O vídeo “O Nordeste que foi esquecido”, publicado na terça-feira (20) pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) como o “mais importante da sua vida”, ruiu em 24 horas. Os bastidores da gravação, feita em Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia, para a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) ao Planalto, vazaram e expuseram a farsa: teleprompter, iluminação de cinema, captação de áudio profissional e ordem para esconder do cenário justamente o que a produção não queria que o eleitor visse.
A direção de cena da “denúncia”
Os registros mostram uma estrutura técnica de verdade por trás do cenário de pobreza. As imagens foram captadas dentro de uma casa simples — o telão do sofrimento — com câmeras de alta definição e teleprompter, o equipamento que permite ler o texto sem desviar o olhar da câmera. João Markus, coordenador da equipe de comunicação de Nikolas, deu a ordem que delatou a montagem: “Trocaria as antenas”, disse, ao sugerir a mudança. E completou: “Então, em vez de pegar essa lateral [da antena], eu pegaria aquela, porque essa antena é mais tecnológica, né, não?”. O cinegrafista assentiu: “Ali eu tiro fácil no vídeo”.
A denúncia não parou no cenário. O cineasta Flávio Montenegro expôs inconsistências nos depoimentos: contatou o filho de uma das mulheres entrevistadas, que negou, indignado, que a mãe enfrente os problemas retratados. O deputado Pedro Campos (PSB-PE) contestou a representação de um dos moradores, identificado como “Binha”, apontando uma caminhonete Hilux e uma casa com móveis novos — o oposto do quadro de miséria vendido no vídeo. O drama, na tela, era encenado; a vida real, fora dela, era outra.
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“Portanto, não os temais; porque nada há encoberto que não venha a ser revelado, nem oculto que não venha a ser conhecido.” – Mateus 10:26 https://t.co/Kk57E7QU2g
— Pedro Campos (@pedrocampospe) October 21, 2026
O humor que a farsa não previa
A resposta à farsa não veio de um think tank. Veio de Malu Santana, uma criança paraibana, que produziu e dirigiu um vídeo parodiando a produção de Nikolas. O humor puro e demolidor de uma menina bastou para mostrar o que o deputado nunca admitiu com a cara do país: a montagem estava exposta. E aqui mora a vírgula que a plataforma não explica — enquanto o deputado recebe a “mãozinha” de Mark Zuckerberg, o vídeo da menina, publicado nas contas @fabriciosousapb e @aopontopb, não teve a mesma força para rodar o mundo.
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A mão invisível da Meta
A disparidade não é sensação: é documentada. Relatório do Sleeping Giants Brasil, que comparou 300 vídeos de 30 perfis, mostrou que os dez vídeos mais recentes de Nikolas somaram 410,5 milhões de visualizações — quase o triplo das 141,4 milhões dos outros nove deputados juntos. A mediana por seguidor foi 17,2 vezes a de outros deputados e 33,7 vezes a das maiores contas mundiais — acima de Neymar, Anitta e Selena Gomez. Sem nenhum registro de impulsionamento pago pelo perfil dele em 2026. As entidades levaram o caso ao Ministério Público Eleitoral. A campanha de Lula já havia acionado o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contestando o alcance desproporcional. A Meta nega favorecimento e atribui os episódios a “falhas técnicas”. Essas “falhas técnicas” jamais ocorrem em posts como o da menina paraibana.

