PL abandona Flávio e reconhece vitória de Lula

Partido do candidato fascista emite nota oficial aceitando o resultado da votação

Por Frente Livre
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Imagem: FLIA

Vinte e quatro horas. Foi o tempo que a intentona de Flávio Bolsonaro durou. No domingo (25), derrotado por 4.430.191 votos, o senador disse ser “impossível aceitar o resultado”, falou em “sacanagem” e anunciou que pediria a anulação da eleição. Na noite desta segunda (26), o próprio PL — o partido dele, assinado por Valdemar Costa Neto — publicou nota reconhecendo a vitória de Lula: “Reconhecemos o resultado presidencial, proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral”.

O candidato não reconheceu. O partido reconheceu. Os governadores que o apoiaram reconheceram. Os partidos do centrão que endossaram sua campanha reconheceram. Os presidentes da Câmara e do Senado reconheceram. Até Nikolas Ferreira, a maior voz digital do bolsonarismo, orientou seus 26 milhões de seguidores a não irem às ruas e admitiu: “Conhecendo o nosso país, a chance de anular essa eleição é praticamente nula.”

Resta um homem só, com uma tese só e um número só. E o número o desmonta.

 

PL reconhece vitória Lula Valdemar Costa Neto, presidente do PL, assinou nota oficial reconhecendo a vitória do presidente Lula na eleição de domingo. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

O número que acaba com a tese

A “desculpa” encontrada pelos Bolsonaros foi a prorrogação do horário de votação — decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que estendeu o pleito até as 19h. Segundo a tese, a extensão teria “quebrado as regras do jogo” e favorecido Lula.

Os dados do próprio TSE fazem essa tese desmoronar.

➡️ Foram registrados 34.330 votos após as 17h — o equivalente a 0,03% do total. Não 340 mil. Não 34 mil por estado. Trinta e quatro mil e trezentos votos, em um universo de 124 milhões. Para que essa fatia virasse a eleição, cada um desses 34.330 votos precisaria valer 129 votos. E todos eles teriam de ser de Lula, sem uma única exceção.

➡️ A prorrogação não foi decisão unilateral nem invenção do governo. Ela foi pedida pelas duas campanhas. O PT requereu a extensão por causa do boicote de prefeituras ao transporte público em cidades da Bahia e de São Paulo — em Salvador, um rodoviário denunciou ordem para manter ônibus parados e impedir a retirada de adesivos do PT, e o TRE-BA determinou a prisão de um secretário. A campanha de Flávio pediu a mesma prorrogação, restrita a municípios do Sul e do Sudeste, por causa dos temporais. Ele pediu o que agora chama de fraude.

➡️ A decisão foi cirúrgica. Zanin aplicou a extensão apenas às seções que ainda estavam abertas. Em despacho complementar, determinou que as urnas já encerradas tivessem seus votos apurados normalmente. Kassio Nunes Marques, presidente do TSE, formalizou a instrução às 17h49 e foi categórico, na noite de domingo: “Não houve nenhuma alteração advinda da decisão judicial”.

E há a coincidência que arruína a tese pela raiz: Zanin foi advogado de Lula. É esse o argumento final dos que contestam — o ex-advogado do candidato teria prorrogado a votação para favorecê-lo. Só que a decisão atendeu também ao pedido do adversário, e o resultado da fatia ampliada (0,03%) é matematicamente incapaz de alterar qualquer coisa. Se a intenção era fraudar, a fraude mais incompetente da história produziu 34 mil votos num universo de 4,4 milhões, que foi a diferença entre os dois concorrentes.

O recuo que ninguém anunciou como recuo

Aqui é preciso ler com atenção, porque a operação da noite de segunda é mais sofisticada do que o desmentido.

Flávio abandonou o pedido de anulação. Aliados o convenceram — Rogério Marinho, coordenador político da campanha; Tarcísio de Freitas; os advogados liderados pela ex-ministra Maria Claudia Bucchianeri. O argumento era a aritmética: 4,4 milhões de votos de vantagem esvaziam a contestação. E havia o temor maior: a “configuração desfavorável” no TSE e no STF.

Mas o que ele fez no lugar não foi reconhecer. Foi deslocar. No vídeo da noite de segunda, Flávio disse: “Não fui eu que perdi, foi o sistema que ganhou.” E anunciou que pedirá a cassação da chapa de Lula por abuso de poder econômico, com a promessa de fazer da Câmara e do Senado “a nossa fortaleza contra a barbárie que já está desenhada para acontecer com mais quatro anos de Lula”.

A manobra é clara. Ele troca a tese de fraude — insustentável, desmentida pelos 0,03% — por uma tese de abuso de poder, que não questiona a urna e, portanto, não pode ser desmentida por aritmética. A frase “não fui eu que perdi, foi o sistema que ganhou” é a mesma recusa, com outra roupa: a derrota deixa de ser derrota e se torna roubo — só que agora sem data de anulação e sem prova de urna.

Não é reconhecimento. É a preservação do recurso político da suspeita, que é o que sustenta o bolsonarismo desde 2022. Muda o foro, muda a tese, muda o pedido — não muda a função: manter viva a ideia de que o resultado não é legítimo.

A súplica a Trump: o golpe que o candidato não sustentou sozinho

E é aqui que a segunda parte da sua leitura se confirma com documento. Enquanto o PL se movimentava para encerrar o assunto, a militância bolsonarista fazia o que o partido não faria: foi pedir socorro a Washington.

Apoiadores de Flávio invadiram o perfil de Donald Trump pedindo intervenção americana no Brasil — e o detalhe que transforma o episódio de patético em sintomático é este: os pedidos foram feitos nos comentários de uma publicação de Trump sobre a queda de 40% nas mortes por overdose de drogas nos Estados Unidos. Um assunto sem nenhuma relação com o Brasil. O grito de golpe, na caixa de comentários de um post sobre overdose.

E Trump respondeu. Sem nenhuma prova, o presidente americano declarou: “Achei que foi uma situação muito ruim. Não tomei partido, mas pareceu mais uma eleição fraudada.” E acrescentou: “Acompanhei a eleição. Pareceu tão, tão corrupta, tão terrível.” E ainda: “Eu não governo o Brasil. Eu governo os Estados Unidos. Gosto do Lula. Me dou muito bem com ele, mas a prorrogação concedida foi muito estranha.”

 

Trump e eleição brasileira Imagem: Reprodução

 

A estrutura da fala é o retrato do personagem: diz que não tomou partido e, na mesma frase, classifica o pleito de corrupto. Elogia Lula e chama a eleição de fraudada. E há um detalhe que a imprensa brasileira deveria cobrar todos os dias: na madrugada de 5 de outubro, quando o vencedor era o candidato dele, Trump elogiou publicamente o processo eleitoral brasileiro e a rapidez da apuração. A eleição é exemplar quando o aliado ganha. É fraudada quando o aliado perde. Não existe outro critério.

O histórico piora o diagnóstico. Em junho, na cúpula do G7 em Evian, na França, Trump inventou uma prisão: afirmou aos jornalistas que “Bolsonaro Jr.” havia sido preso por uma declaração dada no Texas, e que o Brasil estava “politicamente perigoso”. A realidade: Eduardo Bolsonaro, que perdeu o mandato por faltar ao trabalho enquanto passeava nos Estados Unidos, foi condenado pelo STF por coação no escândalo do tarifaço — não foi preso. E Flávio, a quem Trump chamou de “Bolsonaro Jr.”, não era sequer réu. Trump confundiu dois irmãos, inventou uma prisão, inventou uma causa.

É esse homem que o bolsonarismo escolheu como instância de recurso.

O que o PL e os aliados viram e os Bolsonaros não

A parte mais reveladora do dia não é o que disseram os adversários — é o que disseram os aliados.

O PL reconheceu o resultado. Valdemar Costa Neto assinou a nota oficial do partido. E, num gesto de rara clareza política, o partido não endossou a tese de fraude nem a prorrogação como argumento: para Valdemar, o problema eram “medidas eleitoreiras” com “ampliação de gastos públicos” — acusação sem prova apresentada, mas que ao menos tem a decência de não chamar a urna de desonesta. Nos bastidores, o relato é que o PL preferiu “agir no mundo real”.

Nikolas Ferreira, o deputado fascista que lidera correntes no Instagram, disse que a chance de anulação é “praticamente nula”, pediu prudência e orientou: “Não façam isso”. A referência era explícita — os atos que desembocaram no 8 de janeiro de 2023, quando bolsonaristas bloquearam estradas, acamparam em frente a quartéis e depredaram os Três Poderes, e quando a alta cúpula do governo anterior articulou a tentativa de golpe que levou Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão. “Já vimos muitas pessoas pagarem um alto preço de irem para a rua no calor da emoção”, disse Nikolas. Ele sabe do que fala.

Tereza Cristina pediu respeito ao resultado. Adolfo Sachsida, ex-ministro, se posicionou de forma democrática. Cláudio Lottenberg, o ministro da Saúde que Flávio havia escolhido para o caso de vitória, foi direto: “A resposta das urnas é a resposta do que é o desejo da sociedade. Cabe a nós respeitar.”

E o favorito de Flávio para a Saúde, num domingo, já havia dito o que o candidato só diria — nunca — na segunda. Se até o ministro que ele não chegou a nomear reconhece a urna, o que resta ao candidato?

Os EUA não seguiram o roteiro

E aqui está o desfecho da súplica. Os Bolsonaros apostaram em Washington. Washington não veio.

O vice-presidente Geraldo Alckmin classificou a declaração de Trump como “totalmente equivocada” e deu a resposta que encerra o assunto em uma frase:

Democracia é assim. Você ganha eleição, você perde a eleição, é o povo que decide.”

E o governo brasileiro seguiu adiante — mantendo as negociações comerciais com os EUA apesar das tarifas.

Do outro lado do hemisfério, os senadores americanos que haviam denunciado a interferência de Washington na eleição brasileira fecharam o cerco por baixo. Jeanne Shaheen parabenizou Lula: “O povo falou em uma das maiores democracias do mundo.” Alexandria Ocasio-Cortez: “A vontade do povo é mais forte do que os autoritários que tentam suprimi-la.” Ro Khanna, cirúrgico: “Trump precisa respeitar os resultados e não minar as eleições do Brasil.”

E o mundo seguiu

Enquanto o Brasil discutia se 0,03% dos votos derrubam 51,79%, o planeta já tinha virado a página. Emmanuel Macron, Pedro Sánchez, Anthony Albanese, Cyril Ramaphosa, a China: todos reconheceram. E Sánchez foi além do protocolo — transformou a vitória de Lula em bandeira da própria campanha. Em Gijón, no ato do PSOE, a cinco semanas das eleições espanholas de 29 de novembro, disse:

Se o Brasil pôde [vencer a extrema direita], a Espanha pode.”

É o dado que nenhuma nota de partido consegue apagar. A eleição brasileira deixou de ser um assunto interno conturbado e virou referência internacional de que a extrema direita pode ser derrotada nas urnas — mesmo favorecida pelas plataformas digitais, mesmo com a Justiça atuando a favor, mesmo com a sabotagem de prefeitos aliados do adversário, mesmo com a maior rede de TV do país ajudando. E enquanto o derrotado tentava anular, o mundo usava a vitória brasileira como argumento para vencer.

O que sobrou da tentativa

Vinte e quatro horas. Um pedido de anulação abandonado. Um partido que reconheceu sem o candidato. Aliados que pediram prudência e evitaram as ruas. Um presidente americano desmentido pelos números. Um governo brasileiro que respondeu em uma frase. Um mundo que virou a página antes do fim da manhã seguinte.

Sobrou a frase que Flávio escolheu como seu legado desta eleição: “Não fui eu que perdi, foi o sistema que ganhou.” É a mesma frase do pai, em 2022 — e o pai está preso. A diferença entre a tragédia de 2023 e a farsa de 2026 é que, desta vez, o país inteiro viu o roteiro antes de ele ser executado, e o próprio campo do derrotado se recusou a entrar no palco.

Recuaram porque a realidade fechou todas as saídas, e porque os próprios aliados temeram o tamanho do incêndio que a tese de fraude poderia provocar.

Não celebrar o recuo. Registrar a mecânica. Porque a mesma máquina que hoje se cala é a que amanhã, diante de outra derrota, tentará outra porta — e a única razão pela qual ela não passou desta vez foi o tamanho da diferença. Uma eleição apertada não teria resistido.

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