Dólar
R$ 5.08 Subiu
Euro
5.789 Subiu
Brasília
22°C 29°C 18°C

Explore Mais

Colunas exclusivas e conteúdos especiais

Banco Master mata DF
Ao fundo, Vilmar Pereira da Silva na recepção da UPA do Recanto das Emas: o triângulo Ibaneis, Celina e Vorcaro é o fio do enredo que trouxe caos à saúde pública do DF. Fotos: Reprodução Redes Sociais
BRASIL

Corrupção do Banco Master mata em série no DF

Bilhões do Tesouro cobriram rombo do BRB; saúde ficou desassistida

No dia 20 de junho, Vilmar Pereira da Silva, de 49 anos, morreu na recepção da Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) do Recanto das Emas, no Distrito Federal, após aguardar atendimento por pelo menos quatro horas. Na segunda-feira (13), Maria Aparecida Galdino dos Santos, de 25 anos, morreu no Hospital Regional de Samambaia depois de pedir cesárea e ser submetida a parto normal; segundo a família, a equipe médica esqueceu a placenta na gestante. São dois de seis óbitos registrados na rede pública de saúde do DF em menos de um mês, investigados pela Polícia Civil por possível omissão de socorro. Seis mortes. Trinta dias. Uma causa comum, que não está na sala de emergência, não no plantão médico, não na falta de protocolo clínico. Está no balanço patrimonial do Banco Regional de Brasília (BRB), onde o dinheiro que deveria estar salvando vidas foi despejado para tapar o buraco deixado pela corrupção bilionária do Banco Master.

A cadeia é esta, e cada elo é documentado. O Banco Master, de Daniel Vorcaro, o corruptíssimo ex-banqueiro preso há três meses, vendeu ao BRB carteiras de crédito consignado falsificadas, papéis podres disfarçados de ativo financeiro. O BRB, sob o comando de Paulo Henrique Costa, nomeado pelo bolsonarista Ibaneis Rocha (MDB), repassou ao Master, entre janeiro e maio de 2025, pelo menos R$ 12,2 bilhões em dinheiro público do Tesouro distrital. Doze vírgula dois bilhões de reais.

O mesmo Vorcaro que diz ter pago 30 milhões de dólares em propina a Alcolumbre, presidente do Senado, que tem áudio de Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro, que tinha um “Sicário” como chefe de milícia privada. O mesmo Vorcaro. O mesmo Master. O mesmo dinheiro. Só que agora não é mais propina de senador nem áudio de pré-candidato. É sangue de paciente na recepção de UPA.

O rombo foi descoberto. O Banco Central interveio. A Justiça afastou o presidente do BRB. Uma auditoria interna calculou que o banco precisa de R$ 8,8 bilhões para fazer frente às “possíveis perdas” decorrentes dos negócios com o Master. O governador Ibaneis Rocha aprovou lei autorizando socorro econômico-financeiro de até R$ 6,6 bilhões ao BRB, publicado em edição extra do Diário Oficial após aval da Câmara Legislativa. Depois, o número cresceu.

O dinheiro sumiu

O novo presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, empurrado goela abaixo de Ibaneis depois da liquidação do Master e do mandado judicial pelo afastamento de Paulo Henrique Costa, confirmou que a instituição precisa de R$ 8,8 bilhões. A Folha de S.Paulo registrou em 25 de fevereiro que o DF tem um rombo de R$ 1 bilhão no caixa, o que dificulta o socorro ao BRB e torna a ajuda da União “inevitável”. O G1, em 13 de janeiro, cravou a frase que é a sentença deste texto: “A sinalização de possível aporte para cobrir transações excusas do BRB vem no mesmo momento em que o governo do DF diz enfrentar uma crise orçamentária que pode comprometer a saúde pública na capital.”

Comprometer. O verbo é eufemismo. O que aconteceu foi esvaziamento. O Sindicato dos Médicos do Distrito Federal (Sindmédico), em dezembro de 2025, já perguntava o que ninguém no GDF queria responder: “Depois do BRB, queremos saber: onde está o dinheiro do Iges-DF?” O Instituto de Gestão em Saúde do Distrito Federal, o IGES, é o braço financeiro do SUS local, o órgão que repassa recursos para hospitais, UPAs e unidades básicas. Segundo o Sindmédico, “não é possível identificar de forma precisa a origem e o destino de parte dos recursos administrados pelo instituto”, um problema estrutural que impede o controle público e favorece desvios de finalidade. O dinheiro entra e não se sabe onde sai. O IGES é uma caixa-preta dentro de um sistema que sangra.

O Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF) recebe, semanalmente, relatos de superlotação crônica e grave déficit de profissionais. O conselho afirmou ao Brasil de Fato que “a recomposição estruturada e definitiva da força de trabalho nas unidades de saúde” é “indispensável” para mitigar riscos assistenciais. Indispensável. Mas não há dinheiro para recompor. Não há dinheiro para contratar. Não há dinheiro para manter leitos abertos. Não há dinheiro porque o dinheiro foi para o BRB, e o BRB engoliu o Master, e o Master era uma fraude, e a fraude tinha nome, dono e propina, e o dono está preso, e a propina está delatada, e o dinheiro, esse, sumiu. Doze vírgula dois bilhões de reais do Tesouro distrital, canalizados para um banco falido, comprando papéis falsos de um banqueiro corrupto, enquanto Vilmar Pereira da Silva morria na recepção de uma UPA e Maria Aparecida Galdino morria numa mesa de parto em Samambaia.

Saúde do DF na UTI

A pesquisa do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas do Distrito Federal (ObservaDF), realizada em abril de 2025 com mil entrevistados nas 29 regiões administrativas, já mostrava o que viria: a saúde é apontada como o principal problema do DF por cerca de metade dos moradores. 26% reclamam de mau atendimento, 14% das filas nos prontos-socorros, 12,8% da falta de médicos, 9,6% da demora para tratamento, 5,3% da má gestão do sistema, 3,7% da falta de medicamentos. 67% avaliaram negativamente o tempo de espera nas UPAs.

Os hospitais públicos apresentam os piores índices de avaliação entre os equipamentos de saúde analisados. E a governadora ultrabolsonarista Celina Leão, nesta quarta-feira (15), após as mortes, reconheceu: “Precisamos melhorar.” Precisamos. O verbo é correto. O tempo verbal não. Não é “precisamos”, agora, no presente. O certo seria “já precisávamos há meses, quando o dinheiro estava sendo despejado no BRB para cobrir o rombo do Master, e a saúde era esvaziada por dentro.”

O Instagram do presidente do PSB no DF, Rodrigo Dias, em 16 de julho, foi direto: “Ibaneis e Celina sentenciaram a saúde do DF a ficar na fila de espera.” E o ex-governador José Roberto Arruda, em abril, meteu o dedo na ferida inflamada: “Tiraram da saúde e jogaram em banco falido. Essa é a Crise Master.” Tiraram da saúde. Jogaram em banco falido. A frase é o resumo de tudo. Cada real que entrou no BRB para cobrir o rombo do Master é um real que não entrou no IGES, que não contratou médico, que não abriu leito, que não comprou medicamento, que não salvou a vida de Vilmar, de Maria Aparecida, de quatro outros que morreram em menos de um mês na rede pública de saúde do Distrito Federal.

Tudo conectado

A corrupção do Banco Master não é um escândalo financeiro abstrato, uma disputa entre banqueiros e auditores, um caso de colarinho branco que se resolve em tribunais com números e planilhas. A corrupção do Banco Master mata. Mata porque canibalizou o orçamento da saúde pública do Distrito Federal, porque esvaziou o IGES, porque deixou UPAs sem médico e hospitais sem condição, porque transformou a recepção de pronto-socorro em sala de espera da morte. O Banco Master não é só um banco que fraudou. É um banco que matou. E os responsáveis, do banqueiro preso ao governador que assinou o aporte, do presidente afastado do BRB à governadora que fez parte da gestão o tempo inteiro e só agora diz “precisamos melhorar” depois de seis mortes, todos têm as mãos manchadas com o dinheiro que saiu da saúde e foi parar no buraco.

O STF, por meio do ministro André Mendonça, relator do Caso Master, autorizou a quebra de sigilo do iCloud do “Sicário” de Vorcaro. Vorcaro delata Alcolumbre. Flávio Bolsonaro, que é apoiado por todos eles, aparece em foto ao lado do Sicário. O BRB engole R$ 12,2 bilhões do Tesouro distrital. Seis pessoas morrem em um mês no SUS do DF. Tudo está conectado. O fio que liga a propina de Washington ao óbito de Samambaia, o iCloud do Sicário à placenta esquecida no corpo de uma gestante de 25 anos, é o mesmo fio: o dinheiro público desviado, canalizado, canibalizado, esvaziado. E enquanto a PF vasculha a nuvem e a PGR analisa o inquérito, o IGES segue em crise, as UPAs seguem lotadas, e o caixão de mais um paciente que esperou quatro horas por atendimento que nunca veio segue descendo o corredor de um hospital público do Distrito Federal.

 

View this post on Instagram

 

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Final da página
WhatsApp

Frente LIVRE

Normalmente responde dentro de uma hora
Frente LIVRE

Olá 👋

Fale com o ciberporto da esquerda popular ✊💡

20:57