O cerco às casas de apostas esportivas no Brasil se apertou de uma só vez nesta semana. De um lado, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), ligada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, abriu investigação contra a CazéTV por irregularidades na publicidade de bets durante as transmissões da Copa do Mundo. Do outro, a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) acionou o Ministério Público Federal (MPF) para proibir que comentaristas esportivos vendam apostas ao vivo durante as partidas.
A coincidência de ações não é obra do acaso. A farra das bets tomou proporções tais que o próprio Estado começou a sentir o cheiro de queimado. A Senacon quer saber se os anúncios veiculados pelo canal de Casimiro Miguel cumprem as regras de publicidade responsável, que exigem transparência sobre os riscos das apostas e proíbem mensagens que prometam ganhos fáceis ou minimizem os perigos do jogo.
“É o que faz girar o negócio”, admite Casimiro
A CazéTV tem exibido uma enxurrada de propagandas de casas como KTO, Bet365 e BetNacional, com direito a divulgação de odds e palpites durante as transmissões. A frequência dos anúncios gerou revolta entre os telespectadores, especialmente durante a partida contra a Escócia, quando a entrada de Neymar em campo foi interrompida por uma propaganda da Coca-Cola que dividiu a tela e cortou o áudio do estádio.
Procurada, a CazéTV afirmou que “adota os mesmos padrões praticados pelos demais veículos que realizam transmissões esportivas no país” e que trabalha “exclusivamente com operadoras regularizadas pelo Ministério da Fazenda, em conformidade com a Lei 14.790/2023”. Mas quem acompanha o canal sabe que a dependência é escancarada. Em um vídeo que voltou a circular, o próprio Casimiro admitiu: “É fato, né? Não tem muito o que fazer, é o que faz girar o negócio. Se não existissem as bets, teria que arrumar dinheiro de outro lugar.” E completou, desafiando as críticas: “Prejudicou o quê? A galera pode se incomodar de ver na tela, mas prejudicar o quê?”
Erika Hilton: “Que por mim sequer existiria”
Enquanto Casimiro relativiza o estrago, Erika Hilton foi direto ao ponto. A deputada acionou o MPF com um pedido objetivo: proibir imediatamente a publicidade de bets e odds por comentaristas esportivos durante transmissões.
“É inaceitável um comentarista usar a sua posição de ‘especialista’ pra induzir os telespectadores a apostarem. Mais inaceitável ainda é eles sugerirem apostas em resultados improváveis como uma forma de ganhar dinheiro fácil, dando a entender que o resultado é provável. Isso ultrapassa todos os limites”, afirmou a parlamentar.
A deputada também criticou a falta de regras claras para o setor.
“Toda forma de publicidade precisa ser devidamente sinalizada, e a publicidade de bets, que por mim sequer existiria, precisa obedecer a regras específicas e precisa do mínimo de decência.”
O futebol como vitrine de cassino
O cenário é preocupante. As bets tomaram conta do futebol brasileiro — estampam camisas, patrocinam clubes, invadem transmissões e, agora, sequestram a credibilidade de comentaristas que deveriam estar ali para analisar o jogo, não para empurrar odds. Enquanto o capital transforma o esporte em cassino, a CazéTV tenta se justificar com a Lei 14.790/2023 e Erika Hilton lembra que o futebol ainda pode ser dos torcedores — e não dos bookmakers.
Cabe agora à Senacon e ao MPF fazerem o seu trabalho. Se as bets realmente cumprem a lei ou se a farra só está começando, o resultado das investigações dirá.




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