A área da Amazônia sob alertas de desmatamento caiu 36,87% entre agosto de 2025 e julho de 2026, para 2.874,38 km², segundo dados divulgados na sexta-feira (7) pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). É o menor nível da série histórica do Deter, iniciada em 2016, e representa uma redução de 55,6% em relação à média dos dez ciclos anteriores.
O resultado foi apresentado durante visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Inpe, em São José dos Campos (SP), ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin e dos ministros João Paulo Capobianco, do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e Luciana Santos, da Ciência, Tecnologia e Inovação.
“Foi um compromisso desaforado nosso que poderemos chegar a desmatamento zero até 2030”, afirmou Lula durante o evento.
Os números reforçam a reversão da trajetória de avanço do desmatamento observada nos anos anteriores e dão respaldo às políticas de fiscalização, monitoramento por satélite e proteção ambiental retomadas pelo governo federal.
O que significa “passar a boiada”
Para entender a dimensão desse resultado, é preciso lembrar o que veio antes. Em 2020, no auge do desgoverno Bolsonaro, o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi flagrado em reunião ministerial defendendo que o governo aproveitasse “a oportunidade” da atenção da imprensa voltada para a pandemia de covid-19 para “passar a boiada” — ou seja, aprovar o afrouxamento das regras ambientais por baixo dos panos, sem que a sociedade se desse conta.
“Passar a boiada” virou expressão nacional para descrever a estratégia de desregulamentação ambiental: afrouxar a fiscalização, desmontar os órgãos de controle, liberar o desmate e a grilagem enquanto o país olhava para outro lado. Era a política oficial do governo anterior, que chegou a descontinuar o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), criado em 2004, e esvaziou o Ibama e o ICMBio.
O resultado dessa boiada foi previsível: a taxa anual de desmatamento da Amazônia, medida pelo Prodes, disparou para cerca de 13 mil km² em 2021, o maior nível em mais de uma década. A floresta ardia, os povos indígenas eram invadidos, e o ministro da boiada pedia para “passar” por cima de tudo.
A virada que o governo Lula promoveu
O contraste com o governo atual não poderia ser maior. Com a retomada do PPCDAm, o fortalecimento da fiscalização e o uso de embargos remotos — imagens de satélite para identificar áreas com indícios de infração sem vistoria presencial inicial —, a taxa anual de desmatamento caiu de cerca de 13 mil km² em 2021 para 5.700 km² em 2025.
No Cerrado, os alertas recuaram 7,8%, para 5.119,46 km², o menor resultado dos últimos cinco anos. Na Caatinga, a área desmatada caiu 34,3%; na Mata Atlântica, 15,32%; e no Pampa, 41,7%. Mata Atlântica e Pampa registraram os menores resultados de suas respectivas séries históricas.
A redução dos alertas ocorre paralelamente à ampliação de instrumentos financeiros para conservação e recuperação ambiental. Entre as iniciativas estão R$ 834 milhões do Fundo Clima para restauração de vegetação nativa, R$ 270 milhões em doações britânicas ao Fundo Amazônia e R$ 370 milhões para o programa ARPA Comunidades.
O desafio da tendência duradoura
Lula tem procurado transformar os números de monitoramento ambiental em argumento diplomático, especialmente diante das críticas e das tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil. A divulgação dos dados no Inpe ocorreu justamente em meio à disputa comercial com Washington.
O desafio agora é transformar a queda dos alertas em tendência duradoura. O Greenpeace alertou para o risco de condições climáticas adversas, como um possível El Niño mais intenso, aumentarem a ocorrência de secas e incêndios. Ainda assim, o dado central do ciclo 2025-2026 é inequívoco: a Amazônia registrou o menor volume de alertas desde o início da série do Deter.
Enquanto o ministro da boiada queria passar por cima da floresta, o governo Lula escolheu proteger o que é de todos. O desmatamento despencou, a fiscalização voltou e a meta de desmatamento zero até 2030 deixou de ser promessa para virar compromisso com números. A boiada, dessa vez, não passou.
