O crime manda, o Facebook obedece

Documento do caso Master mostra ordem para derrubar página e esconder farra com políticos

Vorcaro derrubou perfil
Festa com Djs em São Paulo recheada de políticos e modelos contratadas pelo Banco Master: por querer escondê-la, Daniel Vorcaro conseguiu que o Facebook simplesmente deletasse a conta que revelou a farra. Foto: Reprodução Twitter

A influenciadora Ana Ribeiro, criadora do perfil Ana Track ID, dedicado à música eletrônica, descobriu nesta semana a provável explicação para a derrubada de sua conta no Instagram em 2023: uma ordem do banqueiro Daniel Vorcaro. Documentos do inquérito do Banco Master, com o sigilo do celular do ex-banqueiro quebrado, registram o momento em que ele mandou derrubar a publicação que expôs sua festa secreta. O Facebook, até hoje, não conseguiu apontar qual regra teria sido violada.

A ordem registrada

Em 2023, Ana publicou vídeos e informações sobre a festa privada promovida por Vorcaro no Madame Satã, em São Paulo, durante a semana da Fórmula 1, com atrações como Swedish House Mafia, Solomun e Vintage Culture. “Eu postei no meu perfil e, por coincidência, na época eu nem entendi o motivo, o meu perfil do Instagram caiu”, contou.

Os documentos revelados pela investigação mostram Vorcaro enviando a um interlocutor o link de uma publicação do perfil @anatrackid com a ordem: “derrubar esse”. Na sequência, segundo o material citado pela Polícia Federal, ele esclareceu que queria a retirada apenas da publicação, e não de toda a página. A apuração da Frente Livre, a partir do relato da própria influenciadora, identifica o destinatário da ordem como o miliciano digital conhecido como “Sicário”. O relatório não estabelece, porém, que a conversa tenha provocado diretamente a suspensão da conta.

A plataforma que serve ao crime

Ana tentou reverter o bloqueio pelos canais do Instagram e do Facebook e chegou a ingressar com ação judicial. A plataforma não conseguiu apontar qual regra teria sido violada. A página só foi recuperada depois que um funcionário encontrou uma conta reserva criada por ela e revisou o caso internamente.

“Hoje, três anos depois, eu descubro o real motivo. Estou indignada, perplexa com a situação”, afirmou.

O caso expõe o que a Frente Livre denuncia há tempo: a big tech censura com eficiência quem produz conteúdo legítimo e serve com a mesma eficiência ao crime, à extrema direita e à desinformação. Um banqueiro investigado por fraudes bilionárias manda derrubar uma página e a plataforma executa — sem regra, sem explicação, sem recurso. Ao final, Ana ironizou: “Muita gente tem comentado que ele tinha bom gosto e que sabia realizar bons eventos. Isso eu vou ter que concordar. Só faltou convidar o pessoal.”

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