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CIÊNCIA & TECNOLOGIA

Teoria maluca do cometa alienígena para polarizar e criticar Lula

Perfil no Instagram amplifica conspiração sobre 3I/ATLAS e transforma ciência em arma política

Uma teoria da conspiração sobre o cometa 3I/ATLAS se espalhou pelo Instagram, transformando um fenômeno astronômico em narrativa política. O perfil @regisandradeo_oficial funciona como principal amplificador da teoria que afirma ser o cometa uma nave alienígena, não um objeto celeste natural.

O cometa 3I/ATLAS é um objeto celeste real, descoberto pelo sistema de vigilância de asteroides ATLAS (Asteroid Terrestrial-impact Last Alert System). Sua trajetória, composição e comportamento foram amplamente documentados pela comunidade científica internacional. Porém, no Instagram, a narrativa científica foi sequestrada e transformada em conspiração.


Cometa interestelar 3i/Atlas fotografado a partir de Marte, pelo veículo Perseverance. Foto: NASA

A teoria conspiratória e a distorção de Hawking

O perfil @regisandradeo_oficial publicou conteúdo afirmando que o cometa 3I/ATLAS é uma nave alienígena. Para justificar a teoria, o perfil distorceu citações do físico Stephen Hawking sobre o contato com civilizações extraterrestres. Hawking alertava sobre os riscos de contato com seres extraterrestres, mas nunca mencionou o cometa 3I/ATLAS especificamente — o objeto foi descoberto muito depois de sua morte, em 2018.

A estratégia de distorção de Hawking é comum em narrativas conspiratórias. Usa-se a autoridade científica de um renomado físico para conferir credibilidade a afirmações infundadas. O relatório “3i:Atlas” documenta essa técnica como “negação científica com apropriação de autoridade”.

Polarização política nos comentários

O que diferencia essa conspiração de outras é a polarização política explícita. Nos comentários do post sobre o cometa, usuários com alinhamento bolsonarista utilizavam a teoria para criticar o governo Lula. Usam “sarcasmo político” e “referências a operações de segurança” (como BOPE) que indicam engajamento de apoiadores de Bolsonaro.

Os comentários na teoria maluca podem ser divididos em três grupos: “absurdo” (que mistura astronomia, religião e política), “negação científica” (que rejeita informações oficiais) e “ironia política” (que usa a conspiração para criticar Lula).

Um padrão emerge: quanto mais a conspiração ganha tração, mais comentários políticos aparecem. A teoria do cometa alienígena se torna veículo para polarização, não discussão científica.

Negação da ciência como estratégia de engajamento

O relatório documenta que perfis bolsonaristas rejeitam sistematicamente informações científicas oficiais sobre o cometa. Quando astrônomos ou agências espaciais publicam dados sobre o 3I/ATLAS, os comentários bolsonaristas questionam a credibilidade das fontes, sugerem que há “encobrimento” e reafirmam a teoria da nave alienígena.

Essa negação científica segue padrão documentado em estudos sobre desinformação política. Segundo pesquisadores da Universidade de Stanford, grupos políticos polarizados tendem a rejeitar informações científicas que contradizem suas narrativas. No caso do cometa, a rejeição da ciência serve duplo propósito: manter a conspiração viva e criticar o governo por “esconder a verdade”.

Amplificação através de repostagens

O perfil @regisandradeo_oficial não atua isoladamente. Outros perfis bolsonaristas compartilham o conteúdo original, amplificando o alcance da teoria. Essa amplificação segue padrão de “cascata de informação” — quando um conteúdo é repostado múltiplas vezes, ganha aparência de credibilidade através da repetição.

O algoritmo do Instagram favorece conteúdo com alto engajamento. Como a teoria do cometa gera comentários polarizados e compartilhamentos, o algoritmo a coloca em feeds de mais usuários. Bolsonaristas veem o conteúdo, comentam com críticas a Lula, e o ciclo se repete. A plataforma, inadvertidamente, amplifica a desinformação.

Contexto histórico: conspiração como ferramenta política

Essa não é a primeira vez que bolsonaristas usam conspiração para polarizar. Durante a pandemia de COVID-19, teorias sobre origem do vírus foram politizadas. Nas eleições de 2022, narrativas sobre fraude eleitoral ganharam tração. Agora, um cometa se torna arma política.

O padrão é consistente: tomar um evento real (pandemia, eleição, fenômeno astronômico), distorcê-lo através de conspiração, e usar a narrativa para criticar adversários políticos. O objetivo não é convencer com argumentos racionais, mas polarizar e mobilizar apoiadores.

Impacto na literacia científica

A propagação dessa teoria tem impacto mensurável na literacia científica. Quando cidadãos são expostos repetidamente a desinformação sobre fenômenos astronômicos, sua capacidade de avaliar informações científicas se deteriora. Estudos mostram que exposição a conspiração reduz confiança em instituições científicas.

Para o Brasil, isso é particularmente preocupante. O país enfrenta desafios em educação científica. Quando bolsonaristas usam plataformas como Instagram para difundir teorias conspiratórias sobre cometas, contribuem para erosão da literacia científica nacional.

Resposta de astrônomos e cientistas

Astrônomos brasileiros tentaram responder com informações precisas sobre o cometa 3I/ATLAS. Publicaram dados sobre sua trajetória, composição (principalmente gelo e rocha) e comportamento observado. Porém, essas informações têm alcance limitado comparado à viralização da conspiração.

O relatório documenta que quando cientistas publicam informações corrigindo a conspiração, bolsonaristas respondem com sarcasmo e negação. A estratégia é desacreditar a fonte, não engajar com os dados. Isso torna extremamente difícil combater desinformação através de informação correta.

Perspectiva de especialistas

Pesquisadores de desinformação apontam que conspiração sobre cometa é sintoma de problema maior: polarização política extrema. Quando sociedade está polarizada, qualquer tópico — inclusive astronomia — se torna arena de conflito político.

Enquanto isso, o cometa 3I/ATLAS continua sua trajetória pelo espaço, indiferente às conspirações terrestres. Mas seus efeitos na polarização política brasileira são muito reais.

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