A governadora ultrabolsonarista do Distrito Federal, Celina Leão (PP), tem tudo que um político do centrão poderia sonhar numa disputa eleitoral: a máquina pública na mão e uma unidade federativa majoritariamente conservadora — que deu vitórias folgadas a Jair Bolsonaro tanto em 2018 quanto em 2022. O problema é que, com tantos trunfos, ela ainda não consegue virar o jogo.
Pesquisa Paraná Pesquisas divulgada nesta segunda-feira (20) mostra que Celina lidera a corrida pelo Palácio do Buriti com 34,6% das intenções de voto no cenário estimulado, contra 28,1% do ex-governador José Roberto Arruda (PSD), também direitista. A vantagem de 6,5 pontos está dentro da margem de erro? Está fora. Mas o número que realmente importa está em outro lugar.
O cenário sem muleta
Quando se tira Arruda da disputa, Celina sobe para 45,9%. A primeira impressão é que o número é bom. A segunda é que não é. Os votos de Arruda não migram todos para ela. Se distribuem entre os demais candidatos. Faltam 4,1 pontos para evitar o segundo turno. E num eventual confronto direto, com a oposição unificada em torno de um único nome, a soma dos votos de Leandro Grass (16,3%), Paula Belmonte (7,2%), Ricardo Cappelli (5,7%) e Kiko Caputo (2,6%) forma um bloco anti-Celina que, somado aos 14,9% de brancos e nulos, a enterraria sem dó.
Ou seja: Celina depende de Arruda para existir como alternativa. Sem ele, ela até lidera — mas perde no segundo turno para qualquer um. Com ele, ela vai pro segundo turno e perde do mesmo jeito, só que dele.
A máquina que não entrega
O dado mais devastador está na pesquisa espontânea, quando nenhum nome é apresentado: 66,7% dos eleitores do DF não sabem ou não quiseram responder em quem votariam. Entre os que lembram de alguém, Celina aparece com apenas 12,3%. Isto é: mesmo depois de meses como governadora, ocupando o palácio, dando entrevistas, distribuindo obras e cargos, a imensa maioria da população simplesmente não associa o nome dela ao voto que quer dar em outubro.
A aprovação de 58,3% da gestão, nesse contexto, é um número enganoso. O eleitor pode achar o governo “bom” ou “ótimo” (37,1% somados), mas isso não se traduz em voto. É a velha sina do candidato a governador que herda o cargo de um antecessor corrupto: o eleitor até aprova o governo, mas não vota no governante.
O elefante na sala
Celina Leão foi vice de Ibaneis Rocha, o homem que governou o DF para Jair Bolsonaro, que comandou a máquina durante a pandemia e que saiu do cargo sob acusações graves de corrupção no escandaloso socorro do BRB ao Banco Master, que quebrou não só o banco, mas o tesouro distrital e o futuro da cidade pelos próximos 15 anos.
Ela não só fez parte desse governo como o defendeu publicamente em cada crise. Rompeu depois que tudo, o banco, a vaca, os bois, o rebanho inteiro, já tinha ido para o brejo.
Agora, colhe os frutos: uma base bolsonarista que se divide entre ela e Arruda, uma rejeição de 26,3% — praticamente igual à do ex-governador adversário — e uma liderança que só existe enquanto o “Plano A” da direita local continuar sendo o ex-governador condenado.
Se a direita se unir em torno de Celina, ela pode ir ao segundo turno. Se a esquerda se unir em torno de qualquer nome viável, ela perde. E se Arruda resolver que o candidato é ele, a governadora vira coadjuvante na própria sucessão.
A máquina está na mão. O DF é bolsonarista. O governo tem aprovação. E mesmo assim, Celina Leão não deslancha. Não é falta de estrutura. É falta de voto.





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