A Polícia Federal apura ameaças de morte e estupro corretivo enviadas à vereadora de Natal e candidata a deputada federal Brisa Bracchi (PT). As mensagens chegaram a endereços de email pessoais e institucionais da parlamentar na terça-feira (1º), trazendo conteúdo misógino, LGBTfóbico e violento.
Uma das mensagens descrevia o crime em detalhes, indicava uma data para a execução das ameaças e fazia referência a uma transmissão ao vivo. “Eles verão exatamente por que homens são criaturas superiores destinadas a governar enquanto mulheres servem apenas como estoque de reprodução”, dizia um dos textos recebidos pela vereadora. Uma segunda mensagem continha dados pessoais e sigilosos de Bracchi e de seus familiares. Um nome na assinatura do material coincide com o de um homem associado a grupos neonazistas e preso por crimes violentos, mas não há confirmação de que ele tenha enviado os emails.
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A escalada que não começou agora
O mandato de Bracchi preservou as mensagens e encaminhou o material à Polícia Civil, que abriu investigação. O Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte recebeu comunicação sobre o caso por meio da Ouvidoria da Mulher, e o Ministério Público Eleitoral encaminhou o episódio à Polícia Federal. O Ministério das Mulheres e a governadora Fátima Bezerra (PT) também foram informados, com a governadora determinando rigor nas investigações.
A equipe de Bracchi afirmou que tratará o episódio como caso policial e de violência política de gênero. A parlamentar disse que manterá o mandato na Câmara Municipal de Natal e a campanha para a Câmara dos Deputados. A resposta é digna de quem já enfrentou o fascismo de frente.
Porque a história de Brisa com a extrema direita não começa agora. Em 2025, a vereadora, uma das apenas quatro vozes de oposição em uma Câmara de 29 membros, enfrentou uma tentativa de cassação orquestrada por vereadores bolsonaristas, com o movimento MBL no centro da trama, sob a acusação de usar emendas para um evento que não custou um centavo aos cofres públicos. O processo era tão esquisito que a Justiça do Rio Grande do Norte mandou suspender a sessão de julgamento, constatando ilegalidades graves, incluindo a notificação de Bracchi menos de 24 horas antes da votação, descumprindo o prazo mínimo de 72 horas.
Do spray de pimenta ao estupro corretivo
A violência contra Brisa sempre foi física e simbólica ao mesmo tempo. Durante o processo de cassação, membros de um grupo de WhatsApp ligado à equipe do vereador Matheus Faustino (União Brasil) planejaram usar spray de pimenta contra manifestantes pró-Brisa. Agora, a ameaça subiu de nível: não é mais intimidar quem a apoia, é estuprar e matar a própria parlamentar, com data marcada e transmissão ao vivo anunciada.
É a lógica do fascismo em estado puro: quando não se consegue cassar o mandato de uma mulher lésbica de esquerda, tenta-se apagar a pessoa. A deputada federal Natália Bonavides (PT-RN) já havia denunciado o MBL como um movimento “que pratica sistematicamente perseguição de opositores políticos” e “tem como método político espalhar mentiras e ameaças, sobretudo às mulheres”. O que era ameaça retórica agora virou plano de execução.
A PF está no caso, a governadora mandou rigor e Brisa segue de pé, mantendo mandato e campanha. Mas a pergunta que fica é a mesma de sempre: até quando a extrema direita poderá ameaçar, intimidar e tentar matar mulheres e pessoas trans na política sem que o Estado responda à altura? Brisa resistiu à cassação, resistiu ao spray de pimenta e agora resiste ao estupro corretivo. O fascismo, que não consegue calá-la no plenário, tenta calá-la no mundo. Não vai conseguir.
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