PF, ela disse falar em nome de Lulinha e usou a frase “Eu sou o Fábio.” Pretendia obter 20% de remuneração no projeto de cannabis medicinal, que não chegou a ser fechado com o governo. Fez ao menos 40 visitas a ministérios e à Presidência entre 2023 e 2024, mas apenas uma consta nas agendas públicas de autoridades. Mencionou em conversas o advogado Otto Medeiros, descrevendo-o como “sócio do Cassio”, em referência ao ministro Kassio Nunes Marques, do STF, sem apontar participação do magistrado nas tratativas. Kassio declarou que “não é e nunca foi sócio do senhor Otto Medeiros em qualquer empreendimento” e se declarou impedido em processos nos quais Medeiros atua.
Agora, o dado que muda tudo. A Procuradoria-Geral da República pediu ao STF que envie o inquérito à primeira instância. Para o procurador-geral Paulo Gonet, não há autoridades com foro privilegiado no caso que justifiquem a permanência da investigação no STF. No entendimento da PGR, os citados no caso não têm foro privilegiado. Sem indícios de participação de autoridades submetidas à jurisdição do STF, não há motivo para manter o inquérito na Corte. As conversas analisadas pela PF registram menções de Luchsinger a pessoas com foro privilegiado, mas os diálogos não indicam atuação dessas autoridades no negócio investigado. Ou seja: a PGR, que é o órgão acusador, diz que não há crime de competência do STF. O inquérito não deveria estar ali. E se não deveria estar ali, por que foi aberto ali? E por que está vazando de lá?
Os vazamentos metódicos
A Frente Livre, em 18 de agosto, noticiou o que a grande imprensa se recusa a ver: “Informações do inquérito sob relatoria de André Mendonça no Supremo estão vazando aos borbotões para prejudicar o presidente Lula.” A matéria é cirúrgica. A grande imprensa brasileira publicou, nesta semana, uma enxurrada de vazamentos do inquérito que investiga Lulinha. As matérias, baseadas em informações sigilosas, sugerem tráfico de influência no governo federal. Mas quem lê com atenção percebe: não há encadeamento de causa e consequência que sequer pareça criminoso. São indícios jogados aleatoriamente para pichar o personagem Lulinha e sugerir corrupção no governo Lula. E isso está sendo feito metodicamente.
O Globo noticiou que Luchsinger comprou joias para o ex-chefe de gabinete de Lula, Marcola. O Metrópoles publicou outro pedaço de vazamento: Lulinha teria recomendado que Luchsinger emitisse nota fiscal para um empresário. O Poder360, outro filamento vazado com o mesmo propósito. Lulinha e Luchsinger “discutiram sobre negócios e encontros com integrantes do Governo Federal”, sem muitos detalhes, e conversaram sobre “a Suíça”, com print da tela do celular com a frase solta, sem contextualização. Nada disso configura crime. Configura pichação. A revista Fórum apurou que o PT pediu ao STF investigação sobre o vazamento dos áudios de Lulinha para a campanha de Flávio Bolsonaro. O advogado de Lulinha, Marco Aurélio Carvalho, classificou como “mais um vazamento criminoso” e disse que vai pedir providências enérgicas a Mendonça, ao Ministério da Justiça e à PF.
De todos os vazamentos até aqui, de todas as manchetes, de todos os prints de tela, de todas as conversas soltas sem contexto, o único fato devidamente comprovado é este: o governo Lula disse não ao lobby pela venda de canabidiol sem licitação ao Ministério da Saúde. A lobista usou o nome do filho do presidente. Apresentou o projeto. Fez 40 visitas. Disse “Eu sou o Fábio.” E o governo disse não. O negócio não fechou. A licitação não foi dispensada. O canabidiol não foi comprado. O não foi dado. E quando o único fato comprovado de todo o inquérito é a recusa do governo em fechar o negócio, o que se investiga não é crime. O que se investiga é a tentativa de lobby que fracassou. E o que se vaza não é a tentativa que fracassou. É o nome do filho do presidente, desconectado do fato de que o governo recusou, para criar a impressão de que houve crime onde houve recusa.
Mendonça acelera e dorme
E é aqui que a seletividade da Justiça se revela com a clareza de um raio. Mendonça abriu três inquéritos contra Lulinha em menos de uma semana. Cobra pressa da PF. Exige respostas. Pressiona diligências. As provas, segundo fontes ouvidas pelo ICL Notícias, ainda não foram juntadas aos autos. Mas o ministro cobra. “Eles dizem que está nas quebras do INSS, mas essa documentação ainda não foi juntada”, afirmou a fonte. Mendonça, nos últimos dias, vem cobrando da PF esclarecimentos sobre o andamento da operação, exigindo informações sobre diligências já realizadas e resultados das medidas autorizadas.
Na gaveta abaixo, na mesa do mesmo ministro, repousa adormecido o inquérito Dark Horse, que investiga os R$ 61 milhões repassados pelo corruptíssimo banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do falido Banco Master, para alegadamente o financiamento de uma cinebiografia de Jair Bolsonaro. O inquérito foi aberto em 23 de julho. Quase um mês depois, nenhuma busca e apreensão. Nenhuma quebra de sigilo. Nenhuma prisão. Nenhum vazamento. Nenhuma vírgula. O caso envolve Flávio Bolsonaro, candidato neofascista à Presidência pelo PL, que pediu dinheiro a Vorcaro. O Intercept revelou que Flávio negociou US$ 24 milhões (R$ 134 milhões) com Vorcaro, dos quais US$ 10,6 milhões (R$ 61 milhões) teriam sido transferidos em seis operações. Eduardo Bolsonaro se autoexilou nos Estados Unidos. A PF pediu inclusão de Flávio na lista prateada da Interpol. É, por qualquer critério, o caso mais grave em tramitação no STF. Mas Mendonça espera. No Dark Horse, o ministro dorme. No Lulinha, o ministro corre. A diferença não é sutil. É estrutural.
A aritmética fala por si. Dark Horse: um inquérito, quase um mês, nenhuma medida. Lulinha: três inquéritos, cobrança ativa do relator, provas ainda inexistentes, vazamentos seletivos. A PGR diz que o caso de Lulinha não é do STF. O caso de Flávio é. E o ministro que deveria investigar Flávio com a mesma energia com que investiga Lula é o mesmo que foi nomeado por Bolsonaro em 2021, com a missão explícita de ocupar a vaga de Marco Aurélio Mello com um perfil “evangélico e conservador”, nas palavras do próprio Bolsonaro. Não é um ministro sem história. É um ministro com paternidade política. E a paternidade, pelo visto, está pesando.
Flávio e a página virada
E Flávio Bolsonaro, o beneficiário direto da Justiça de duas velocidades, tem a desfaçatez de dizer, em campanha, que o caso Dark Horse é “página virada.” O senador neofascista ligado às milícias do Rio de Janeiro, em agenda na zona leste de São Paulo, afirmou que a prestação de contas do filme já foi feita e que “está tudo certinho.” E completou: “Da nossa parte, está tudo página virada. Quem deve explicação agora é o PT, que é o governo mais corrupto e incompetente da história.” E ainda: “Por que Lula mantém seu filho na Suíça?”
A frase é de uma cinismo que beira o delírio. O homem que pediu R$ 134 milhões a um banqueiro preso, corrupto e delator, para financiar um filme do pai golpista, diz que “está tudo certinho” e que quem deve explicação é o filho do presidente que disse não a um lobby de canabidiol. O homem cujo nome foi incluído pela PF na lista prateada da Interpol diz que a página está virada. O homem cujo irmão se autoexilou nos Estados Unidos pergunta por que o filho de Lula está na Suíça. A projeção é tão transparente que chega a ser patética.
O escândalo real
O escândalo real da eleição de 2026 não é o inquérito de Lulinha. É o vazamento metodico desse inquérito, operado de dentro do gabinete de André Mendonça, amplificado pela grande imprensa sem checagem, com o objetivo político de pichar Lula e beneficiar Flávio Bolsonaro. É a Justiça seletiva que cobra provas que não existem contra o filho de Lula e dorme sobre R$ 61 milhões comprovados do banqueiro preso contra o candidato de Bolsonaro. É a PGR dizendo que o caso não é do STF enquanto o ministro do STF acelera o que não é seu e congela o que é. É o candidato beneficiado pelos vazamentos dizendo que “está tudo certinho” enquanto o irmão foge para os Estados Unidos e o pai está preso por golpe de Estado.
E o único fato comprovado, repito, porque é o que importa, é que o governo Lula disse não. Disse não ao lobby do canabidiol. Disse não à venda sem licitação. Disse não mesmo com a lobista usando o nome do filho do presidente. O não foi dado. O negócio não fechou. E quem deveria estar investigando por que o inquérito de um não está vazando para beneficiar o candidato que pediu R$ 134 milhões a um banqueiro preso é o mesmo ministro que foi nomeado pelo pai desse candidato. A circularidade é perfeita. E obscena. Bolsonaro nomeia Mendonça. Mendonça acelera contra Lula. Mendonça dorme sobre Flávio. Flávio diz que está tudo certinho. E o eleitor brasileiro, que em pesquisa Genial/Quaest já prefere Lula por 39% a 30% no primeiro turno, assiste a tudo e talvez ainda não tenha percebido que o escândalo não é o que vazou. É o que não vaza. É o que não investiga. É o que não cobra. É o que dorme. É o que tem nome, rosto e padrinho. E o padrinho está preso. Mas o afilhado, no STF, continua trabalhando.
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INVESTIGUEM FLÁVIO BOLSONAROPor que Mendonça está blindando Flávio Bolsonaro? Mesmo diante de tantos escândalos, o terrivelmente evangélico, faz vazamentos seletivos sobre Lulinha e contra Flávio… pic.twitter.com/L5WGLzLZv3
— Cassia (@cassiarsantos01) August 20, 2026
Muito importante escutar Reinaldo Azevedo. Estamos, de novo, no modo golpe, e a mídia hegemônica comprou isso. Em nome de quem? Dos Estados Unidos. É bom a gente denunciar.
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INVESTIGUEM FLÁVIO BOLSONARO pic.twitter.com/ul6MofrDmV— CleidsonTex (@cleidsontex) August 20, 2026
Grupo Globo sendo golpista de 1960….
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INVESTIGUEM FLÁVIO BOLSONARO pic.twitter.com/dJHCfjbMC1— Keila (@KAS_1406) August 20, 2026
Inacreditável! O Jornal Nacional quis inventar uma “venda” de canabidiol ligada ao Lulinha para o governo e tomou um desmentido do próprio Ministério da Saúde. A mentira da Globo não durou nem um dia!
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