Bolsonaros pedem golpe a Trump após derrota de Flávio nas urnas

Desnorteado, Trump chama a eleição no Brasil de fraudada e o PL entra em pânico

Por Frente Livre
Trump eleição Brasil
Foto: Casa Branca

Karl Marx escreveu no Dezoito Brumário que os grandes fatos e personagens da história mundial aparecem duas vezes, a primeira como tragédia e a segunda como farsa, e acrescentou o detalhe que os epígonos sempre esquecem: a primeira vez como grande tragédia, a segunda como farsa miserável. O Brasil cumpriu o roteiro com uma fidelidade que envergonha os autores de ficção. Em 8 de janeiro de 2023, a intentona foi tragédia: ataque de uma multidão ensandecida, vidraça quebrada, bomba no tapete do Planalto, centenas de presos, um patrimônio público violado e a certeza de que o país havia flertado com o abismo. Agora, em 26 de outubro de 2026, um dia depois de Flávio Bolsonaro perder a eleição presidencial para Lula por 4,4 milhões de votos de diferença, o que se desenrola diante do mundo é a farsa: um senador derrotado que se recusa a reconhecer o resultado, um partido que tenta demovê-lo do ridículo, uma militância que invade a caixa de comentários de um presidente estrangeiro pedindo golpe militar em publicação sobre overdose de drogas, e um Trump que, sem nenhuma prova, chama a eleição brasileira de fraudada, corrupta e terrível. A tragédia matou gente e quebrou o Estado. A farsa mal consegue organizar um comentário coerente no Instagram.

O insumo e o bufão

A imprensa brasileira, na sua miopia costumeira, tratou a fala de Trump como uma acusação autônoma sem provas, e assim fez o favor de absolver os verdadeiros autores. Não se trata disso. O que se viu nesta segunda-feira foi um bufão operando com material que lhe foi entregue por entreguistas internos, e a mecânica é sempre a mesma: o bolsonarismo produz a informação truncada, o veículo internacional replica, o presidente americano, que não depura nada, repete no palanque, e a operação volta ao Brasil como se fosse pronunciamento de chefe de Estado. Trump declarou, segundo o ICL Notícias: “Achei que foi uma situação muito ruim. Não tomei partido, mas pareceu mais uma eleição fraudada”. E acrescentou: “Acompanhei a eleição. Pareceu tão, tão corrupta, tão terrível”. E ainda: “Eu não governo o Brasil. Eu governo os Estados Unidos. Gosto do Lula. Me dou muito bem com ele, mas a prorrogação concedida foi muito estranha”. Note a estrutura do despautério: ele afirma não ter tomado partido, e no mesmo instante elogia Flávio, como fizera após o primeiro turno (“Foi uma grande vitória, apertada, mas uma vitória muito, muito grande. Incrível, na verdade”), e classifica o pleito de corrupto, em um mês em que elogiou publicamente o processo eleitoral brasileiro e a rapidez da apuração, na madrugada de 5 de outubro, quando o vencedor era o seu aliado. A eleição brasileira é exemplar quando o candidato dele ganha e fraudada quando perde. Esse é o critério. Não há outro, e é patético que alguma redação deste país ainda perca tempo tratando a fala como juízo técnico a ser refutado com dados do TSE.

E o dado que desmonta de vez a tese da autonomia de Trump está no episódio do G7, em Evian, na França, documentado pela Frente Livre em junho. Naquela cúpula, ao tentar defender a extrema direita brasileira, Trump inventou uma prisão: afirmou aos jornalistas que “Bolsonaro Jr.” havia sido preso por uma declaração dada no Texas, e que o Brasil estava “politicamente perigoso”. A realidade: Eduardo Bolsonaro, ex-deputado que perdeu o mandato por faltar ao trabalho enquanto passeava nos Estados Unidos, foi condenado pelo STF por coação no escândalo do tarifaço, não foi preso, e Flávio, a quem Trump chamou de “Bolsonaro Jr”, nem processado criminalmente estava à época. Ele confundiu dois irmãos, inventou uma prisão, inventou uma causa, e emendou ataque ao próprio sistema eleitoral americano. Se esse homem fosse um agente autônomo de desinformação, seria um estrategista. Como ele confunde irmãos e inventa cadeia por declaração em outro estado, é um alto-falante. E alto-falante só repete o que alguém sopra. Quem sopra é quem responde pelo crime.

O SOS de comentário

A farsa ganhou sua cena mais grotesca nas redes do próprio Trump. Apoiadores de Flávio, após a derrota de domingo, invadiram o perfil do presidente americano pedindo intervenção dos Estados Unidos no Brasil. O detalhe que eleva a coisa de patético a sintomático: os pedidos foram feitos nos comentários de uma publicação de Trump sobre a queda de 40% nas mortes por overdose de drogas nos Estados Unidos, assunto sem nenhuma relação com o Brasil. Ali, entre um elogio à política antidrogas e outro, apareceram as pérolas: “SOS Brasil”, “Trump, venha ao Brasil e traga justiça”, “O Brasil está clamando por você. Por favor, nos ajude”. E, sem nenhuma cerimônia, a frase que resume o projeto: “Golpe militar, por favor”. Outros compararam Lula a Nicolás Maduro. É preciso medir a degradação: em 2023, esses mesmos quadros tentaram derrubar o Estado com financiamento empresarial, acampamento em quartel, quebradeira e um plano que previa bomba e morte de ministro. Em 2026, a vanguarda do golpismo brasileiro mendiga intervenção estrangeira na seção de comentários de um post sobre fentanil. Isso não é revolução, é vergonha alheia. A história, quando repete a farsa, cobra o preço em ridículo.

 

Trump e eleição brasileira Imagem: Reprodução

 

O partido contra o próprio candidato

Enquanto a militância pedia golpe no Instagram alheio, a estrutura partidária entrava em pânico, e esse é o dado político mais importante desta segunda-feira. Lideranças do PL passaram a pressionar Flávio Bolsonaro a reconhecer rapidamente a derrota e a articulação ganhou força depois do anúncio da vitória pelo TSE. Um dirigente que acompanhou a apuração no QG da campanha disse que esperava manifestação mais moderada e que o discurso do senador criou “um problema político para a legenda”. Aliados aconselharam reconhecer a derrota e defender investigação apenas sobre os fatos relacionados à ampliação do horário de votação. Flávio, porém, manteve a contestação e declarou que pedirá a anulação das eleições. Os dirigentes que tentam demovê-lo argumentam, com a aritmética no bolso, que a vantagem de 4,4 milhões de votos de Lula esvazia qualquer tentativa de anulação, e as conversas começaram na manhã desta segunda-feira. Leia bem: o próprio partido do candidato considera a contestação insustentável, teme o custo político e trabalha para encerrar o assunto. O golpe que ele tenta agora não tem nem a solidariedade sequer de casa.

Some-se a isso a arquitetura internacional que sustenta a operação, e o quadro fica nauseante de coerência. Há duas semanas, congressistas americanos enviaram carta ao Departamento de Estado cobrando posicionamento de Marco Rubio sobre a eleição brasileira, e o grupo liderado pelo senador Bernie Sanders tinha como preocupação central justamente o risco de que o voto no Brasil fosse alvo de operação de desestabilização dos Estados Unidos. A resposta, enviada na quinta-feira, não trouxe nenhuma garantia de reconhecimento do resultado: “Os EUA apoiam o direito do povo brasileiro a um processo eleitoral livre e justo. Continuaremos a dialogar com o povo brasileiro, o setor privado e o governo eleito para promover a segurança, o comércio recíproco, os investimentos e a prosperidade em ambos os países”. O texto não foi sequer assinado por Rubio; coube a Katherine Bowles, sub-secretária para Assuntos Legislativos, despachá-lo. A expressão “livre e justo” ficou ali como armadilha aberta, e a suspeita da sociedade civil brasileira é precisa: esses termos podem ser usados para justificar um dia a decisão de dizer que os critérios não foram atendidos. Dias depois, senadores liderados por Jeanne Shaheen, com Tim Kaine e Peter Welch, voltaram a cobrar o Departamento de Estado e denunciaram favorecimento explícito a Flávio:

A recente reunião no Salão Oval entre o senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro e o presidente Trump, realizada em meio a tentativas de atenuar um escândalo político interno, evidencia a disposição da Administração em interferir no processo eleitoral”.

A reunião no Salão Oval existiu. A interferência foi apontada por senadores americanos. E o resultado dela está no pronunciamento desta segunda.

O contraponto que ainda existe

Nem tudo é trevas, e o jornalismo tem o dever de registrar o contraponto quando ele é substantivo. Os democratas pressionaram e reconheceram. Jeanne Shaheen declarou que “o povo falou em uma das maiores democracias do mundo” e parabenizou Lula. Alexandria Ocasio-Cortez afirmou que “a vontade do povo é mais forte do que os autoritários que tentam suprimi-la”. Ro Khanna foi cirúrgico: “Trump precisa respeitar os resultados e não minar as eleições do Brasil”. Bernie Sanders, que já havia liderado a carta ao Departamento de Estado, felicitou o presidente brasileiro destacando sua atuação em defesa dos trabalhadores e da democracia.

A tragédia, a farsa e o que vem depois

O paralelo marxista não é ornamento erudito, é chave de leitura. A intentona de 2023 foi tragédia porque teve corpo, dinheiro, plano, quartel e plano de assassinato; a de 2026 é farsa porque não tem nem candidato disposto a sustentá-la sozinho, nem partido, nem prova, nem pudor, apenas um senador derrotado por 4,4 milhões de votos, uma militância que mendiga golpe em comentário de post sobre overdose e um bufão estrangeiro que confunde irmãos e chama de corrupta a eleição que elogiou três semanas antes. Mas o marxista que escreveu sobre a farsa não a tratava como inofensiva, e aqui está o alerta que a miopia da imprensa brasileira não capta: a farsa prepara o terreno da próxima tragédia. Cada “SOS Brasil” publicado no perfil de um presidente americano, cada “golpe militar, por favor”, cada acusação de fraude sem prova repetida por quem tem a maior tribuna do mundo vai sendo depositada na conta de uma parcela do eleitorado que não acredita em urnas, e essa poupança de descrença é o capital com que se financiam as rupturas futuras. O bolsonarismo não precisa ganhar a eleição para continuar operando. Precisa apenas manter viva a suspeita de que a eleição foi roubada, porque é da suspeita que vive o seu projeto. É por isso que a operação desta segunda-feira, tosca, ridícula e desmentida pelos próprios aliados, não pode ser tratada como piada de rede social. É ensaio.

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