Um leão contra o MST; um gatinho com o PCC

Justiça arquivo processo contra militante a abre contra polícia de Caiado

Por Redação com Brasil de Fato
Caiado MST PCC
Caiado pousando de candidato a presidente e policiais militares impedindo acesso de manifestante a protesto do MST na Usina Santa Helena, em Santa Helena de Goiás (GO). Fotos: Reprodução Redes Sociais e inquérito policial

A Justiça de Goiás arquivou os processos contra o militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) Leandro Costa e o vereador de Goiânia Fabrício Rosa (PT), presos durante um protesto na Usina Santa Helena. Enquanto isso, a conduta dos policiais militares que efetuaram as prisões virou alvo de investigação — tanto na Corregedoria da PMGO quanto no Ministério Público estadual.

O desfecho é uma derrota para o ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), que construiu sua carreira política em cima de um discurso de “tolerância zero” contra movimentos sociais e de uso da polícia como braço de repressão política. Acontece que, quando a poeira baixa, quem fica no prejuízo não é o manifestante — é o governo que mandou prender.

A prisão que nunca devia ter existido

O caso começou em abril, quando policiais militares prenderam o vereador Fabrício Rosa (PT) e o militante Leandro Costa durante um ato em memória aos 21 trabalhadores rurais mortos no Massacre de Eldorado dos Carajás. Sim, a polícia de Caiado prendeu participantes de um ato em homenagem a vítimas da violência no campo — a ironia é tão densa que parece de propósito.

O Ministério Público de Goiás (MPGO) já havia considerado, em parecer anterior, que as prisões não tinham “fundamento legal”. A Justiça, agora, confirmou o óbvio: arquivou os processos. E a Corregedoria da PMGO abriu “procedimento apuratório” para investigar a conduta dos agentes que efetuaram as prisões. O MPGO também instaurou investigação própria.

A PMGO confirmou, em nota, que as denúncias “passam por um procedimento apuratório instaurado na corporação” e que o caso está “em fase de análise pela autoridade competente”. Não informou se os agentes foram afastados. E, cá pra nós, não vai dar em nada mesmo.

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Caiado: o xerife que não prende bandido, prende vereador

Enquanto governador, Ronaldo Caiado construiu a imagem de “xerife” de Goiás com base em promessas de segurança pública implacável. Na prática, sua gestão acumula um currículo de violência policial, perseguição a movimentos sociais e truculência institucionalizada.

Em 2024, a Folha de S.Paulo já noticiava que a gestão Caiado acumulava “alta de letalidade policial e polêmicas na segurança”. Em 2025, o Intercept Brasil publicou a reportagem “Quem vai parar a polícia de Ronaldo Caiado em Goiás?”, detalhando dezenas de casos de abuso policial. Em 2023, a Agência Pública revelou uma trama de oito assassinatos e torturas que assombra a política em Goiás — com dez policiais militares presos.

Caiado também é conhecido por associar o MST ao tráfico de drogas, criminalizar a luta pela terra e classificar qualquer forma de protesto como “baderna”. Durante a CPI do MST, chamou a atenção ao gerar confusão ao fazer acusações sem provas contra o movimento. O problema é que, quando a Justiça analisa os casos concretos, quem sai perdendo é ele.

O problema é que…

Não é só na ponta do fuzil que a gestão Caiado se revela. Enquanto o governador posa de xerife nacional contra o crime organizado, o dinheiro do Estado de Goiás irrigava os cofres do PCC. O governo Caiado utilizou a fintech BK Instituição de Pagamento, a BK Bank — investigada na Operação Carbono Oculto e apontada como banco paralelo do Primeiro Comando da Capital — para movimentar nada menos que R$ 1,36 bilhão em programas de transferência de renda entre outubro de 2021 e agosto de 2025.

O documento do Coaf anexado à investigação da Operação Carbono Oculto da PF detalha que a Agência de Fomento de Goiás repassava os recursos à fintech, que os creditava nos cartões de 880 mil beneficiários — cobrando uma taxa de até 6% dos comerciantes credenciados. Segundo a Receita Federal, a BK movimentou R$ 17,7 bilhões em entradas atípicas com alto risco de lavagem de dinheiro, usando contas-bolsões que dificultam o rastreamento. O mesmo governador que chama MST de “organização criminosa” e prende vereador de oposição usou, durante dois mandatos, uma empresa que operava como banco paralelo da maior facção do país. O senhor da lei alimentava o crime organizado.

E não para por aí. O governo que falava em segurança pública tinha como garoto propaganda um PM que matou o inimigo número 1 do PCC e foi promovido por Caiado como prêmio. O coronel Edson Luis Souza Melo Rocha, o Edson Raiado, homem de confiança do governador, invadiu uma chácara em Goiânia em fevereiro de 2023 e executou com 12 tiros — dos 15 disparados — o piloto Felipe, delator do PCC que colaborava com a Polícia Federal. Junto com ele, matou o mecânico Paulo Ricardo e o gerente Nathan Moreira, ambos sem qualquer envolvimento com o crime. O inquérito foi arquivado pela Polícia Civil e depois reaberto pelo Ministério Público após novo laudo mostrar que não havia pólvora no corpo do delator — ou seja, ele não reagiu.

Mesmo assim, Edson Raiado foi promovido a coronel em julho do ano seguinte. O mesmo Edson Raiado que gravou vídeo oficial com música eletrônica se gabando da morte, que lançou livro dedicado a Caiado com um capítulo inteiro sobre o governador, que fez segurança de Pablo Marçal e que comandava o Batalhão Rodoviário cantando com os soldados: “Matar o bandido, acender uma vela, botar ele na mala, eu vou pra estrada velha”.

O fascismo caipira de Caiado não é só a polícia que prende manifestante sem fundamento legal, como vimos no caso do vereador Fabrício Rosa e do militante Leandro Costa. É o mesmo governo que moveu R$ 1,36 bilhão pelas mãos de uma fintech do PCC, que promoveu um policial que executou um delator da PF a tiros e que faz discurso de “tolerância zero” enquanto financiava o crime organizado com dinheiro público.

Caiado não é um xerife. É um operador de palanque que construiu a imagem de law and order em cima de um Estado que matou 3.138 pessoas em seis anos, escondeu a relação com o PCC e premiou a execução extrajudicial. O governador que quer ser presidente não tem um plano de segurança — tem um currículo de sangue e conivência. E, quanto mais se investiga, mais o “fascismo caipira” se revela pelo que sempre foi: uma fábrica de violência estatal a serviço de quem? Do combate ao crime? Não. Dos próprios criminosos que ele diz combater.

 

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O ex-governador de Goiás, candidato suplente da extrema direita a presidente, agora coleciona mais uma página no currículo. Uma página que começa com “prisão ilegal” e termina com “PM investigada”. No meio, o que fica é a certeza de que, em Goiás, a lei serve para oprimir os de baixo. E que, de vez em quando, a Justiça lembra que ela também serve para proteger.

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