Bolsonaristas imitam nazistas da Alemanha de Hitler

Apoiadores de Flávio Bolsonaro fazem listas e pregam demissão de quem votou em Lula

Por Frente Livre com Portal Vermelho
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Imagem: Reprodução Redes Sociais

Em 48 horas, mais de 600 trabalhadores denunciaram ao Ministério Público do Trabalho terem sido ameaçados ou demitidos por votar em Lula. Listas com nome e endereço de comerciantes circulam em Franca, Curitiba e Lucas do Rio Verde. A receita é velha, tem data e tem endereço: listar, marcar, excluir. É assim que começa. E é agora que se detém.

 

 

Existe um documento de 1933 que qualquer pessoa pode ler hoje, com dois cliques, num arquivo digitalizado. Chama-se “Lei para a Restauração do Serviço Profissional” e, entre outras coisas, determinou a exclusão de judeus do funcionalismo público alemão. Antes dele, houve os boicotes organizados ao comércio judeu, em abril daquele ano, com piquetes na porta das lojas e listas de estabelecimentos publicadas em jornais. Antes dos campos, houve isso. Sempre houve isso. Antes de qualquer forno, alguém imprimiu uma lista.

Não estamos dizendo que o Brasil de 2026 é a Alemanha de 1938. Não é. E a diferença importa, porque é ela que ainda nos deixa tempo. O que estamos dizendo é mais simples, mais preciso e mais grave: o Brasil de 2026 está fazendo exatamente o que se faz no primeiro degrau. E o primeiro degrau é o único em que a escada ainda pode ser interrompida.

O que aconteceu nas 48 horas seguintes à vitória

Na noite de domingo, 25 de outubro, Lula foi reeleito com 64,2 milhões de votos. Na quarta-feira, 28, o Ministério Público do Trabalho já contabilizava mais de 600 novas denúncias de assédio eleitoral — ameaças de demissão, discriminação na contratação, boicote a estabelecimentos. A Procuradoria-Geral do Trabalho registrou mais de 400 denúncias nas primeiras 40 horas após o resultado.

Reparem na escala. Não é um caso isolado. Não é um episódio de vizinhança. É uma mobilização nacional, coordenada em grupos de WhatsApp e Telegram, com método, com alvo e com objetivo declarado. Em 48 horas, centenas de brasileiros descobriram que o voto secreto — aquela garantia que a Constituição assegura desde 1988 — já não protege ninguém quando o vizinho tira print da sua rede social.

As listas

Em Franca, interior de São Paulo, circulou uma lista com cerca de 40 estabelecimentos — lojas de departamento, varejistas, marcas de beleza, docerias, pizzarias, supermercados — acusados de “associação ao PT”. O procurador do Trabalho Igor Gonçalves confirmou os mais de 300 casos no estado. Um dos empresários citados descreveu o que sentiu: “Por mais que essa informação tenha me assustado, porque não traduz a verdade, me assustou mais a violência. A rapidez de propagação desse tipo de informação e da irresponsabilidade de pessoas que se prestam a esse tipo de serviço, seja criar informações falsas ou até mesmo propagá-las sem nenhum tipo de responsabilidade.”

Leiam a frase de novo. “Me assustou mais a violência.” Não foi a mentira que o feriu — foi a velocidade com que a mentira virou arma.

Em Curitiba, um grupo de comerciantes de direita combinou aumentar em 30% o preço cobrado de clientes “petistas” e avisou que eles “não seriam bem-vindos no estabelecimento”. No mesmo grupo, segundo a Folha: “Só na bala agora..”. Um outro participante respondeu: “Toma cuidado. Esses comentários em grupo aberto podem te dar uma dor de cabeça.” A única coisa que os assustou não foi a violência da frase. Foi a possibilidade de ela ser lida por alguém de fora.

Em Lucas do Rio Verde, Mato Grosso, a 354 quilômetros de Cuiabá, o grupo “Movimento direita LRV” e o chat “Engenheiros e Arquitetos” passaram a organizar a perseguição com a banalidade administrativa de quem monta uma planilha de estoque. “Lista de comerciantes petistas na nossa cidade!!! Ajudem a alimentar e divulgar!!!!” Uma empresária da cidade — nora do prefeito — escreveu nas redes: “Que os PT sejam exonerados amanhã! Por que tem muita gente BOA procurando emprego!” E os participantes agendaram manifestação de rua, na Praça dos Bandeirantes, para a segunda-feira.

E em Ourinhos, no interior paulista, uma empresária resumiu o que é estar numa lista dessas: “É muito triste você ver seu nome numa lista como se fôssemos criminosos. Criminosos são essas pessoas que querem rebaixar o trabalho de outras.”

 

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O que a lei diz — e o que ela não impede

Aqui é preciso rigor, porque a indignação sem rigor vira desinformação. E desinformação é a matéria-prima do outro lado.

O boicote de consumo, em si, é legal. Ninguém é obrigado a comprar de quem quer que seja, e a advogada trabalhista Priscila Ferreira explica com precisão: “O boicote de consumo, em si, é exercício da liberdade de expressão.” Uma pessoa decidir não comprar de um comerciante porque discorda da política dele é feio, é mesquinho, mas é direito.

O problema começa exatamente onde a lista aparece. “O problema começa quando o boicote deixa de ser uma escolha individual e vira campanha organizada de listas com nomes e endereços de comerciantes, com ameaças e acusações”, diz Priscila. É a passagem do gosto pessoal para a marcação pública. É a diferença entre “não compro ali” e “não compre ali”.

E na esfera do trabalho, a lei é ainda mais clara: a Constituição protege a convicção política, e a Convenção 111 da OIT — ratificada pelo Brasil — inclui expressamente a opinião política entre os motivos que não podem fundamentar discriminação no emprego. Demitir alguém por ter votado em Lula é ilegal, com nome e sobrenome: dana moral, reintegração, ação civil pública por dano moral coletivo.

A jurisprudência trabalhistas já está se movendo. No Rio, a deputada estadual Índia Armelau (PL) publicou vídeo incentivando empresários a checar se funcionários apoiaram Lula — e o MPT ajuizou ação civil pública. Na terça-feira, 27, a Justiça do Trabalho concedeu liminar proibindo-a de incentivar demissões por escolha política. No Paraná, o MPT recomendou que o vereador de Curitiba e deputado federal eleito Guilherme Kilter (Novo) publicasse retratação por vídeo que incitava empresários a dispensar eleitores de Lula. Em Franca, o presidente da Câmara Municipal exonerou seu próprio assessor, Marcelo Ramalho, depois que ele defendeu publicamente a demissão de petistas.

A lei existe. A lei funciona. Mas a lei chega depois — e chega a um caso por vez, enquanto a lista circula a mil por hora em cinquenta grupos de WhatsApp simultâneos.

 

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O degrau, e por que ele se chama assim

Sidney Araújo, pesquisador do Holocausto, escreveu: “As listas não foram meros papéis; foram instrumentos ativos de perseguição e morte.” Isso não é metáfora. É descrição de procedimento. O nazismo não começou matando. Começou catalogando.

E é exatamente por isso que a comparação precisa ser feita com precisão cirúrgica, porque é a precisão que a torna irrefutável. Vejamos o que os dois processos compartilham:

Primeiro: a lista. Marcar publicamente quem é o outro. Dar nome, endereço, estabelecimento. Tornar visível o que antes era privado — o voto, a opinião, a preferência. A pessoa deixa de ser pessoa e vira registro.

Segundo: a exclusão econômica. Primeiro o emprego. Depois a empresa. Depois a possibilidade de trabalhar em qualquer lugar. Em Lucas do Rio Verde, o grupo não pede só demissão de petistas: pede que não se contrate apoiador de esquerda. Isso não é retaliação pontual. Isso é a construção de um mercado de trabalho com critério político — a morte civil por asfixia econômica.

Terceiro: o vizinho como delator. Não é o Estado que faz a lista. Somos nós. É o WhatsApp do condomínio, o grupo dos engenheiros, o chat da cidade. A perseguição se torna horizontal, difusa, impossível de processar — porque quem denuncia é o colega, é o cliente, é o cunhado.

Quarto: a naturalização da violência na linguagem. “Só na bala agora.” “Que os PT sejam exonerados amanhã.” “Não financie mais o estado inchado.” A linguagem vai sendo calibrada, degrau por degrau, até que o impensável soe razoável.

O que não aconteceu no Brasil: não há lei de extermínio, não há Estado sequestrado, não há campos. E é fundamentalmente por isso que a analogia importa — porque a única utilidade da história é nos dar a chance de parar no degrau em que ainda estamos.

O agravante que não tem precedente

E aqui está o que torna o caso brasileiro mais grave do que o paralelo histórico: os nazistas chegaram ao poder. Venceram a eleição de março de 1933, com 43,9% dos votos, e usaram o Estado para perseguir. A perseguição nazista foi a ação de um vencedor sobre um vencido.

No Brasil não. No Brasil, os fascistas perderam. Perderam por 4,4 milhões de votos. Perderam com a menor abstenção da história recente, com a maior participação dos últimos três pleitos. Perderam depois de ter ganhado o primeiro turno. E, derrotados, em vez de aceitar o resultado, fizeram duas coisas ao mesmo tempo: o líder fugiu do país e a base foi para cima de quem votou no vencedor.

Flávio Bolsonaro embarcou na noite de segunda-feira, 26 — pouco mais de 24 horas depois da derrota — rumo aos Estados Unidos, com esposa e filhas, cruzando a fronteira por terra e seguindo de jato, sem passar por ponto regular de migração. Venceu, na terça às 11h, o prazo que Alexandre de Moraes lhe deu para entregar os passaportes. Os documentos não chegaram à Polícia Federal. Antes de desaparecer, mandou uma mensagem ao senador Rogério Marinho dizendo que estava “esfriando a cabeça”. Esfriando a cabeça em outro hemisfério. Foi pedir asilo político a Donald Trump.

Reparem na arquitetura da covardia. O homem que passou a campanha inteira dizendo que representava o povo brasileiro, que chamava de fraude a eleição, que prometeu soldados americanos em território nacional — esse homem, quando perdeu, não ficou para enfrentar o resultado. Não chamou o povo para a rua. Não fez oposição. Fugiu. Cruzou a fronteira e foi pedir proteção ao governo estrangeiro cujo tarifaço ele aplaudiu.

E deixou para trás a base — a mesma base que, sem líder, sem projeto e sem futuro, foi fazer o que sempre faz: caçar o outro.

Não é perseguição. É vingança.

Aqui está o ponto que o Brasil precisa entender antes de chamar isso de “radicalização”. O que aconteceu depois do dia 25 não é o ímpeto de um movimento vitorioso. É o espasmo de um movimento derrotado. É a raiva de quem perdeu e não sabe o que fazer com a perda, convertida em violência contra quem ganhou — mas que é pequeno o bastante para ser alcançado. O comerciante da cidade. A funcionária do caixa. O vizinho que fez o “L”.

E é por isso que a palavra não é exagero. Perseguir alguém por sua posição política, tirar-lhe o emprego, marcar-lhe o nome numa lista, impedir que ele compre ou venda, organizar isso em grupo — não é liberdade de expressão, não é opinião, não é debate. É a tentativa de anular a cidadania do outro por meios econômicos e sociais. É a política dos que não creem em política.

O que a lei diz — e o que o Brasil precisa cobrar

Sidney Araújo, de novo: “As listas não foram meros papéis; foram instrumentos ativos de perseguição e morte.” O papel não matava. Ele organizava a morte. A lista criava o alvo; o alvo legitimava a violência; a violência, depois, dispensava a lista.

No Brasil de hoje, a lista é o começo. E o único jeito de garantir que ela não seja o começo de nada é a resposta ser rápida, exemplar e, sobretudo, coletiva. Não basta o MPT abrir uma ação por caso. Não basta uma liminar. O que está em jogo não é um comerciante em Franca, é a natureza da República: se o voto secreto vale, e se quem perdeu a eleição tem o direito de perseguir quem ganhou.

A resposta já começou: ações civis públicas, liminares, exoneração do assessor em Franca, recomendação de retratação ao deputado eleito no Paraná. É pouco para o tamanho do ataque. Precisa virar política de Estado — não de um governo, mas de uma nação que decidiu que o resultado das urnas não é uma opinião a ser contestada com listas.

Ainda dá tempo. E é por isso que a comparação serve.

Aqui está o que a memória de 1933 ensina, e ensina com uma clareza brutal: nunca é o último degrau que assusta. É o primeiro que passa desapercebido. A lista de boicote parece exagero de grupo de WhatsApp. A demissão de um funcionário parece desavença de trabalho. O “só na bala agora” parece bravata de bêbado. E depois cada um desses se revela o que sempre foi: o ensaio de uma coisa maior.

A sociedade alemã não parou em 1933 porque achava que estava tudo sob controle — porque as listas eram só papel, porque os boicotes eram só comércio, porque os vizinhos eram só vizinhos. Não estava sob controle. E o primeiro degrau não avisa que é o primeiro.

No Brasil, temos duas vantagens que a Alemanha não teve, e elas não são pequenas: temos um Estado democrático funcionando, com Ministério Público que age, Justiça que decide, imprensa que apura. E temos uma lição pronta, com data, com nome, com fotografia, para reconhecer o padrão antes que ele avance.

Não é hora de dizer “que absurdo” e seguir rolando o feed. É hora de denunciar ao MPT — qualquer trabalhador ameaçado pode fazê-lo, mesmo depois da eleição, e a denúncia é gratuita. É hora de exigir que as listas sejam investigadas como organização criminosa, não como desentendimento. É hora de exigir que as plataformas entreguem os nomes dos grupos, porque “crime no mundo digital tem que ser tratado igual crime na vida real” — e essa frase é do presidente reeleito, no discurso da vitória.

É hora de exigir que o Brasil não seja o país que, tendo a história à mão, escolheu repetir o primeiro degrau.

Porque o fascismo não começa com tanques na rua. Começa com uma lista. E a lista, no Brasil de 2026, já está circulando.

A lição do degrau

Ficamos com a imagem que resume tudo: um homem de 65 anos, empresário, ameaçado de boicote por ter apoiado Lula, diz que continuará manifestando seu apoio. Uma mulher, empresária em Ourinhos, diz que se sentiu tratada como criminosa. Não são heróis. São pessoas comuns que fizeram o que a democracia exige: disseram em quem votaram.

E é exatamente por isso que a resposta precisa ser à altura deles. Não uma resposta de esquerda contra direita. Uma resposta de civilização contra barbárie. Porque o que os grupos de WhatsApp estão ensaiando em Franca, em Lucas do Rio Verde, em Curitiba e em Ourinhos não é uma disputa política — é a tentativa de transformar o voto em crime e o vizinho em alvo.

E isso, no Brasil, tem nome. Tem lei. Tem Ministério Público. Tem juiz. Tem urna.

E tem, sobretudo, uma escolha: ou o país diz, agora, no primeiro degrau, que não vai subir essa escada — ou descobre, mais tarde, que degrau não tem volta.

O fascismo perdeu a eleição no dia 25. O que ele está fazendo nos dias 26, 27 e 28 é tentar provar que perder a eleição não significa perder o poder de ferir. Cabe a nós, brasileiros, provar o contrário.