O ‘modelo’ de Flávio: trabalhar 12h para comer de empréstimo

Economista de Flávio avisa que pretende fazer no Brasil o mesmo que Milei fez na Argentina

Por Redação
Flávio Brasil Argentina
Daniela Marques, a coordenadora do capítulo econômico do programa de Flávio Bolsonaro, avisando que fará no Brasil o mesmo que Milei fez na Argentina. Foto: Reprodução Twitter

A coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência, Daniella Marques, chamou o governo de Javier Milei de “ótimo exemplo” e prometeu copiar a receita argentina no Brasil. Pois bem: eis o que esse “ótimo exemplo” fez com os trabalhadores da Argentina. A reforma trabalhista de Milei, que os sindicatos chamam de “Reforma Escravagista”, amplia a jornada para até 12 horas diárias sem pagamento de horas extras, facilita demissões e coloca um cadeado no direito de greve.

O pacote, aprovado pela Câmara dos Deputados em meio a uma greve geral com adesão de 95% dos trabalhadores, representa um retrocesso de um século nas relações de trabalho. É exatamente esse modelo que a equipe econômica de Flávio quer importar para o Brasil.

Jornada de 12 horas e rescisão parcelada

A rotina do trabalhador argentino muda da contratação ao desligamento. O período de experiência, que era a porta de entrada, saltou para até oito ou doze meses dependendo do tamanho da empresa, com demissão sem custo durante esse período. Quando o funcionário efetivo é demitido, a empresa paga uma rescisão menor e pode parcelar o acerto em até seis vezes (grandes empresas) ou doze vezes (pequenas e médias).

A jornada de trabalho pode ser estendida de oito para até doze horas diárias, sem pagamento de horas extras, funcionando na prática como um banco de horas. As férias podem ser fatiadas em períodos curtos de sete dias, rompendo a tradição do descanso concentrado. O governo ainda eliminou as multas por informalidade, regularizando vínculos sem punição ao empregador.

O cadeado no direito de greve

O golpe mais duro é contra a mobilização. Ao classificar setores como saúde, transporte e segurança como “essenciais”, a lei obriga os grevistas a manter entre 50% e 75% dos serviços funcionando — o que, na prática, anula o impacto de qualquer paralisação. Omar Maturano, secretário-geral do sindicato La Fraternidad, classifica a medida como um “cadeado” no direito de protesto e na liberdade de expressão.

O modelo que a extrema direita quer vender

A reforma trabalhista é apenas uma das faces do “ótimo exemplo” que Daniella Marques quer trazer para o Brasil. A Frente Livre já mostrou que, na Argentina de Milei, mais de 20 milhões de pessoas se endividam para comprar comida e pagar aluguel, com taxas de até 1.370% ao ano em carteiras digitais. O trabalhador argentino, além de perder direitos na jornada, na rescisão e na greve, depende do banco para sobreviver.

São as duas pontas da mesma receita: arrocho trabalhista para o capital e endividamento para o trabalhador. O deputado peronista Agustín Rossi, ex-ministro da Defesa, resume o que está em jogo: a reforma não gera empregos — função da política econômica, não da legislação trabalhista — e serve apenas para aumentar a tensão social em um país já castigado pela recessão.

É esse o “ótimo exemplo” que a extrema direita brasileira quer vender. Jornada de 12 horas sem hora extra, rescisão em 12 parcelas, greve com cadeado e um povo que pede empréstimo para comer. A mesma direita que aplaude Milei chama a CLT de “escravidão” no Brasil, mas adora o modelo que, na Argentina, os próprios trabalhadores denunciam como “Reforma Escravagista”. Quem quiser esse exemplo, que o tenha. O trabalhador brasileiro já conhece essa música — e sabe como ela termina.

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