O deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), atual vice na chapa de Flávio Bolsonaro, está sob investigação por estupro de vulnerável e tentativa de ocultar os fatos. Em vez de explicar a acusação, ele respondeu com o que a direita brasileira faz de melhor quando é pega no flagra: inventar uma trama mirabolante, com personagens misteriosos e um álibi forjado às pressas.
A acusação contra Gaspar partiu de uma notícia de fato apresentada à Polícia Federal em 27 de março pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) e pela senadora Soraya Thronicke (PSB-MS). O caso tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro Gilmar Mendes.
A “defesa” de Gaspar veio em abril, quando sua assessora, Marise Pena, procurou a Polícia Legislativa relatando ter recebido uma ligação de um homem identificado como Luiz Antonio Lopes — um tal “tio Luiz” — que afirmou ter informações sobre uma suposta articulação para criar uma falsa história de abuso sexual contra o deputado.
Ressalte-se: a história que se lerá a seguir não tem pé nem cabeça, mas serve ao seu propósito: dar alguma explicação para que o eleitorado da extrema direita possa refutar o fato absurdo de o candidato neofascista ter escolhido para companheiro de chapa um parlamentar investigado por estupro de vulnerável. A extrema direita não precisa da verdade. Ela precisa de um link favorável no Google. É o que se está criando.
O roteiro que não se sustenta
O depoimento de Lopes é um roteiro de novela das oito. Ele afirmou ter conhecido uma jovem chamada Marcela Maria Mendes, que teria sido orientada a assumir a identidade de “Jailma” e sustentar uma história de abuso sexual. Segundo Lopes, a jovem teria sido convencida por um suposto assessor parlamentar chamado Lucas, com ligação com a Prefeitura de Nova Iguaçu, região associada à trajetória política de Lindbergh.
O depoente ainda afirmou que sua conta bancária teria sido usada para receber valores destinados à jovem — R$ 10 mil, R$ 4 mil e R$ 2,5 mil — e que Marcela teria participado de uma reunião por Google Meet na qual Lindbergh estaria presente. Uma história com tantos personagens convenientes e coincidências que chega a ser constrangedora.
Lindbergh rejeitou categoricamente a acusação:
“Isso é uma picaretagem. Desconheço os citados e a suposta investigação da Polícia Legislativa. Não conheço os envolvidos e não participei de reuniões para tratar desse assunto”.
E cobrou investigação sobre o próprio autor das acusações: “A primeira coisa que a Polícia Federal tem que fazer é investigar esse tal ‘tio Luiz’, prender esse cara. Esse depoimento é inventado e é mais uma suspeita em cima do Alfredo Gaspar. Por que esse cara deu esse depoimento à Polícia Legislativa? A pedido de quem?”
A escola do álibi forjado
A estratégia de Gaspar não é novidade na extrema direita. É o mesmo método de Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do partido na Câmara, pego pela Polícia Federal com mais de R$ 430 mil em dinheiro vivo em casa. Para explicar a fortuna, Sóstenes inventou a venda de um imóvel — mas a escritura só foi assinada 11 dias depois da apreensão, numa operação grosseira para “esquentar” dinheiro de origem ilícita.
A farsa de Sóstenes foi desmontada: a casa “vendida” por R$ 500 mil em espécie, com dispensa de certidões e valorização mágica de 78% em menos de um ano, era parte de um esquema de desvio de verbas da cota parlamentar via contratos fictícios de aluguel de carros. O “rei do aluguel” ainda tentou explicar um motorista que recebia R$ 4 mil e movimentava R$ 11 milhões dizendo que ele era “empresário de sucesso” que dirigia por hobby.
A direita tem um manual: quando é pega, inventa um álibi. Sóstenes forjou a venda de um imóvel. Gaspar inventa um “tio Luiz” e uma jovem fantasma. O que muda é o roteiro. O método é o mesmo — e cada vez mais grosseiro.





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