O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) negou o aquecimento global e atribuiu a ocorrência de calor, chuvas e secas extremas a “efeitos cíclicos” durante a sabatina do Jornal Nacional nesta sexta-feira (28). Pressionado por Renata Vasconcellos a dizer se reconhecia o aquecimento global, o candidato evitou responder diretamente e afirmou que existem épocas em que “faz mais calor” e outras em que “faz mais frio”.
“Eu acredito que são efeitos cíclicos”, afirmou Flávio ao abordar os eventos climáticos extremos. Renata então perguntou de maneira direta: “O senhor acha que não tem aquecimento global?”. O candidato respondeu que reconhecia a existência de eventos climáticos, mas acrescentou: “Eu não acho que isso tenha a ver diretamente só com a influência do ser humano”.
A proposta bizarra
Questionado por César Tralli sobre como seu plano de governo pretende proteger a população dos efeitos das mudanças climáticas, Flávio colocou o saneamento básico no centro da resposta. Disse que “a melhor forma que nós temos de proteger o meio ambiente é oferecendo saneamento básico para a população” e citou como legado do governo de Jair Bolsonaro a atualização do Marco Legal do Saneamento.
A explicação contraria o conhecimento científico consolidado. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) conclui que é evidente a influência humana no aquecimento da atmosfera, dos oceanos e da superfície terrestre, e que o aumento das concentrações de gases de efeito estufa desde a Revolução Industrial é atribuído inequivocamente às atividades humanas. Variações naturais e fenômenos cíclicos de fato interferem no clima, mas não explicam o aumento de temperatura observado nas últimas décadas. O IPCC também aponta que a mudança climática causada pelo homem já influencia a frequência e a intensidade de diversos extremos de calor, precipitação e seca.
O ‘amadorismo irresponsável’
A postura não passou despercebida. O presidente Lula usou as redes sociais na manhã deste sábado (29) para detonar o negacionismo do principal oponente na corrida presidencial. “Negar o aquecimento global em pleno século XXI e reduzir o combate às mudanças climáticas a saneamento básico dá a dimensão do amadorismo irresponsável de quem se propõe a governar um país. É retrato de gente que vende soluções simples para problemas complexos. É da lavra do povo que nega a importância das vacinas e de gente que anda acompanhado de quem prega o fim do voto feminino. Gente que não ouve a ciência”, escreveu o petista.
Assista o vídeo
🚨 Flávio Bolsonaro nega as mudanças climáticos, afirmando que mundo vive “ciclos” no #JornalNacional pic.twitter.com/b1JQAjcOgj
— deok (@lauricadeok) August 29, 2026
Lula defendeu a agenda ambiental do governo e destacou os números: R$ 23 bilhões em saneamento, R$ 18,6 bilhões em drenagem urbana e contenção de encostas no Novo PAC, R$ 1,3 bilhão em monitoramento climático, R$ 118 bilhões em geração renovável e R$ 107 bilhões em transmissão, além da redução de 50% no desmatamento da Amazônia, 32,5% no Cerrado e 63% no Pantanal, e a criação de 4,4 mil brigadistas federais.
“Enfrentar a crise climática de verdade exige muito mais. Demanda compromisso. Antecipação. Trabalho em várias frentes”, afirmou Lula, que lembrou ainda que o Brasil sediou a COP30 e voltou a ser protagonista global. “Governar o Brasil não é para aventureiros. Quem não entende a gravidade das questões conectadas ao clima, opera na lógica de ‘passar a boiada’ e enxerga o mundo com a lente embaçada do negacionismo, certamente não tem preparo para guiar o futuro de uma nação.”
O negacionismo como projeto político
Flávio também relacionou problemas ambientais da Amazônia ao crime organizado, citando exploração ilegal de ouro em áreas indígenas, mas não apresentou medidas voltadas à redução das emissões de gases de efeito estufa. A postura se aproxima de uma tradição de relativização da crise climática dentro do bolsonarismo, que já questionou a influência humana no aquecimento global como projeto político da extrema direita brasileira.
A cena da sabatina é uma síntese do projeto bolsonarista: diante da maior crise ambiental da história, o candidato responde com “efeitos cíclicos” e propõe saneamento básico como solução para o clima. Não é ignorância, é estratégia. É o mesmo negacionismo que negou vacinas, negou a ciência e agora quer negar o planeta em chamas. Enquanto isso, o governo Lula investe bilhões em energia renovável, drenagem e monitoramento, e reduz o desmatamento em todos os biomas. A escolha, em outubro, é entre quem ouve a ciência e quem prefere vender soluções simples para problemas complexos.






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