Você está no muro. Não vou fingir que não sei. Talvez você esteja cansado, desses que já ouviu tanta promessa, tanta mentira, tanto “agora vai” que aprendeu a desconfiar de tudo — inclusive de quem diz que vai te salvar. Talvez você pense: “os dois são iguais”, “política é tudo a mesma coisa”, “no fim, ninguém presta”. E talvez você tenha razão em desconfiar. Desconfiar é saudável. O problema não é a sua desconfiança. O problema é o que ela está deixando você não ver.
Porque tem uma coisa que não é questão de opinião. É questão de papel, de assinatura, de número. E números, você pode conferir.
Olha só o que está dormindo numa gaveta enquanto o país assiste a outra coisa. Um candidato pediu R$ 134 milhões a um banqueiro para, diz-se, bancar um filme sobre o próprio pai. Recebeu, ao menos, R$ 61 milhões. O mesmo banco recebeu R$ 3 bilhões de um fundo de previdência dos servidores do Rio — e a Polícia Federal chamou a gestão desse dinheiro de “almanaque de irregularidades”. Você não precisa acreditar em mim. Pode ler, conferir, ver com seus olhos. Está tudo aí, público, esperando.
E aí vem a parte que deveria te incomodar de verdade. Não a acusação — a acusação, na política, a gente já aprendeu a não levar a sério. O que deveria te incomodar é o silêncio. O sigilo bancário e fiscal desse candidato segue intacto. A delação que poderia esclarecer tudo dorme na gaveta de um ministro. Um processo ficou 75 dias parado. E, no mesmo tempo, contra quem incomoda, a máquina acelerou: três inquéritos em uma semana, relatórios suspensos, um diretor da Polícia Federal afastado.
Repare na régua. Não é uma régua torta por acaso. É uma régua que mede de um jeito quando o nome é de um lado, e de outro jeito quando o nome é do outro. Você não precisa ser especialista em Direito para ver isso. Precisa só de olho.
Agora, a pergunta que eu quero te fazer — e não é uma pergunta de campanha, é uma pergunta de gente para gente. Se um candidato só consegue chegar à reta final porque as investigações contra ele foram trancadas a sete chaves até depois da eleição, o que você acha que acontece no dia seguinte? A gaveta abre depois da festa. E quem vai estar do lado de fora, olhando, é você.
Eu sei. Você está cansado. Eu também. Mas é exatamente por isso que esse voto importa. Porque o muro não é neutro. O muro também escolhe. Quem fica em cima do muro, quem acha que “tanto faz”, quem diz que “não adianta” — está escolhendo, sim. Está escolhendo deixar a gaveta decidir por ele.
Não estou te pedindo para acreditar em mim. Estou te pedindo para olhar. Para conferir os números. Para perguntar por que um processo anda e outro dorme. Para não aceitar que “os dois são iguais” quando um deles carrega na biografia uma régua que só mede para um lado.
O muro é um bom lugar para olhar. Mas ninguém mora em muro. Em algum momento, você desce. A pergunta é só de que lado você desce — e se desce de olhos abertos, ou de olhos fechados, deixando que decidam por você.
Faltam 23 dias. A gaveta já está fechada. A festa ainda não aconteceu. Olhe antes. Porque depois da festa, é tarde para olhar.
