Flávio fracassa no debate; indecisos gostaram mais de Lula

Flávio atacou um dedo, fugiu do salário e chamou uma mãe em luto pelo nome da filha morta

Por Frente Livre
Flávio Bolsonaro Lula debate
Presidente Lula foi o vencedor do debate da TV Globo nos grupos de eleitores indecisos. Foto: Ricardo Stuckert

O debate da TV Globo desta sexta-feira, 23 de outubro de 2026, último confronto antes do segundo turno de domingo, chegou com o país empatado. A pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (22) apontava 50% a 50% nos votos válidos, e o encontro na Globo carregava o peso de decidir o voto de quem ainda hesitava. Flávio Bolsonaro, senador em busca da Presidência, abriu o programa levantando um tema por conta própria: obras. Foi a primeira pergunta que fez, e ele a fez com a segurança de quem achava que tinha a mão vencida, porque a memória do pai ainda vende a ideia de que o Nordeste foi tratado com água e estrada entre 2019 e 2022. Bastaram trinta segundos de Lula para a aritmética dos números contratuais desmontar a peça. O candidato fascista do PL passaria os três blocos seguintes pedindo desculpas por uma ofensa sobre um dedo amputado, fugindo de uma pergunta sobre centavos, sendo desmentido por um vídeo dele mesmo e, no encerramento do terceiro bloco, falando com a mãe de uma criança assassinada como se a criança fosse ela. Vou aos fatos, porque eles bastam.

 

A conta do mínimo

No primeiro bloco, Lula fechou o cerco no ponto mais sensível de qualquer eleição para quem vende a palavra “renda”: o salário mínimo. O petista questionou como seria a política de valorização do piso num eventual governo do adversário, apontou que o senador não apresentou nenhuma proposta de reajuste e, em seguida, fez a pergunta que virou a linha de fuga de toda a noite. Segundo Lula, sem a valorização real, o mínimo seria hoje de cerca de R$ 900. A checagem do Brasil de Fato, com base em dados do INPC, foi mais precisa ainda: se o piso tivesse sido corrigido apenas pela inflação entre janeiro de 2004, quando valia R$ 260, e janeiro de 2026, estaria em R$ 852. O mínimo atual, de R$ 1.621, é cerca de 90% maior graças à política retomada por Lula em 2023, depois de ter sido extinta no governo de Jair Bolsonaro. O Dieese calcula que 61,9 milhões de brasileiros têm rendimento referenciado no mínimo, e que a valorização injetou aproximadamente R$ 81 bilhões na economia só em 2026. Flávio Bolsonaro mudou de assunto e não respondeu. O resumo do embate ficou com o próprio presidente: “Eu só queria mostrar como pode alguém querer ser presidente de um país e sequer sabe como seria o salário se fosse adotada a política dos governos dele”.

A fuga tem lastro documental, e é a parte mais grave. Oficialmente, a campanha nega mexer na regra e chegou a divulgar nota, em 9 de outubro, dizendo que “não haverá corte em benefícios sociais ou nas aposentadorias dos brasileiros, e o salário mínimo será reajustado acima da inflação para repor as perdas ocasionadas”. Acontece que integrantes da própria campanha apresentaram a empresários e agentes do mercado financeiro, ao longo do ano, propostas que incluem a revisão da política de valorização, dentro do pacote de ajuste fiscal apelidado de “tesouraço”. A assessora econômica do senador, Daniella Marques, disse à TV Folha em agosto que pretende rever a política depois de cortar o que chamou de privilégios de Brasília. Para fechar o quadro, na noite do debate o próprio Flávio afirmou que pretende reajustar o mínimo acima da inflação, política que não está detalhada em seu plano de governo, conforme apurado pelas agências de checagem. Ou seja: o candidato diz uma coisa, a assessora diz outra, o pacote diz uma terceira, e o eleitor aposta na sorte. A economista Juliane Furno, professora da UFF, resumiu o custo da aventura em um R$ 1: “Cada R$ 1 a menos no reajuste do salário mínimo, dos servidores, na previdência ou no BPC representa uma perda enorme de renda local, comprometendo o comércio, os serviços e toda a atividade econômica”.

O dedo do outro

Se a primeira pergunta de Flávio foi sobre obras, a resposta em que Lula o emboscou lhe deu a chance de atacar. Num momento de discussão sobre salário mínimo, o senador tentou sua graça mais infeliz da noite: “Não adianta nada o salário mínimo ser de R$ 1.621 se você dá com uma mão e tira com os nove dedos”. A frase, usada para atacar a política econômica, carregava a referência à amputação que Lula sofreu aos 17 anos, quando trabalhava numa prensa como metalúrgico, e que a extrema-direita transformou no apelido de “nove dedos”. No segundo bloco, Lula respondeu ao que chamou de asneira: “Ele disse uma grande asneira que não levarei para casa. Ele me chamou de nove dedos. Saiba de uma coisa, se tem alguém que sabe o que é o mundo do trabalho, sou eu, trabalhando à noite, com 17 anos. Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos”. E continuou: “Ele nunca trabalhou na vida e não sabe o que é uma carteira profissional. O primeiro emprego que ele teve foi um emprego falso arrumado pelo pai dele. Agora, quer me chamar de nove dedos?”.

O fecho do petista foi o soco que o adversário não tinha como devolver, porque vinha da biografia e não do palanque: “Milhões de trabalhadores se acidentam por irresponsabilidade patronal, em jornadas que não podemos trabalhar. Eu era menor e não podia trabalhar. Não vou aceitar que um grã-fino, com uma prática política muito duvidosa, venha me chamar de nove dedos”. Quando o tempo da réplica se abriu, Flávio Bolsonaro reconheceu o erro em voz de veludo: “Lula, te peço desculpas”. Foi a primeira vez na noite em que ele teve de recuar, e não foi a última. É digno de nota que o senador tenha escolhido o acidente de trabalho de um metalúrgico como matéria de piada na mesma noite em que fugia de uma pergunta sobre o salário mínimo. Quem ri do dedo perdido de um trabalhador não tem o que dizer sobre o décimo terceiro de quem trabalha.

O muro das checagens

O segundo e o terceiro blocos transformaram o debate em um exercício de contabilidade forense, e o balanço é devassador para o candidato do PL. O senador acusou, sem apresentar provas, que “o que você levou para o Nordeste foi o Comando Vermelho”, ignorando registros de acordos entre grupos criminosos nos presídios do Ceará em 2015 e 2016, anteriores ao mandato de Lula. Atribuiu ao pai a transposição do São Francisco e disse que ele “fez finalmente chegar água até o Nordeste”, quando o eixo leste foi inaugurado em 2017 pelo governo Michel Temer e, quando Jair Bolsonaro tomou posse, ao menos 92,5% da execução física dos dois eixos já estava pronta; as entregas do eixo norte chegaram ao Ceará em 2020, mas os investimentos na obra em 2019 e 2020 foram os mais baixos desde 2008, e em fevereiro de 2022, quando o então presidente foi a Jardim de Piranhas simbolizar a chegada da água ao Rio Grande do Norte, a água ainda não havia chegado. Repetiu a história dos R$ 600 do Bolsa Família, benefício que existiu entre agosto e dezembro de 2022, enquanto a proposta de Orçamento enviada por Bolsonaro para 2023 previa R$ 400, e o piso permanente de R$ 600 foi estabelecido pela Lei 14.601, de 2023, no governo Lula. Afirmou que Lula “não fez nada” pelas santas casas, omitindo medidas de crédito com recursos do FGTS e o programa que permite a hospitais converter dívidas tributárias em atendimento ao SUS.

O quadro econômico foi tratado com a mesma liberdade poética. Flávio pintou consumidores sem dinheiro para comprar quando as vendas do varejo avançaram 1,7% em 2026 até agosto, segundo o IBGE. Responsabilizou o governo pelo endividamento das famílias ignorando que a dívida equivalia a 49,1% da renda em dezembro de 2022 e a 49,9% em julho de 2026, e que, sem financiamento habitacional, caiu de 31,2% para 30,8%. Apresentou projeção de mercado como se dependesse da permanência de Bolsonaro no poder, quando o boletim Focus expressa expectativa de analistas. Misturou indicadores ao falar de recorde de “mulheres assassinadas”: o Anuário Brasileiro de Segurança Pública indica recorde de feminicídios em 2025, com 1.571 vítimas, mas queda no total de homicídios de mulheres, de 3.934 em 2022 para 3.539 em 2025. Sobre a Petrobras, a negativa foi categórica: “Eu não vou privatizar o Banco do Brasil, a Caixa e a Petrobras”. O PT respondeu às 22h14, publicando o que chamou de VAR, trecho de entrevista ao Canal UOL, com crédito do jornalista Tales Faria, em que o senador afirma: “Eu sou a favor de privatizar Petrobras, sempre tenho falado isso até publicamente”. E a coisa segue: ele já havia acusado a campanha petista de fazer “terrorismo” ao associá-lo à venda das estatais, quando ele mesmo admitira a possibilidade de privatizar partes da Petrobras que, em sua avaliação, não funcionam.

O terceiro bloco manteve a rotina. Flávio repetiu a alegação de que Lula defendeu o roubo de celulares para comprar cerveja, montagem com trechos de entrevista de 2017 a rádios de Pernambuco, em que a passagem sobre roubo tratava de violência e desesperança e a referência à cerveja aparecia em outro momento, sobre convivência entre torcedores, e cuja propaganda o Tribunal Superior Eleitoral suspendeu em outubro de 2022 por juntar frases de contextos distintos. Chamou Lula de “pai do cassino online” quando as apostas de quota fixa foram autorizadas em 2018, por lei sancionada por Temer, cabendo ao governo Lula a regulamentação em 2023. Atribuiu ao atual governo o desempenho no Pisa quando o exame mais recente com resultados divulgados foi aplicado em 2022, sob Bolsonaro. Disse que as fronteiras estão “abertas”, ignorando operações de fiscalização e o decreto de 2023 que reforçou as Forças Armadas na faixa de fronteira. Acusou Lula de defender “organizações narcoterroristas” sem prova, e o próprio TSE já multou Flávio por associar o presidente ao PCC e ao Comando Vermelho sem “substrato fático mínimo”. O muro de checagens não é opinião de adversário; é a transcrição do que o candidato disse contra o que os documentos registram.

Ana Clara, dita e não dita

O momento mais grave da noite não foi o dedo, foi uma criança. Lula levantou o caso de Ana Clara durante a discussão sobre ensino integral e perguntou: “Por que um senador da República ajuda um assassino a não ser julgado?”. A menina de 5 anos foi morta em 2 de fevereiro de 2021, enquanto brincava na porta de casa em Niterói, atingida por dois tiros de fuzil. O cabo da PM Bruno Dias Delaroli foi preso em flagrante, denunciado pelo Ministério Público do Rio por homicídio doloso e levado a julgamento pelo Tribunal do Júri, respondendo ao processo em liberdade desde novembro de 2021. Em 2024, quando já era senador, Flávio passou a integrar a equipe de defesa do policial, de forma gratuita, e assinou recurso no Superior Tribunal de Justiça para tentar impedir o júri popular, pedido negado. O julgamento, marcado para a última quarta-feira (21), foi remarcado para 5 de maio de 2027. Na plateia do debate estava Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara, convidada de Lula, e a presença foi anunciada pelo presidente.

Flávio respondeu olhando para a mulher e a chamou pelo nome da filha morta: “Ana Clara, quero falar com a senhora. Deixo minha solidariedade. Foi uma tragédia o que aconteceu. Eu não consigo imaginar o que é perder uma filha de cinco anos de idade. Eu tenho uma filha de 14 e de 12. Era uma troca de tiros. Eu quero ajudar a achar o autor desses disparos, porque eu tenho a confiança que não foi esse policial”. Troca de tiros é a versão da defesa do próprio réu, cuja equipe o senador integra, e a perícia encontrou vestígios de munição compatível com o fuzil do agente, sem cápsulas de pistola que comprovassem o confronto alegado. Ou seja, o senador apresentou como fato uma tese defensória cujo processo ainda não julgou, e o fez na cara da mãe da vítima. Lula devolveu: “Eu fico pensando no povo que está nos assistindo agora, vendo esse rapaz. Todo mundo sabe a relação dele com muita coisa ruim aqui no Rio de Janeiro. Não sou eu quem falo, é a imprensa que fala todo dia. Todo dia ele defende miliciano, dando emprego para mãe e irmã do dono do Escritório do Crime”. O argumento tem base no processo da rachadinha: o gabinete do senador na Alerj empregou a mãe e a irmã do ex-capitão Adriano da Nóbrega, apontado como chefe da milícia. E é preciso sublinhar o essencial: dez grupos de pesquisa qualitativa que assistiam ao debate pela TV apontaram repercussão negativa, entre os indecisos, da atuação do senador na defesa do policial.

O que os indecisos viram

E aqui os números que importam, porque o país está a dois dias de decidir. Segundo os dez grupos de pesquisa qualitativa que acompanharam o debate, segundo relato do jornalista Thiago Herdy, no Metrópoles, Lula teve desempenho superior ao adversário em todos os grupos no terceiro bloco, cinco de homens e cinco de mulheres, de 25 a 60 anos, das classes C e D, em Fortaleza, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Rio de Janeiro. Os participantes apontaram que Flávio Bolsonaro parece mudar de posição para agradar ao eleitor, em três assuntos específicos: reajuste das aposentadorias, aumento do salário mínimo acima da inflação e direito à licença-maternidade. A insistência de Lula nesses temas produziu efeito, e o coordenador dos grupos foi cirúrgico: “Apesar de bem treinado, Flávio não foi convincente”. No segundo bloco, antes do desastre do caso Ana Clara, o senador havia sido considerado melhor em dois grupos, com os outros oito apontando empate. O que os grupos ouviram não foi uma derrota de conteúdo, foi o reconhecimento de um comportamento: o candidato que muda de opinião conforme a plateia. E contra isso não há tempo de televisão que ajude.

 

Encerramento

Sobra a Lula, na noite em que listou as obras, o gesto que o identifica desde a infância e que nenhum marqueteiro fabrica: “Como eu sou nordestino, como eu carreguei pote de água com 6 anos de idade, eu quero que o Nordeste seja tratado em igualdade de condições com qualquer outra região desse país, porque nós merecemos respeito”. O candidato do PL, quando desafiado a citar uma obra do pai no Nordeste, entregou a transposição que o pai não fez e a água que chegou antes dele. O debate de 23 de outubro não decidiu a eleição, mas documentou o que cada um tem: de um lado, um homem que perdeu um dedo numa prensa e transformou a dor em lei de reajuste; do outro, um senador que, desafiado a explicar o próprio programa, apelou ao dedo do adversário e depois pediu desculpas. Domingo o eleitor decide o que pesa mais. O que a noite mostrou sem anestesia: quando o herdeiro saiu do palco, o pai já não estava ali para emprestar o sobrenome, e a conta de R$ 852 apresentada em voz alta foi a única cifra que ele não conseguiu desmentir.

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