A Polícia Federal bateu na porta do deputado na manhã desta quinta-feira e encontrou o que ele não declarou. Sete armas de fogo, registradas em nome de Mário Frias, estavam num endereço que não era o que ele informou. Situação irregular, segundo a investigação. Celular e computador também foram para o saco de provas. O deputado que passou o governo Bolsonaro inteiro posando de “defensor da família” e de “antissistema” acordou, nesta quinta, como personagem de uma operação que tem nome de maquiagem e rosto de crime.
A claquete bateu às 7h
A Operação Make Up não é sobre armas. É sobre o filme. A PF e a Controladoria-Geral da União cumprem 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, no Rio, no Ceará e no Distrito Federal. Sem prisões. Com 22 alvos, entre eles Frias e a produtora Karina Gama, dona da Go Up Entertainment, responsável por Dark Horse, a “cinebiografia” que retrata a trajetória de Jair Bolsonaro.
O inquérito, autorizado pelo ministro Flávio Dino, do STF, apura um desenho que já é conhecido de quem acompanha o orçamento secreto: dinheiro público saindo de emendas parlamentares, entrando numa organização da sociedade civil e sumindo em empresas subcontratadas sem comprovação de serviço prestado. Frias destinou R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer Brasil, entidade presidida por Karina. A CGU apura a aplicação desses recursos. A PF fala em movimentações de centenas de milhões de reais entre as empresas do esquema. Os crimes investigados: peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e fraude em licitações.
O roteiro do desvio
A montagem é a mesma de sempre, só que com figurino de cinema. Uma organização da sociedade civil recebe verba pública por termo de fomento. O dinheiro, em vez de virar serviço, vira subcontratação. E a subcontratação, em vez de prestar contas, vira o financiamento de um filme sobre o homem que tentou dar um golpe de Estado no Brasil.
O contribuinte, que não foi convidado para a estreia, pagou a sessão.
O personagem e o figurino
Mário Frias não é coadjuvante nessa história. Ele foi secretário de Cultura do governo Bolsonaro — o mesmo governo que chamava artista de “vagabundo” e depois descobriu que precisava do dinheiro público para bancar a própria propaganda. Frias não apenas destinou emendas à entidade da produtora como participou da produção do longa. O “menos Estado” deles, quando o assunto é o próprio bolso, vira o Estado inteiro.
E as sete armas? Estavam lá, registradas em nome do deputado, mas fora do endereço declarado. A PF vai apurar posse ilegal. O detalhe é quase uma piada de roteiro: o homem que pregava ordem e moralidade não conseguia nem manter o próprio arsenal no lugar certo.
A sequência americana
O filme tem uma segunda cena, que aconteceu na véspera. Na quarta-feira, o ministro André Mendonça homologou a delação premiada de Antonio Carlos Freixo Junior, o “Mineiro”, dono da Entre Investimentos. Ele afirma que era responsável por “gerar” dinheiro vivo para a equipe do banqueiro preso Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, destinado a pagamentos de propina.
Segundo a delação, Mineiro fez sete repasses a título de “subscrições de cotas” para o fundo Havengate, nos Estados Unidos, somando US$ 12,333 milhões — cerca de R$ 62,8 milhões pela cotação de setembro de 2025. A mando de Vorcaro, após pedido de Flávio Bolsonaro para financiar o filme. O fundo era administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro nos EUA.
Não é delação de quem viu de longe. É a confissão de quem diz ter colocado a mão no dinheiro. O Intercept Brasil já havia revelado, em maio, mensagens e um áudio em que Flávio Bolsonaro cobrava Vorcaro pela produção. Agora, o delator liga os pontos: o caixa do filme do golpe atravessou o Atlântico e voltou em forma de cota.
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O final que ninguém roteirizou
Dark Horse significa “cavalo azarão” — aquele em que ninguém aposta e que vence na chegada. A ironia do nome é cruel. O azarão da política brasileira, o homem que a direita vendeu como perseguido, agora é objeto de uma investigação que a própria PF descreve como organização criminosa. O final do filme não está no roteiro. Está no inquérito.
E enquanto o caso do filho do presidente Lula — onde o governo disse não a um lobby que fracassou — virou manchete com vazamento metódico, o filme do pai é bancado com emenda pública e dinheiro de banqueiro preso, a pedido do filho candidato. Num caso, o Estado recusou o negócio. No outro, o dinheiro saiu da conta do povo, cruzou o oceano e voltou como cota de um fundo nos Estados Unidos.
O filme do golpe custou caro. E quem pagou a conta não comprou ingresso.
