A Polícia Federal bateu o martelo. Foram 265 páginas de relatório, 48 indiciados, R$ 708 milhões desviados só no núcleo da Confederação Nacional de Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), e uma conclusão cirúrgica que deixa sem argumento quem ainda tentava repartir a culpa ao meio: o esquema de descontos indevidos em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) começou em 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro, foi descoberto, investigado e extinto no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, e o governo Lula já devolveu R$ 2,8 bilhões a 4,2 milhões de aposentados e pensionistas lesados. O inquérito, concluído na sexta-feira (10) e revelado na terça (14), foi encaminhado à Procuradoria-Geral da República, que decidirá se apresenta denúncia à Justiça, pede arquivamento ou solicita novas diligências. O relator, no Supremo Tribunal Federal, é o ministro André Mendonça.
Entre os 48 indiciados, dois nomes pesam como bigorna. O primeiro é José Carlos Oliveira, ex-ministro da Previdência Social no governo Bolsonaro, que também presidiu o INSS. A PF apurou que ele assinou despachos oficiais liberando R$ 15,3 milhões em descontos indevidos para a Conafer e recebeu pelo menos R$ 550 mil em propina para blindar entidades que aplicavam descontos não autorizados nos benefícios do INSS. A lavagem era digna de manual de criminoso de segunda categoria: cheques emitidos por um operador da entidade e convertidos em dinheiro vivo por um comerciante de São Paulo, simulando vendas fictícias de cosméticos e perfumes. O ex-ministro de Bolsonaro lavava propina de aposentado na bodega de perfume.
O segundo é Alessandro Stefanutto, funcionário de carreira e ex-presidente do INSS no governo Lula, acusado de receber propina mensal de R$ 250 mil entre 2023 e 2024. Stefanutto está preso. O presidente da Conafer, Carlos Roberto Ferreira Lopes, está foragido. É aqui que a honestidade jornalística exige precisão: o esquema nasceu sob Bolsonaro, mas sobreviveu aos primeiros dois anos de Lula, até ser descoberto pela Operação Sem Desconto, deflagrada em abril de 2025 pela PF e pela Controladoria-Geral da União (CGU). Dados da própria PF registram que o esquema “permaneceu até 2024”. Quem tentar transformar isso em argumento de defesa de Bolsonaro, porém, esbarra numa muralha de evidência.
A origem bolsonarista
A BBC foi cirúrgica em sua apuração: “O esquema que visava fraudar o INSS foi implementado durante o governo Bolsonaro. A maioria das entidades suspeitas surgiu entre os governos Temer e Bolsonaro.” A Folha de S.Paulo, em 13 de novembro de 2025, já tinha registrado: “PF cita fortes indícios de que esquema do INSS estava em pleno funcionamento na gestão Bolsonaro.” A CGU, em depoimento à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS em setembro de 2025, confirmou: “desde 2019 irregularidades nos descontos associativos.” É público que foi um decreto assinado no governo Bolsonaro que afrouxou as regras para descontos na folha de aposentados. O governo Bolsonaro recebeu alertas de fraude e não fez nada. Pior: nomeou e manteve no cargo o ministro que assinava despachos liberando o desvio e embolsava propina lavada em perfume.
O ministro-chefe da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, declarou em 17 de maio de 2025, em entrevista ao programa A Voz do Brasil:
“Descontos indevidos no INSS começaram entre 2019 e 2022. Fraude foi barrada neste governo.”A frase é curta, mas carrega um século. Começou com Bolsonaro. Foi barrada por Lula. Não há meio-termo.
Lula acabou e devolveu
No dia 7 de janeiro de 2026, Lula sancionou a lei que proíbe descontos associativos em benefícios do INSS, estabelece novo marco de proteção para aposentados e pensionistas e amplia os instrumentos de investigação de fraudes. A lei é o instrumento jurídico que mata o esquema na raiz. Mas antes da lei, já vinha a devolução.
Em dezembro de 2025, a InfoMoney registrou: 3,9 milhões de pessoas já tinham recebido dinheiro de volta, num total de R$ 2,6 bilhões. Em janeiro de 2026, o marco de 4,2 milhões de aposentados e pensionistas ressarcidos, R$ 2,8 bilhões devolvidos, 68% das pessoas que contestaram os descontos indevidos já compensadas com valores corrigidos. O total desviado, segundo a CGU, é de R$ 6,3 bilhões. Mais de 97% dos beneficiários consultados afirmaram não ter autorizado qualquer dedução em seus contracheques.
A devolução não cobre a totalidade do roubo. Cobrirá, se o processo correr até o fim, com o bloqueio de bens e o ressarcimento dos condenados. Mas R$ 2,8 bilhões já voltaram para o bolso de quem foi roubado, e isso não aconteceu por milagre. Aconteceu porque um governo decidiu investigar, descobrir, prender, indiciar e devolver. O governo anterior, que criou as condições para o esquema e nomeou os operadores, não devolveu um real. Não investigou um suspeito. Não prendeu um corrupto. Recebeu os alertas e enfiou no bolso.
A sombra de Flávio
E há mais. A CPMI do INSS, em relatório da maioria governista publicado em 27 de março de 2026, pediu o indiciamento de 170 pessoas, entre elas o ex-presidente golpista Jair Bolsonaro e seu filho neofascista Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à presidência. Flávio foi indiciado pelo vínculo com o “Careca do INSS”, um dos principais operadores do esquema de desvio de recursos de aposentados e pensionistas, e por benefício na compra de uma mansão de quase R$ 6 milhões. Em 7 de julho, a PF deflagrou operação que atingiu o “ninho bolsonarista no Rio”, mirando Márcio Canella, indicado de Flávio Bolsonaro ao Senado, e o ex-secretário de Polícia Civil Marcus Amim. O esquema, que nasceu no governo Bolsonaro, tem raízes que se estendem pelo clã.
O inquérito agora concluído é o primeiro de vários núcleos da Operação Sem Desconto que seguem sendo investigados em procedimentos separados. O relatório de 265 páginas foi entregue ao ministro André Mendonça, do STF, o mesmo André Mendonça nomeado por Bolsonaro, ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, que em 4 de junho dividiu o palco da 34ª Marcha Para Jesus, em São Paulo, com Flávio Bolsonaro. O mesmo Flávio Bolsonaro indiciado pela CPMI do INSS. O mesmo Flávio Bolsonaro cujo pai nomeou o ministro que agora relata o caso. O círculo se fecha sozinho.
A PF bateu o martelo. A máfia do INSS é bolsonarista na origem, no comando, no ministério que liberou os descontos, no operador que lavava propina em perfume, no clã que se beneficiava de mansão e de indicado. Lula acabou com a fraude, sancionou a lei que a mata na raiz e já devolveu R$ 2,8 bilhões a 4,2 milhões de aposentados. Quem tentar inverter essa equação está mentindo. E quem mente sobre roubo de aposentado não merece outro nome senão o que a história reserva para quem rouba de quem já não tem quase nada para dar.






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