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Augusto Cury
Cury e o "irmão" Pablo Marçal. Foto: Reprodução Redes Sociais
BRASIL

Crescimento de Cury pode dar vitória no 1º turno a Lula

Com apoio de Marçal, escritor fragmenta a direita

O avanço de Augusto Cury nas pesquisas eleitorais pode ter um efeito direto sobre a disputa presidencial de 2026 e, caso se consolide entre eleitores mais alinhados à direita, favorecer Lula na tentativa de liquidar a eleição já no primeiro turno. A avaliação foi feita pela jornalista Daniela Lima durante o programa TMC 360, nesta segunda-feira (31).

O escritor de livros de autoajuda e empresário saltou de 2% para 11% nas intenções de voto para presidente na comparação entre 24 e 31 de agosto, segundo pesquisa BTG/Nexus. Lula oscilou de 41% para 39%, e Flávio Bolsonaro caiu de 37% para 33%. Na pesquisa espontânea, Cury foi de menos de 1% para 8%, enquanto Lula oscilou de 38% para 37% e Flávio, de 31% para 30%. A margem é de dois pontos.

A enchente digital que ninguém explica

O crescimento de Cury foi acompanhado por uma forte expansão de conteúdos sobre o candidato nas redes sociais. Vídeos sobre ele inundaram as plataformas e aplicativos de mensagens nos últimos dias, com o mesmo estilo e linguagem daqueles produzidos por seguidores de Pablo Marçal. Isso levantou suspeitas entre os adversários de atuação não orgânica, remunerada e ilegal para inflá-lo no primeiro turno e, se não passar adiante, transferir os votos no segundo, através de declaração de apoio, para Flávio.

Daniela Lima afirmou que a origem dessa movimentação deve ser apurada pelas autoridades, diante das regras que disciplinam a propaganda eleitoral no ambiente digital. “Há um estirão de Augusto Cury nas pesquisas, algo que vinha sendo apontado desde o fim da semana passada. Quem está nos ouvindo já deve ter percebido que começou a ser inundado por notícias, informações e números de Cury. Isso será objeto de apuração. Existem regras para se fazer campanha no ambiente digital”, afirmou. “É preciso assegurar alguma paridade de armas entre os candidatos. É proibido fazer impulsionamento de conteúdo, por exemplo. Precisa entender como se deu essa enchente de informações sobre o candidato Augusto Cury”, disse.

O ‘meu irmão’ de Marçal

O principal efeito político apontado está na transferência de votos dentro do campo da direita. Na pesquisa BTG/Nexus, Cury saltou de 2% para 11%, enquanto Flávio caiu de 37% para 33%. Para Daniela, o movimento pode ser decisivo em uma eleição marcada pela pequena diferença entre os principais candidatos. “O que temos na BTG é uma queda de Flávio de 4 pontos percentuais. Sai de 37% para 33% e o Cury avança 9 pontos percentuais, à frente de candidatos que realmente fazem campanha no ambiente digital, caso do Renan Santos”, afirmou.

Cury conta com a ajuda do ex-coach Pablo Marçal, que já declarou apoio num vídeo compartilhado pelo candidato. “Quero deixar um abraço para um candidato a Presidente do Brasil. O nome dele é Augusto Cury. Ele é o mais rico de todos, 242 milhões. Ele não tem um motivo de ter o pescoço aqui. Ele está vindo pelo coração também. Augusto, você falou que era a única vez que você ia disputar. Meu irmão, continua firme na política”, disse Marçal. “Um dos maiores psiquiatras do mundo. E eu quero que você conte comigo, inclusive na sua candidatura, tá? Eu te acho um homem nobre. Não tem gente nobre na política. Para mim, você é o candidato mais nobre de todos. Eu gasto meu último minuto reverenciando você como um dos maiores brasileiros que já existiram, tá bom? Só para você saber: eu, Pablo, olhando para o cenário, para mim você é o cara ideal. Não desista se você não conseguir ir para o segundo turno.”

Deixando claro: essas palavras são de Pablo Marçal, que é um pulha, embusteiro e inelegível.

O voto que é mais bolsonarista que lulista

O perfil do eleitorado de Cury dá pistas sobre o crescimento. Dados da BTG/Nexus apontam que ele tem 22% dos votos na faixa entre 16 e 24 anos, aquela em que estão muitos dos seguidores de Marçal. Renan Santos (Missão), que vinha pontuando bem nesse grupo e havia marcado 10% na semana passada, passou para 7%. Já entre quem tem 60 anos ou mais, Cury marca 4%. Ele alcança 17% entre quem tem ensino superior e apenas 3% junto a quem possui apenas o fundamental.

O voto de Cury é um pouco mais bolsonarista que lulista, tendo 7% dos que votaram em Lula em 2022 e 13% dos que foram com Jair Bolsonaro. Entre o eleitorado que se diz anti-Lula e anti-Bolsonaro, Cury tem 19%. Caso os números se confirmem, o posto de novidade da eleição vai passar de Renan para Cury, mostrando que não importa a falta de propostas e de conhecimento sobre a realidade do país. O que faz a diferença é a capacidade de ocupar as telas e a atenção.

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A ‘revolução silenciosa’ sem robôs

Cury negou ter usado robôs ou contratado influenciadores para aumentar sua presença nas redes sociais. Durante agenda no Sebrae, em Curitiba, disse que recebeu o resultado com alegria, mas afirmou estar “preocupado com o Brasil em 2027”. “O problema não é perder a Presidência da República, o problema é ganhar a Presidência e pacificar esta nação”, declarou. “Eu não estou atrás de poder. Não é cargo. As pessoas perguntam se estou eufórico. Não, eu estou alegre, mas preocupado, precisamos pensar no Brasil em 2027”, disse.

Questionado sobre acusações de partidos que apontam um crescimento artificial de sua candidatura, Cury respondeu: “Eles que investiguem”. Ele negou o uso de robôs e contratos com influenciadores, afirmando que a campanha investiu cerca de R$ 50 mil nas redes sociais. “Não tem história de robô. Na verdade, são milhões de pessoas que acreditam na pacificação e estão cansadas desta polarização insana”, afirmou. Cury atribuiu o aumento de sua visibilidade digital ao primeiro debate presidencial: “O que aconteceu foi uma revolução totalmente silenciosa a partir do primeiro debate”.

A escala de voo bolsonarista

A aposta de Marçal é transformar o escritor em escala de voo antes de chegar ao destino final bolsonarista. Mas convém lembrar que eleitor não é encomenda com endereço de entrega. Uma coisa é a intenção, outra é o resultado. E a campanha do escritor precisa tomar cuidado para não ter o mesmo fim que o ex-coach, declarado inelegível pela Justiça Eleitoral por abusar do poder econômico na produção dos vídeos que o catapultaram nas redes sociais.

Se Cury continuar crescendo sem retirar votos de Lula, mas principalmente de candidatos de direita como Flávio Bolsonaro, sua candidatura poderá fragmentar o eleitorado oposicionista e aumentar as chances de Lula alcançar maioria suficiente para evitar o segundo turno. “Se não conseguir enxugar votos de Lula no primeiro turno, Augusto Cury poderia acabar favorecendo uma estratégia do presidente Lula de liquidar a fatura no primeiro turno”, afirmou Daniela Lima. A ironia é completa: o candidato que nega robôs, fala em “revolução silenciosa” e se diz cansado da polarização pode ser justamente o empurrão que faltava para Lula vencer de primeira. A direita, que apostou na fragmentação, pode acabar colhendo o próprio gol contra.

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