O muro não é lugar de morar. É lugar de olhar.

Estamos a 23 dias da eleição. E há uma operação em curso para esconder a verdade

Por Redação
Muro indeciso eleição
Imagem: FLIA (gerada por IA)

Você está no muro. Não vou fingir que não sei. Talvez você esteja cansado, desses que já ouviu tanta promessa, tanta mentira, tanto “agora vai” que aprendeu a desconfiar de tudo — inclusive de quem diz que vai te salvar. Talvez você pense: “os dois são iguais”, “política é tudo a mesma coisa”, “no fim, ninguém presta”. E talvez você tenha razão em desconfiar. Desconfiar é saudável. O problema não é a sua desconfiança. O problema é o que ela está deixando você não ver.

Porque tem uma coisa que não é questão de opinião. É questão de papel, de assinatura, de número. E números, você pode conferir.

Olha só o que está dormindo numa gaveta enquanto o país assiste a outra coisa. Um candidato pediu R$ 134 milhões a um banqueiro para, diz-se, bancar um filme sobre o próprio pai. Recebeu, ao menos, R$ 61 milhões. O mesmo banco recebeu R$ 3 bilhões de um fundo de previdência dos servidores do Rio — e a Polícia Federal chamou a gestão desse dinheiro de “almanaque de irregularidades”. Você não precisa acreditar em mim. Pode ler, conferir, ver com seus olhos. Está tudo aí, público, esperando.

E aí vem a parte que deveria te incomodar de verdade. Não a acusação — a acusação, na política, a gente já aprendeu a não levar a sério. O que deveria te incomodar é o silêncio. O sigilo bancário e fiscal desse candidato segue intacto. A delação que poderia esclarecer tudo dorme na gaveta de um ministro. Um processo ficou 75 dias parado. E, no mesmo tempo, contra quem incomoda, a máquina acelerou: três inquéritos em uma semana, relatórios suspensos, um diretor da Polícia Federal afastado.

Repare na régua. Não é uma régua torta por acaso. É uma régua que mede de um jeito quando o nome é de um lado, e de outro jeito quando o nome é do outro. Você não precisa ser especialista em Direito para ver isso. Precisa só de olho.

Agora, a pergunta que eu quero te fazer — e não é uma pergunta de campanha, é uma pergunta de gente para gente. Se um candidato só consegue chegar à reta final porque as investigações contra ele foram trancadas a sete chaves até depois da eleição, o que você acha que acontece no dia seguinte? A gaveta abre depois da festa. E quem vai estar do lado de fora, olhando, é você.

Eu sei. Você está cansado. Eu também. Mas é exatamente por isso que esse voto importa. Porque o muro não é neutro. O muro também escolhe. Quem fica em cima do muro, quem acha que “tanto faz”, quem diz que “não adianta” — está escolhendo, sim. Está escolhendo deixar a gaveta decidir por ele.

Não estou te pedindo para acreditar em mim. Estou te pedindo para olhar. Para conferir os números. Para perguntar por que um processo anda e outro dorme. Para não aceitar que “os dois são iguais” quando um deles carrega na biografia uma régua que só mede para um lado.

O muro é um bom lugar para olhar. Mas ninguém mora em muro. Em algum momento, você desce. A pergunta é só de que lado você desce — e se desce de olhos abertos, ou de olhos fechados, deixando que decidam por você.

Faltam 23 dias. A gaveta já está fechada. A festa ainda não aconteceu. Olhe antes. Porque depois da festa, é tarde para olhar.

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