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Brasil big techs
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CIÊNCIA & TECNOLOGIA

Brasil paga R$ 10 bi por ano para ser refém das big techs

IBGE e segurança nacional hospedados onde não é nosso

A soberania digital é um dos temas mais presentes nos planos de governo dos candidatos à presidência da República. A quantidade de promessas acerca do tema envolve uma das principais vulnerabilidades do Brasil: hoje, os dados públicos do país se encontram hospedados em nuvens de big techs internacionais, o que gera custo e uma dependência da nossa nação. Para a comunidade científica, não é possível a garantia de uma soberania nacional sem a soberania digital do próprio país.

O alerta vem embasado por dados recentes. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Universidade de Brasília (UnB), Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mostrou que os governos brasileiros gastaram, de junho de 2024 a junho de 2025, mais de R$ 10 bilhões em serviços de big techs, sendo R$ 4,6 bilhões pelo governo federal, R$ 3,7 bilhões por governos estaduais e R$ 2 bilhões por prefeituras. O montante refere-se a licenças de software, soluções de nuvem, aplicações de segurança e demais recursos.

A nuvem que não é nossa

O grave panorama não é novidade. Na 77ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada em 2025 na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), o ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, já alertava sobre a dependência tecnológica do país:

“Os dados brasileiros, como os do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Segurança Nacional, estão em big techs e nuvens que não são nossas, que sequer estão sediadas aqui no Brasil. Isso dá margem a ataques mais danosos do que os com bombas. É aqui, por meio da Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), que vamos encontrar os recursos necessários para construirmos nossa nuvem soberana”.

O problema é estrutural. O Brasil paga, todo ano, uma fortuna para entregar seus dados estratégicos a empresas estrangeiras, que lucram com a infraestrutura e ainda definem as regras do jogo. É a soberania nacional terceirizada por contrato, com o agravante de que os dados mais sensíveis do país, da segurança à saúde, ficam sob controle de potências e corporações que não respondem ao povo brasileiro.

Ciência, 2% do PIB e a saída

Para a presidente da SBPC, Francilene Garcia, é necessária a definição clara de políticas ativas para a regulação das big techs, além do combate aos monopólios existentes. Ela destaca outra iniciativa importante: elevar para 2% do Produto Interno Bruto (PIB) o investimento em pesquisa e desenvolvimento até 2034. Hoje, o país dedica 1,2% do PIB ao setor.

“Na dimensão digital, esse investimento permitirá ampliar a soberania brasileira sobre dados estratégicos de saúde, clima, biodiversidade, agricultura e serviços públicos. Na genômica, por exemplo, não basta gerar dados de sequenciamento: é preciso ter capacidade nacional para armazená-los, processá-los, integrá-los a outras bases e transformá-los em conhecimento, diagnóstico, medicamentos e políticas de saúde”, afirmou.

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Além da nuvem: saúde e informação

O documento “Vozes da Ciência” defende ainda outras soberanias. A soberania informacional envolve o fortalecimento da rede nacional de supercomputadores, o desenvolvimento de modelos de inteligência artificial nacionais voltados aos desafios públicos do país e a formação continuada de profissionais. A soberania tecnológica em saúde é urgente: 96% dos Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs) utilizados no Brasil são importados, e o gasto com medicamentos chegou a US$ 13 bilhões em 2024. O documento pede um programa de Estado de 20 anos para fortalecer os produtores locais.

“Soberania não significa isolamento, mas capacidade de o país definir suas prioridades, proteger seus ativos e escolher em que condições coopera”, conclui Francilene Garcia.

Enquanto o Brasil paga R$ 10 bilhões por ano para alugar a própria infraestrutura digital, a pergunta que a comunidade científica faz é direta: até quando vamos financiar a dependência em vez de construir a nossa própria nuvem? A soberania do século XXI se decide nos data centers, nas cadeias de insumos e na infraestrutura informacional. E o Brasil, se não agir, continuará pagando caro para ser refém dos outros.

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