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Blogueiro, propina e morto no Palácio dos Leões

Fenaj pede ao STF volta do diploma de jornalismo

diploma jornalista Dino
Gilbson Cutrim, acusado de assassinato, afirma que levava propina dentro do Palácio dos Leões, sede do Governo do Maranhão. Foto: Reprodução Redes Sociais

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) pediu nesta terça-feira (18) que o Supremo Tribunal Federal (STF) reavalie a decisão de 2009 que derrubou a exigência de diploma de jornalismo para o exercício da profissão. O pedido vem no mesmo dia em que os ministros Flávio Dino e Alexandre de Moraes defenderam a rediscussão do tema durante sessão da Primeira Turma. Dino disse que a decisão “envelheceu mal”. Moraes completou: “Hoje, com as redes sociais, qualquer pessoa acorda e diz a partir de hoje eu sou jornalista e começa a ofender a honra de inúmeras pessoas e se escudar da liberdade de imprensa”.

O que ninguém explica é por que o debate ressurge agora. Resurge porque Flávio Dino está no centro de uma tempestade no Maranhão. E a tempestade tem nome, morto e propina.

O esquema que pariu o debate

O governador do Maranhão, Carlos Brandão (MDB), é investigado pela Polícia Federal (PF) como suposto líder de organização criminosa. O sobrinho dele, Daniel Brandão, presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MA), foi afastado cautelarmente por Dino nesta segunda-feira (17). O caso nasceu do assassinato do empresário João Bosco Sobrinho Pereira, morto a tiros em agosto de 2022 no edifício Tech Office, em São Luís.

O condenado pelo crime, Gilbson Cutrim, disse em depoimento à PF que se reunia com o governador e levava propina “dentro do Palácio dos Leões”, sede do governo maranhense. Disse que Daniel Brandão articulou a reunião que terminou no homicídio. Disse que a família Brandão financiou despesas jurídicas para mantê-lo em silêncio. A PF apura se o assassinato ocorreu no contexto de disputa sobre R$ 778 mil pagos a uma empresa de vigilância. Tudo sob investigação. Mas o lamaçal é monumental.

O blogueiro e a fonte quebrada

No meio disso tudo, um blogueiro maranhense chamado Luís Pablo publicou denúncias sobre o suposto uso irregular de veículos oficiais por Flávio Dino. Moraes autorizou a quebra de sigilo do jornalista e a identificação de sua fonte. A fonte era Raimundo Cutrim, ex-secretário de Segurança Pública do Maranhão, subalterno, portanto, do governador Carlos Brandão, que teria rastreado Dino e sua família em São Luís. Moraes disse que a segurança de Dino foi colocada “em risco real por uma organização criminosa”.

A Fenaj e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) manifestaram preocupação com a decisão. É a primeira vez em anos que o STF autoriza a identificação de fonte jornalística. E foi nesse contexto que Dino e Moraes resolveram defender a rediscussão do diploma. Coincidência? Não. Consequência.

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A Globo dos Sarney

O diretor da TV Mirante, afiliada da Globo no Maranhão pertencente à família Sarney, aliado de Brandão, atacou Dino ao comentar o caso. Alex Barbosa resgatou reportagens de 2016 sobre o “Aluguel Camarada”, episódio que denunciou suposto mau uso de recursos públicos no governo Dino. Disse: “Se o sigilo da fonte do jornalista não tivesse garantia constitucional, denúncias como essa seriam inviáveis”. Dino construiu sua carreira política em oposição ao grupo Sarney. A vitória sobre o candidato apoiado pela família, em 2014, marcou o fim de décadas de predominância sarneyista no estado. Agora, a afiliada da Globo ataca Dino.

O que está em jogo

A presidente da Fenaj, Samira de Castro, disse: “Nunca uma decisão envelheceu tão mal quanto a que aboliu a exigência de diploma para jornalistas”. Tem razão. O jornalismo profissional precisa de formação, ética e responsabilidade. Dino e Moraes defendem a rediscussão do diploma, mas o debate não envolve de jeito nenhum a proteção ao sigilo da fonte.

A fonte, esclareça-se, no caso era uma autoridade do governo que usou os meios do Estado para bisbilhotar ilegalmente um adversário político e municiar um blogueiro suspeito de ter recebido dinheiro para publicar as informações. Ou seja, não se trata de jornalismo profissional, nem de uma fonte insuspeita. É crime por cima de crime. A liberdade de imprensa e o sigilo da fonte resguardados pela Constituição não foram criados pra isso.

A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 206/2012, conhecida como PEC do Diploma, está parada há mais de uma década na Câmara dos Deputados. Aprovada pelo Senado em 2012, nunca foi votada no plenário.

O caso do Maranhão é grave. Propina, assassinato, organização criminosa, governador investigado, sobrinho afastado. Rediscutir diploma no meio da crise é cortina de fumaça. A Fenaj tem razão no mérito. Dino e Moraes também, mas chegam atrasados nesse samba.

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