De cada 100 pessoas pretas no Brasil, 84 já sofreram discriminação racial. A revelação escancarada é de uma nova pesquisa apoiada pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR), divulgada nesta terça-feira (20), que investiga como o racismo cotidiano impacta a vida de milhões de brasileiros. O levantamento mostra um país atravessado por preconceito, exclusão e violências que não aparecem nas manchetes, mas moldam rotinas inteiras.
Para chegar aos dados, pesquisadores aplicaram a Escala de Discriminação Cotidiana a 2.458 pessoas entre agosto e setembro de 2024. Foram analisadas respostas a perguntas como: “Sou tratado com menos gentileza”, “Sou seguido em lojas”, “Recebo atendimento pior que outras pessoas”. As respostas, categorizadas em “nunca”, “raramente”, “frequentemente” ou “sempre”, revelam a dimensão da desigualdade racial naturalizada no cotidiano.
Entre os dados mais alarmantes: 57% dos pretos afirmam receber atendimento pior em lojas e restaurantes (contra apenas 7,7% entre brancos); 49,5% relatam ser tratados com menos respeito (contra 9,7% dos brancos); e 21,3% dizem ser constantemente seguidos em lojas. A pesquisa também mostra que 72% das mulheres negras sofrem mais de um tipo de preconceito o pior índice entre todos os grupos.
Pedro de Paula, diretor da Vital Strategies Brasil, que conduziu o estudo em parceria com a Umane e a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), resume: “Há um abismo de desigualdade racial na experiência cotidiana. Isso impacta a saúde mental, o acesso ao trabalho, a autoestima e o bem-estar social”.
O estudo também revelou que 62% dos homens pretos já vivenciaram mais de uma forma de discriminação. Entre brancos, esse número cai para 30,5% entre as mulheres e 52,9% entre os homens. Já 10,8% dos pardos relataram discriminação racial ainda um número elevado, embora menor que os 84% entre pretos.
Além da cor da pele, outros fatores de preconceito também aparecem: orientação sexual, obesidade, religião, deficiência física e renda foram citadas como alvos de discriminação. Mas a centralidade da cor da pele na violência cotidiana permanece evidente e desafiadora.
Segundo Evelyn Santos, gerente da Umane, essa é a primeira vez que a escala é aplicada nacionalmente. “Foi um passo essencial para entendermos onde a política pública deve incidir com mais força”, disse.
[Racismo estrutural em números]
| Indicador | Pretos | Pardos | Brancos |
|---|---|---|---|
| Atendimento pior | 57% | 28,6% | 7,7% |
| Menos respeito | 49,5% | 32,1% | 9,7% |
| Seguido em lojas | 21,3% | 8,5% | 8,5% |
| Mais de uma forma de discriminação (mulheres) | 72% | | 30,5% |
A pesquisa se soma a dados como o Atlas da Violência, que aponta risco 2,7 vezes maior de homicídio entre negros, e o Censo 2022, que mostra que 72,9% dos moradores de favelas são pretos ou pardos.
“É impossível fazer política social séria sem combater o racismo”, conclui Pedro de Paula. “Desde a saúde até o sistema judiciário, o preconceito é um veneno que corrói qualquer esforço por justiça.”
Fonte: Agência Brasil






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