O ex-deputado federal e ex-ministro da Justiça Osmar Serraglio (PP-PR), um dos nomes fortes do bolsonarismo paranaense e antigo paladino da moralidade pública, resolveu aplicar na prática o conceito de “autossuficiência” financeira. Uma emenda Pix de quase R$ 6,5 milhões indicada por ele acabou parando diretamente nos cofres de uma construtora da qual ele mesmo é sócio junto com os irmãos. O repasse milionário foi feito pela União à Prefeitura de Francisco Beltrão, no Paraná, que utilizou o dinheiro para pagar a Construtora Sudoeste.
O paladino da moralidade com CNPJ próprio
A história ganha contornos de piada pronta quando se analisa o currículo de Serraglio. O ex-deputado foi relator da famosa Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Correios em 2006.
Não satisfeito em posar como o xerife da ética alheia, Serraglio também integrou o Capítulo Brasileiro da Organização Mundial de Parlamentares contra a Corrupção (GOPAC). No entanto, combater o desvio de dinheiro público parece ser uma atividade muito mais charmosa quando não envolve os negócios da própria família.
Em 2017, no rastro do golpe parlamentar contra a presidenta Dilma Rousseff, Serraglio foi agraciado por Michel Temer (MDB) com o cargo de ministro da Justiça e Segurança Pública. Embora sua passagem pela pasta tenha sido curta, seu compromisso com a “justiça” privada parece ter vida longa.
Registros da Receita Federal confirmam que a Construtora Sudoeste pertence a ele e aos seus irmãos, Odarci Antônio Serraglio e Odair Serraglio. Ele chegou a declarar a participação na firma à Justiça Eleitoral em 2018, provando que o conflito de interesses nunca foi um segredo, mas sim um modelo de negócios.
O milagre da emenda sem burocracia
A transferência milionária ocorreu por meio das famosas emendas Pix, criadas para facilitar o repasse de recursos federais sem a “chatice” da fiscalização rígida. Os pagamentos da prefeitura à construtora familiar ocorreram entre setembro de 2023 e novembro de 2025 para pagar aditivos de contrato na construção do Hospital Geral Intermunicipal. No total, somando os rendimentos financeiros, a brincadeira custou mais de R$ 7 milhões aos cofres públicos.

Nota de empenho dos recursos em favor da construtora de Serraglio.
Enquanto o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, tenta colocar ordem na casa exigindo transparência para essas emendas, os herdeiros do “moralismo” bolsonarista continuam mostrando como o orçamento público pode ser um excelente gerador de receita para empresas familiares.
A prefeitura local informou que está à inteira disposição do Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) para colaborar com as investigações, mas o estrago ético já está devidamente faturado e liquidado na conta bancária dos Serraglio.




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