Ameaça nazista no campus agora é caso de polícia

Denúncias de universidades e institutos vão à Polícia Federal e à Advocacia Geral da União

Por Frente Livre
Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

O Ministério da Educação (MEC) está reunindo denúncias de violência política ocorridas em instituições de ensino federal durante e após as eleições gerais de 2026. As informações que chegam pela ouvidoria ou diretamente das universidades e institutos federais serão encaminhadas à Polícia Federal (PF) e à Advocacia-Geral da União (AGU). A informação foi divulgada neste domingo (1º).

A iniciativa foi motivada pelas ameaças contra universidades federais, estudantes e docentes que circularam nas redes sociais antes do primeiro turno, em 4 de outubro. Naquele momento, o MEC já havia pedido investigação à PF e acionado a AGU para adotar as medidas jurídicas cabíveis — que criou força-tarefa para atuar no caso do incêndio na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Em nota, o ministério pediu providências “diante da gravidade das ameaças de violência e de destruição patrimonial, além da utilização de símbolos nazistas contra as universidades federais, estudantes e docentes reportadas”. Como as investigações seguem em curso, novas denúncias serão incorporadas ao processo.

E o MEC deixou o recado institucional: “O MEC reforça que as instituições de ensino devem ser, por essência, espaços plurais, de tolerância, diálogo e respeito à diversidade de ideias”. Representantes da pasta repudiaram ainda qualquer tipo de ameaça, ofensa ou discriminação no ambiente estudantil e acadêmico, independentemente de sua motivação.

O que já se sabe do estrago

O gesto do MEC não nasce do nada. Em outubro, três incêndios atingiram prédios da UFPE em oito dias — o maior destruiu laboratórios de fármacos, informática e genética, causou R$ 100 milhões em prejuízo e apagou duas décadas de pesquisa científica. A PF abriu inquérito e enviou peritos ao local.

Antes do fogo, houve ameaças. O deputado federal eleito Jones Manoel (PSOL) relatou que estudantes foram ameaçados horas antes do incêndio, com mensagens que mencionavam a possibilidade de “explodir o departamento”. Segundo a Folha de S.Paulo, um participante de um grupo chegou a propor uma lista para incendiar a universidade durante a madrugada, e outras mensagens falavam em agredir manifestantes e esfaquear uma liderança estudantil. A Universidade Federal Fluminense (UFF) também denunciou ameaças.

Agora, a violência migrou do campus para a escola. Estudantes de diferentes estados relatam ofensas, ameaças e perseguições ligadas à posição política da família — no Rio, um caso terminou em boletim de ocorrência na Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (DCAV). Em outro episódio, o deboche virou sentença de classe: “Votou 13 porque é pobre”.

O tamanho do silêncio nos números

A régua para comparar existe. Entre 25 e 28 de outubro, o Ministério Público do Trabalho (MPT) registrou 1.143 denúncias de assédio eleitoral em três dias, num total de 3.290 no ano — mais do que as 3.373 de toda a eleição de 2022, segundo levantamento do colunista Sakamoto. O Ministério da Justiça notificou ao menos quatro empresas que anunciaram boicote a apoiadores de Lula. A Justiça do Trabalho mandou a Meta retirar do ar, em 24 horas, publicações que incentivem patrões a demitir pelo voto, sob multa de R$ 500 mil por conteúdo mantido.

O padrão é nítido: a direita perdeu a urna em 25 de outubro e transferiu a disputa para o terreno da intimidação — no trabalho, na escola, no campus e no terreiro. O Estado está respondendo com ouvidoria, nota à imprensa e encaminhamento de ofício. É pouco, é tardio, mas é o mínimo que a lei obriga. A luta contra o fascismo não para na urna: ela continua no boletim de ocorrência, no inquérito e, principalmente, na conta que o Ministério da Educação ainda não quis divulgar.

Canal no whatsapp

Receba notícias da Frente Livre direto no celular.
Seguir