Comecemos pelo começo, porque o começo já é uma sentença. Flávio Bolsonaro é o primogênito de Jair Bolsonaro, o capitão que governou este país por quatro anos de devastação institucional, genocídio sanitário e entrega de soberania. Foi ele quem colocou o pai na política presidencial, quem articulou a aliança com o centrão, quem costurou os fios da campanha de 2018. Em recompensa, ganhou o Senado pelo Rio de Janeiro com o dinheiro e a máquina das milícias cariocas, aquelas mesmas que o pai dizia não conhecer mas cujos líderes frequentavam churrasco no palácio.
A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS, em relatório da maioria governista publicado em 27 de março de 2026, pediu o indiciamento de 170 pessoas, entre elas o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu filho Flávio, pelo vínculo com o “Careca do INSS”, um dos principais operadores do esquema que desviou R$ 6,3 bilhões de aposentados e pensionistas. Flávio foi beneficiado na compra de uma mansão de quase R$ 6 milhões por relações suspeitas com o operador. Uma mansão de R$ 6 milhões. Comprada com dinheiro de aposentado. Este é o homem que quer presidir o Brasil.
A Polícia Federal, no inquérito concluído em 10 de julho e revelado em 14, indiciou 48 pessoas pela máfia do INSS, incluindo o ex-ministro da Previdência de Bolsonaro, José Carlos Oliveira, que assinou despachos liberando R$ 15,3 milhões em descontos indevidos para a Conafer e recebeu pelo menos R$ 550 mil em propina lavada em vendas fictícias de cosméticos e perfumes. A máfia nasceu em 2019, no governo Bolsonaro. Foi descoberta, investigada e extinta no governo Lula. Lula sancionou a lei que mata o esquema na raiz e já devolveu R$ 2,8 bilhões a 4,2 milhões de aposentados. O clã Bolsonaro, que criou as condições para o roubo, não devolveu um real. Não investigou um suspeito. Não prendeu um corrupto. E o filho do capitão, indiciado pela CPMI, quer agora sentar na cadeira que Lula ocupa. A ironia seria cômica se não fosse obscena.
A foto com Sicário
Mas o INSS é apenas a primeira camada. Abaixo dela, há o Banco Master. Existe áudio de Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro, o corruptíssimo ex-banqueiro, preso há três meses. Áudio. Pedido de dinheiro. Na quarta-feira (15), o site ICL Notícias revelou uma foto em que Flávio aparece ao lado de Luiz Felipe Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, identificado como chefe da milícia privada de Vorcaro. Foto. Ao lado do sicário. Do banqueiro corrupto. E no dia 16 de junho, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, relator do Caso Master, anunciou que autorizou a quebra de sigilo dos dados armazenados no iCloud de Mourão. O iCloud do Sicário está aberto. A Polícia Federal está vasculhando. E o PL, o partido neofascista brasileiro, segundo o Diario do Centro do Mundo, está em pânico, temendo que os dados da nuvem contenham registros citando Flávio Bolsonaro. Se contiverem, a foto deixa de ser episódio isolado e vira evidência de padrão.
Aqui é preciso parar e fazer o leitor olhar para o conjunto. Flávio Bolsonaro pediu dinheiro a um banqueiro corrupto. Foi fotografado ao lado do chefe da milícia desse banqueiro. Foi indiciado pela CPMI do INSS por vínculo com operador de esquema que roubou aposentados. E o iCloud do miliciano está sendo vasculhado pela Polícia Federal. Este é o currículo do homem que quer presidir o Brasil.
TariFlávio
E há o tarifaço. Donald Trump impôs 25% sobre produtos brasileiros. Lula disse que Flávio pediu. Flávio negou. 51% dos brasileiros, segundo a Genial/Quaest, acreditam em Lula. O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, chamou Flávio de “vassalo dos interesses econômicos dos EUA no Brasil” e de “traidor da pátria”, e ligou o ataque ao desespero com o Caso Master. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, atribuiu o tarifaço ao “ego de Lula”, mas o governo brasileiro tem recibo de mais de 30 reuniões com autoridades dos EUA, incluindo 11 conversas com o próprio Rubio. O problema não foi ausência de diálogo. O problema foi ausência de submissão. E Flávio, que esteve em Washington nas semanas anteriores ao anúncio, é visto por mais da metade do país como o entregador que foi buscar a punição estrangeira contra o próprio país. Vassalo. Traidor. Entregador. São palavras de um ministro da República, não de oposição. E a pesquisa confirma que o eleitorado as endossa.
E há, sobre tudo isso, pairando como abutre sobre carniça, o rumor. Não é boato de rodapé de WhatsApp, não é invenção de oposição desesperada, não é fantasia de redação. É informação que circula nos corredores do PL, nas conversas de bastidor do bolsonarismo mais raivoso, entre os mesmos evangélicos que sustentam o clã com dízimo e voto. Paira sobre Flávio Bolsonaro o rumor persistente, reiterado, never-ending, de um vídeo em que ele aparece no meio de uma orgia. Um bacanal. Uma festa daquelas que a Bíblia descreve quando fala das cidades de Gênesis, capítulo 18, quando Deus decidiu que havia chegado a hora de destruir Sodoma e Gomorra. Se o vídeo existe e vem a público, é um tiro de morte na já frágil candidatura do senador neofascista à Presidência. Não sobrevive, politicamente, um pré-candidato a presidente da República exposto em tal grau de nudez.
Uso de drogas… era só o que faltava
E é exatamente aqui que a história do bacanal se conecta com a voz que mais dói, porque vem de dentro de casa. Julian Lemos, ex-deputado federal pelo PL da Paraíba, homem que coordenou a campanha de Bolsonaro no Nordeste em 2018, publicou em seu Instagram um texto que é uma denúncia feita por quem conhece o clã por dentro. Lemos não é petista, não é jornalista de oposição, não é analista de think tank. É um bolsonarista arrependido, um homem que esteve na máquina, que viu, que agora fala. E o que ele disse foi isto: “Já que ele se apresenta como representante de uma suposta direita contrária à liberação de substâncias ilícitas, sugiro que faça um exame toxicológico por meio de fio de cabelo. Assim, poderá demonstrar coerência e ter legitimidade para tratar desse tema. Da mesma forma, considerando as acusações e controvérsias públicas envolvendo seu grupo político, entendo que lhe falta autoridade moral para fazer discursos sobre corrupção, propina ou valores familiares. Chegou a hora de substituir narrativas por fatos e de tirar a máscara de quem cobra dos outros aquilo que não demonstra na própria prática.”
Exame toxicológico por fio de cabelo. O exame que rastreia 90 dias de consumo e não há shampoo que apague. A sugestão não é acusação direta. É pior. É o silêncio eloquente de quem sabe mais do que diz, e diz o suficiente para que todos entendam. E a frase sobre autoridade moral para falar de corrupção, propina e valores familiares é o certificado de óbito da candidatura, assinado por quem ajudou a parir o pai politicamente. Valores familiares. É a frase que ecoa quando se fala em bacanal. É a frase que se quebra quando se fala em orgia. É a frase que vira pó quando o homem que a profere é o mesmo que aparece em foto ao lado do sicário de um banqueiro corrupto.
A mal ajambrada carta
E há, por fim, a tragédia familiar que é também tragédia política. No sábado, 11 de julho, Bolsonaro, o capitão golpista em prisão domiciliar, escreveu de próprio punho uma carta em que declara Flávio como “seu pré-candidato e porta-voz”. O filho leu o documento em live no YouTube. A destinatária oculta, que todo Brasil conhece e que a carta não nomeia, Michelle Bolsonaro, não foi avisada, não foi consultada, não foi sequer informada. Tomou conhecimento da existência do documento pelas redes sociais, como qualquer internauta, enquanto estava fora de casa. O eufemismo do G1, que falou em “incômodo”, é generoso. O incômodo de Michelle não é com a carta. É com o rumo inteiro da sucessão presidencial no campo bolsonarista.
A fratura entre Michelle e Flávio é pública, notória. A reconciliação entre os dois, segundo aliados, é hoje “impossível”. E há uma razão mais funda, e mais suja, por trás disso. Michelle sabe do rumor do vídeo da orgia. E, com a ajuda dos evangélicos do PL, inclusive o infantil deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que se imagina estrategista mas é mero arauto da bancada gospel, colocou-se como alternativa, caso Flávio seja inviabilizado. Não é Michelle que se candidata. É a igreja que se candidata através de Michelle. Só que o bolsonarismo, neofascista que é, cultiva com gosto o machismo mais rasteiro, aquele que acha que lugar de mulher é dentro de casa, obedecendo o homem candidamente e cuidando da família. Logo, no código bolsonarista, o que Michelle faz com Flávio é coisa de alta traição ao machão Jair.
O capitão que sempre se gabou de comandar o clã como um quartel, que distribuiu cargos para os filhos como medalhas, que transformou a família em extensão do projeto político, agora vê o quartel em motim, os filhos em crise, a esposa em campanha paralela, e o próprio cárcere como o único palco que lhe resta. Escreveu uma carta para dizer ao Brasil que Flávio é seu candidato, mas não conseguiu dizer à própria esposa que ia escrever. O quartel virou motim. A família virou foice. E o vídeo, se existe, é a guilhotina.
Dois perfis, uma escolha
A pergunta, então, se impõe com o peso de uma bigorna. Como é que um brasileiro em sã consciência pode defender e apoiar um cara desses? Um homem indiciado pela CPMI do INSS por vínculo com operador de esquema que roubou aposentados. Um homem que pediu dinheiro a um banqueiro corrupto em áudio. Um homem fotografado ao lado do chefe da milícia desse banqueiro. Um homem cujo iCloud do miliciano está sendo vasculhado pela PF e cujo partido está em pânico com o que pode sair de lá. Um homem que 51% dos brasileiros consideram responsável por um tarifaço estrangeiro contra o próprio país. Um homem que um ministro da República chama de vassalo e traidor da pátria. Um homem sobre quem paira o rumor persistente e reiterado de um vídeo de orgia. Um homem que um ex-coordenador de campanha de seu próprio pai pede para fazer exame toxicológico de fio de cabelo e decreta falta de autoridade moral para falar de corrupção, propina e valores familiares. Um homem cuja madrasta articula com pastores uma candidatura alternativa porque sabe que o enteado pode desabar a qualquer momento. Um homem cujo pai, da prisão domiciliar, escreve carta à mão para impô-lo como candidato e nem avisa a esposa.
Não é uma pergunta retórica. É uma pergunta que precisa ser feita, alto e bom som, porque faltam menos de 90 dias para a eleição e o país precisa saber exatamente quem está em disputa.
De um lado, um presidente que acabou com a máfia do INSS, devolveu R$ 2,8 bilhões a aposentados, sancionou a lei que proíbe descontos indevidos, defendeu o Pix como patrimônio do povo, acionou a Lei de Reciprocidade contra o tarifaço, destruiu o desemprego, criou milhões de postos de trabalho com carteira assinada, cresceu a renda do trabalho, o salário médio, tirou o país do mapa da fome da ONU, elevou o IDH ao patamar mais alto da história, reduziu em número recorde o indicador internacional de desigualdade social, fez o PIB crescer, livrou os pobres do Imposto de Renda ao mesmo tempo em que fez os ricos pagá-lo, e cresce nas urnas a cada pesquisa.
Do outro, um senador indiciado, fotografado com sicário, com áudio pedindo dinheiro a banqueiro corrupto, com iCloud sendo vasculhado, com rumor de vídeo de bacanal, com ex-aliado pedindo exame de cabelo para atestar uso de drogas, com 51% do país culpando-o por tarifaço estrangeiro, com madrasta articulando substituição, com pai na prisão escrevendo carta que não chega à esposa, e com 57% de rejeição, a maior entre todos os presidenciáveis.
A resposta à pergunta não virá deste texto. Virá das urnas. Mas antes das urnas, virá do iCloud. E talvez do vídeo. E o iCloud, ao contrário de Flávio Bolsonaro, não mente. O vídeo, se existe, não pede autorização. E a verdade, quando vem, não manda carta.





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