O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu começar sua campanha à reeleição onde tudo começou: São Bernardo do Campo, no ABC paulista, cidade onde um torneiro mecânico pernambucano se transformou em líder sindical no fim dos anos 1970 e, a partir dali, em fundador de partido, três vezes presidente da República e agora candidato a um quarto mandato. O ato está previsto para o dia 16 de agosto, na Vila Euclides, embora a data ainda oscile em razão de uma partida de futebol marcada para o estádio. Ou seja: o calendário da campanha presidencial mais importante de 2026 está subordinado a um jogo de bola.
A decisão marca uma inflexão na estratégia petista. O Partido dos Trabalhadores havia planejado o lançamento da campanha no Ceará, estado governado por aliados, mas optou por transferir o evento para São Paulo. A coordenação de Lula avalia que o maior colégio eleitoral do país terá peso decisivo no resultado de 2026 e que a presença da direita no estado, encarnada no governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), precisa ser combatida desde o primeiro dia de campanha. Melhor tarde do que nunca, poder-se-ia dizer, se a tardança não custasse tão caro.
Berço, memória e cálculo
A escolha de São Bernardo do Campo carrega um peso simbólico que nenhum palanque de Brasília conseguiria sustentar. Foi na Vila Euclides que Lula presidiu assembleias de metalúrgicos nos anos 1980, assembleias que lotavam o estádio em noites de tempestade e votação, quando a categoria decidia parar ou continuar, avançar ou recuar, enfrentar a polícia ou recolher-se. Dali saiu a liderança sindical que se transformaria em projeto político e, em 1980, em partido. A Vila Euclides é o lugar onde o PT foi concebido antes de ser fundado, onde um torneiro mecânico pernambucano se transformou em fenômeno político nacional, não por acidente, mas por mérito de organização, coragem e instinto de classe.
Mas a simbologia não esconde o cálculo, e o cálculo é frio. São Paulo é o estado onde Lula precisa crescer, onde Tarcísio construiu uma base eleitoral sólida com o dinheiro e a máquina de um governador que se comporta como candidato permanente, e onde a direita, organizada e financiada, trata o palanque paulista como trampolim nacional. A campanha petista sabe que sem reduzir a vantagem da direita em São Paulo a reeleição se torna uma equação de risco inaceitável. Por isso o Ceará ficou de lado: não há tempo para palanque de afeto quando o que está em jogo é o maior colégio eleitoral da República.
Tudo converge a São Paulo
A convenção nacional do PT, inicialmente prevista para Brasília, também foi transferida para São Paulo e será realizada no dia 2 de agosto, no Center Norte, onde serão oficializadas as candidaturas de Lula à presidência e do vice-presidente Geraldo Alckmin na chapa. No dia 25 de julho, o presidente deve comparecer à convenção estadual do partido em Campinas, onde serão oficializadas as candidaturas do ex-ministro Fernando Haddad ao governo de São Paulo e do ex-governador Márcio França como vice. A chapa estadual é a aposta para tentar desmontar o edifício tarcisista no estado, tarefa que se afigura monumental diante do controle que o governador exerce sobre a máquina pública e o orçamento.
O lançamento da campanha nas ruas deverá ocorrer um dia depois do início do período autorizado pela legislação eleitoral. As convenções partidárias podem ocorrer antes, mas a campanha só pode começar após 15 de agosto. O PT separou os dois eventos: primeiro a convenção, depois o ato público. A aposta é clara. Lula retorna ao lugar onde tudo começou, não para olhar para trás com nostalgia, mas para tentar reconquistar um estado que a direita transformou em fortaleza. A pergunta que fica, e que nenhum ato simbólico responde sozinho, é se a memória do ABC ainda mobiliza eleitores que, quase cinco décadas depois das greves de 1978, vivem em um país radicalmente diferente daquele em que um torneiro mecânico liderava metalúrgicos contra a ditadura. A memória é argumento, mas não é voto.





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