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CULTURA & ENTRETENIMENTO

“O país precisa se ver”, diz Wagner Moura sobre memória e identidade em O Agente Secreto

O filme, que traz camadas da ditadura militar, estreia nacionalmente amanhã

“O cinema brasileiro nasce tentando entender que país é esse. Mais do que em outros lugares, essa é uma característica muito forte do Brasil.” A reflexão é do ator Wagner Moura, que vive o protagonista Marcelo em O Agente Secreto, novo longa-metragem dirigido por Kleber Mendonça Filho, que estreia na quinta-feira (6) e é destaque nesta edição do Bem Viver, programa do Brasil de Fato.

O roteiro se passa em 1977, auge da ditadura e um momento descrito pelo próprio longa como de “muita pirraça”. Apesar de resgatar o passado, vale destacar que, a todo tempo, o longa se relaciona — ora com referências reais, ora por entender os padrões de poder — com a história recente do país. Em uma das cenas utilizadas no trailer de divulgação, por exemplo, há um delegado que comemora quantos “bandidos” foram mortos pela polícia durante o Carnaval.

“O Brasil é um país que tem algumas questões com memória, que tende a esquecer de muita coisa, e eu acho que o cinema é um instrumento muito bom [para resgate] porque ele prende a sua atenção, te diverte, te mantém entretido, mas também pode ter uma carga de informação de verdade sobre o lugar em que a gente mora”, comenta o diretor Kleber Mendonça Filho, em entrevista coletiva à imprensa ao lado de parte do elenco do filme.

A atriz Alice Carvalho, que também participou da entrevista, comenta ainda sobre como esse entrelace refletiu em memórias de sua própria vida. “Eu troquei muita ideia com meu avô sobre o filme, porque ele viveu esse momento da ditadura, e ele me falou para prestar atenção na relação de promiscuidade dos que estavam no poder naquela época, no intuito de esfacelar ou enriquecer através das instituições públicas”, relata a atriz potiguar, que diz que o assunto sempre foi tópico de conversas, mas às vezes “a gente precisa escutar de novo para ouvir”.

Fazendo coro ao excelente momento do cinema nacional, a produção tem sido destaque em festivais e premiações em diferentes países, o que rendeu a Moura e Mendonça troféus de melhor ator e diretor, respectivamente, em Cannes (França), além do Festival de Cinema de Zurique (Suíça) e uma recente indicação ao Gotham Film Awards (Estados Unidos). O longa vai representar o Brasil no Oscar.

Apesar do intenso trabalho de divulgação e expectativa, porém, o elenco concorda que o objetivo principal do filme é chegar ao público brasileiro.

“O país precisa se olhar, precisa se ver na sua cultura. Nenhum país se desenvolve sem se ver. Quando a gente vai para fora e as pessoas também veem a gente, é um plus, é um negócio a mais”, destaca Wagner Moura. “Não só o cinema, mas o jornalismo, a universidade… a sociedade como um todo, a gente tem a obrigação de preservar a nossa memória para que nos entendamos, para que nos vejamos”, reforça.

“Eu tenho um desejo muito especial de que esse filme seja descoberto por pessoas muito jovens, por estudantes. Meninos e meninas que vão ao cinema ver um filme brasileiro e que talvez possam descobrir alguma coisa nova, algum ponto de vista interessante sobre o nosso país”, reforça Mendonça.

“Ano passado eu saí de uma sessão de “Ainda Estou Aqui”, no Recife (PE), e na minha frente saíram duas meninas, uma falando pra outra sobre o filme, e elas não pareciam saber [antes do filme] que o regime militar “tinha sido tão ruim”. Então eu acho que são pequenas informações que um filme brasileiro pode trazer sobre o nosso país”, diz, citando o primeiro filme brasileiro a vencer o Oscar de melhor filme internacional, neste ano.

Ao comentar o fôlego que a indústria audiovisual recupera em relação aos cortes sofridos durante o governo bolsonarista, Wagner Moura voltou a destacar, em tom de protesto e “cansaço dessa conversa”, a importância de políticas de incentivo que viabilizam a arte: “Eu sou fruto das leis de incentivo à cultura. Eu existo porque, na Bahia, nos anos 90, existiram leis que possibilitaram que atores do teatro baiano pudessem existir como artistas. Eu, Lázaro [Ramos], Vladimir [Brichta]… somos fruto dessa geração”, pontua.

“Meu olhar parte do Recife”

A personagem mais peculiar de O Agente Secreto, com roupagem política e contexto devidamente inserido na atmosfera do filme, causa estranhamento na maioria dos espectadores, mas não nos recifenses. A “Perna Cabeluda”, como é conhecida, compõe o imaginário urbano da capital pernambucana e foi inserida por Mendonça como peça de destaque no longa.

Na lenda original, que ganhou corpo principalmente por meio de programas de rádio entre os anos 1980 e 1990, e é citada em uma canção da banda Nação Zumbi, uma perna sem corpo era vista caminhando sozinha pelas ruas do centro do Recife, chegando a atacar com chutes alguns transeuntes.

Durante as coletivas de imprensa para lançamento do filme, uma réplica de plástico em formato de perna humana esteve presente ao lado dos atores, destacando os traços de terror trash que se tornaram comuns em roteiros do cineasta. Sobre o assunto, o diretor comenta que “a fronteira entre realidade e ficção é sempre um tema muito fascinante no cinema”.

A história é um dos muitos artifícios de Kleber Mendonça para evocar a relação com a cidade, no sentido amplo, entre os temas centrais de suas obras. Nascido no Recife, o cineasta destaca que a capital é o ponto de partida do seu olhar — um movimento natural do processo criativo que dificilmente é apontado quando a ambientação se passa em cidades do Sudeste brasileiro, por exemplo.

“Qualquer filme precisa ser autêntico e honesto, e quanto mais o cinema brasileiro se produzir, se filmar e se ver, menos barreiras nós teremos para detalhes como, por exemplo, o sotaque”, diz. “Mas eu, honestamente, acho que depois de O Som ao Redor, Bacurau, Retratos Fantasmas… [produções anteriores do diretor, que igualmente se passam no Recife], eu espero que esse filme não seja recebido com nenhum estranhamento nesse sentido. Até agora tem sido tranquilo”, brinca.

“Eu cresci no Recife vendo novelas da Globo com o sotaque carioca. Se alguma coisa é regional para mim são essas novelas que se passam na Barra da Tijuca [Rio de Janeiro], uma região que deve ser muito legal, mas que eu não sabia onde era”, pontua Mendonça. O diretor também reforça que, por muito tempo, artistas nordestinos “passavam por uma lobotomia em termos de fonoaudiologia para perder o próprio sotaque” e que agora o cenário parece melhor e mais diverso.

Uma das cenas centrais do filme aponta a maneira como o período da ditadura reforçou, deliberadamente, a construção do olhar sobre o que é considerado “regional” ou “nacional” em termos de arte, produção científica e intelectual, e como a concentração de renda em determinadas regiões do Brasil é, talvez ainda hoje, parte e fruto de um projeto.


E tem mais…

Bem Viver traz também uma reportagem especial mostra como Burkina Faso, no coração da África, está reinventando sua agricultura em busca de soberania alimentar. Uma emocionante jornada de esperança e resistência no continente que é berço da nossa cultura.

No Pará conheça a maniçoba, prato afroindígena que leva 7 dias para ficar pronto e carrega séculos de história, tradição e afeto.

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A chef Gema Sotto ensina o delicioso Posset de Laranja, uma sobremesa fácil e elegante para surpreender na cozinha.

Quando e onde assistir?

No YouTube do Brasil de Fato todo sábado às 13h30, tem programa inédito. Basta clicar aqui.

Na TVT: sábado às 13h; com reprise domingo às 6h30 e terça-feira às 20h no canal 44.1 – sinal digital HD aberto na Grande São Paulo e canal 512 NET HD-ABC.

Na TV Brasil (EBC), sexta-feira às 6h30.

Na TVE Bahia: sábado às 12h30, com reprise quinta-feira às 7h30, no canal 30 (7.1 no aparelho) do sinal digital. 

Na TVCom Maceió: sábado às 10h30, com reprise domingo às 10h, no canal 12 da NET. 

Na TV Floripa: sábado às 13h30, reprises ao longo da programação, no canal 12 da NET. 

Na TVU Recife: sábados às 12h30, com reprise terça-feira às 21h, no canal 40 UHF digital. 

Na UnBTV: sextas-feiras às 10h30 e 16h30, em Brasília no Canal 15 da NET. 

TV UFMA Maranhão: quinta-feira às 10h40, no canal aberto 16.1, Sky 316, TVN 16 e Claro 17. 

Sintonize

No rádio, o programa Bem Viver vai ao ar de segunda a sexta-feira, das 7h às 8h, com reprise aos domingos, às 10h, na Rádio Brasil de Fato. A sintonia é 98,9 FM na Grande São Paulo. Além de ser transmitido pela Rádio Agência Brasil de Fato.

O programa conta também com uma versão especial em podcast, o Conversa Bem Viver , transmitido pelas plataformas Spotify, Google Podcasts, iTunes, Pocket Casts e Deezer.

Assim como os demais conteúdos, o Brasil de Fato disponibiliza o programa Bem Viver de forma gratuita para rádios comunitárias, rádios-poste e outras emissoras que manifestarem interesse em veicular o conteúdo. Para ser incluído na nossa lista de distribuição, entre em contato por meio do formulário.

Fonte: Brasil de Fato

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