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Milícias controlam Meu INSS
Aplicativo Meu INSS se torna arma de manipulação das milícias. Foto: Joedson Alves/Agência Brasil
VIDA

Milícias defendidas pelos Bolsonaros “sequestram” aposentadorias

Aplicativo Meu INSS é usado para cooptar idosos

As milícias que dominam comunidades do Rio de Janeiro encontraram um novo filão: o aplicativo Meu INSS. Relatos que chegaram ao Judiciário fluminense indicam que grupos criminosos estão controlando o acesso de aposentados e pensionistas à plataforma digital da Previdência Social, usada para solicitar benefícios, consultar processos e movimentar recursos financeiros. As informações foram publicadas no último sábado (21) pela coluna de Lauro Jardim, no jornal O Globo.

A tática é velha conhecida dos territórios sob controle paramilitar: primeiro tomaram o gás, a internet clandestina e o transporte alternativo. Agora disputam a aposentadoria dos idosos. A suspeita é que os milicianos estejam usando o acesso ao sistema previdenciário como mais uma ferramenta de extorsão e domínio financeiro sobre uma população já refém da violência armada.

O aplicativo Meu INSS é usado para solicitar benefícios, acompanhar processos e acessar informações previdenciárias. Os moradores de regiões dominadas por organizações criminosas seriam obrigados a fornecer as senhas e ter toda a sua vida previdenciária “sequestrada” pelas milícias. Milhares de idosos, muitos sem qualquer familiaridade com tecnologia, estariam nessa situação.

A aliança histórica entre o clã Bolsonaro e as milícias fluminenses não é segredo para ninguém. A seguir, uma compilação dessa relação de simbiose política e financeira.

Conexões dos Bolsonaros com as milícias do RJ

O material atravessa mais de duas décadas de relações documentadas entre Jair Bolsonaro, seus três filhos políticos (Flávio, Carlos, Eduardo) e figuras do crime organizado fluminense — especialmente as milícias da Zona Oeste do Rio.

Núcleo 1 — Adriano da Nóbrega (Capitão Adriano) e o Escritório do Crime

Personagem central: Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão do BOPE, apontado pelo Ministério Público como chefe da milícia de Rio das Pedras e líder do grupo de extermínio “Escritório do Crime”. Morto em 2020 em operação da PM da Bahia.

Conexões documentadas com a família Bolsonaro:

  1. Homenagens na Alerj — Flávio Bolsonaro concedeu a Adriano da Nóbrega uma Moção de Louvor (2003) e a Medalha Tiradentes (2005), maior honraria da Assembleia Legislativa do Rio, quando ele já estava preso acusado de homicídio. A homenagem de 2003 teria sido a pedido de Jair Bolsonaro, segundo o próprio declarou à imprensa em 2020.
  2. Parentes no gabinete — Raimunda Veras Magalhães (mãe) e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega (então esposa) foram empregadas no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj, com salários de mais de R$ 6 mil cada. Ambas saíram em novembro de 2018, quando o escândalo das rachadinhas estourou.
  3. Rachadinha e fluxo financeiro — Segundo o MP-RJ, Danielle repassou ao menos R$ 150 mil a Fabrício Queiroz, assessor de Flávio. Desse total, R$ 115 mil transitaram por contas controladas por Adriano da Nóbrega. Foram usadas contas de dois restaurantes da família do miliciano e de sua mãe.
  4. Operação Intocáveis — Adriano foi preso nesta operação, que investigava grilagem de terras na Zona Oeste e esbarrou nos suspeitos do assassinato de Marielle Franco.

Núcleo 2 — Fabrício Queiroz e o esquema de rachadinha

Personagem central: Fabrício de Queiroz, ex-PM, assessor de longa data de Flávio Bolsonaro e amigo próximo de Jair.

Fatos:

  1. O Coaf detectou movimentação de R$ 7 milhões entre 2014 e 2017 nas contas de Queiroz — incompatível com sua renda declarada.
  2. Desse montante, R$ 40 mil foram repassados a Michelle Bolsonaro, segundo admitiu o próprio Jair Bolsonaro, que alegou pagamento de empréstimo.
  3. Queiroz se escondeu em Rio das Pedras (Zona Oeste do RJ) após o estouro do escândalo — a mesma região onde atuavam os milicianos presos na Operação Intocáveis.
  4. As investigações sobre a rachadinha foram encerradas após o STF e o STJ anularem as provas em 2021. Flávio nega as acusações e afirma serem “ataque orquestrado”.

Núcleo 3 — Voto contra a CPI das Milícias

Em 2008, quando a Alerj instalou a CPI das Milícias para investigar grupos paramilitares que já dominavam comunidades inteiras, Flávio Bolsonaro votou contra a instauração da investigação.

Ao seu lado, na mesma posição, estava Domingos Brazão — então deputado estadual, posteriormente apontado pela PF como um dos mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL).

Flávio tentou justificar o voto dizendo que “não se sabia o que eram milícias”.

Já em 2003, em discurso na Alerj, Flávio havia dito: “Eles se organizam para que o tráfico não impere nessas regiões”, referindo-se às milícias, e afirmou que “não raro é constatada a felicidade” dos moradores de áreas dominadas por esses grupos.

Núcleo 4 — Brazão, Marielle e a assessora de Flávio

Relatório da Polícia Federal enviado ao STF apontou contatos entre as assessorias de Flávio Bolsonaro e Domingos Brazão, a partir da análise do celular de Robson Calixto Fonseca (“Peixe”), assessor de Brazão preso em maio de 2024.

Maria de Fátima Bezerra Castro, assessora de Flávio, manteve contato com Peixe em duas ocasiões documentadas:

  • Novembro de 2023: tratativa sobre liberação de emenda parlamentar.
  • Fevereiro de 2024: pedido de quatro convites para o Desfile das Campeãs no Camarote Arpoador.

Núcleo 5 — Cúpula das milícias: Ronald Pereira e outras homenagens a policiais criminosos

Ao longo de seus quatro mandatos na Alerj, Flávio Bolsonaro prestou homenagens a pelo menos 23 policiais que eram réus ou condenados, segundo apuração da revista Piauí.

Destaque: Ronald Paulo Alves Pereira, major da PM, recebeu moção honrosa por indicação de Flávio em 2004. Na época, já era investigado por chacina que matou quatro jovens em 2003. Segundo o The Intercept, Ronald era chefe de pequena milícia na Muzema — mesmo local de onde partiu o carro usado no assassinato de Marielle Franco. Foi preso na Operação Intocáveis.

Núcleo 6 — Alan e Alex Rodrigues Oliveira (os “gêmeos”)

Em agosto de 2018, a Operação Quarto Elemento prendeu policiais suspeitos de integrar quadrilha especializada em extorsões. Entre os presos, os gêmeos Alan e Alex Rodrigues Oliveira, dois PMs que naquele ano teriam atuado na segurança da campanha de Flávio ao Senado.

Flávio negou que eles integrassem sua campanha formalmente, mas em outubro de 2017 postou foto com os dois em sua rede social com a legenda: “Parabéns Alan e Alex pelo aniversário, essa família é nota mil!!!”

Eles são irmãos de Valdenice de Oliveira Meliga, que foi assessora da liderança do PSL na Alerj e tesoureira do partido no estado.

Núcleo 7 — Jair Bolsonaro e a defesa pública das milícias

Em 2018, durante a campanha presidencial, Jair Bolsonaro afirmou: “Naquela região onde a milícia é paga, não tem violência.”

A declaração foi amplamente registrada e contrasta com o discurso posterior de “combate ao crime organizado”.

Núcleo 8 — Vizinho de Ronnie Lessa e o caso Marielle

O ex-PM Ronnie Lessa, apontado como executor dos disparos que mataram Marielle Franco e Anderson Gomes, era vizinho de Jair Bolsonaro no condomínio Vivendas da Barra, na mesma rua.

Desdobramentos adicionais:

  • Renan Bolsonaro (filho caçula de Jair), segundo o delegado responsável pelas investigações, namorou a filha de Ronnie Lessa.
  • O porteiro do condomínio afirmou, em depoimento, que Élcio Queiroz (acusado de dirigir o carro no atentado) disse que iria para a casa 58 (de Bolsonaro) e que a entrada foi liberada após ligação para aquela residência. Posteriormente, o porteiro se retratou (como se sabe, não é comum haver testemunhas dos crimes das milícias). Quem teria liberado a entrada, segundo a nova versão, foi o próprio Ronnie Lessa.

Núcleo 9 — Rodrigo Bacellar: o aliado preso

Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj e potencial candidato ao Governo do Rio apoiado pela família Bolsonaro para 2026, teve o mandato cassado e foi preso pela Polícia Federal em março de 2026, suspeito de integrar organização criminosa e vazar informações para beneficiar o Comando Vermelho.

O encontro entre Jair, Flávio, Carlos e Bacellar para articular as eleições municipais de 2024 foi registrado. Bacellar ganhou do clã uma medalha com os dizeres “imorrível, imbroxável e incomível”.

Núcleo 10 — Tio de Michelle Bolsonaro

João Batista Firmo Ferreira, tio da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, policial militar reformado, foi preso na Operação Horus do MP-DF, que investiga policiais envolvidos com milícias, loteamento irregular, extorsão e homicídio.

Núcleo 11 — Alessandro Pitombeira Carracena

Em março de 2026, a Polícia Federal prendeu Alessandro Pitombeira Carracena, ex-Secretário Estadual de Esportes do Rio, durante a Operação Anomalia. Ele foi indicado por Flávio Bolsonaro para cargo no governo Cláudio Castro e é investigado por ligações com o Comando Vermelho.

Judiciário alerta, INSS lava as mãos

Nos bastidores do Judiciário, o diagnóstico é claro: a redução do atendimento presencial nas agências e o incentivo aos serviços digitais abriram uma avenida para a exploração criminosa. A dependência do aplicativo deixou os moradores de áreas dominadas por organizações criminosas ainda mais vulneráveis. Se antes o idoso precisava enfrentar uma fila na agência, agora precisa da “autorização” do miliciano para acessar o próprio dinheiro.

Procurado, o INSS afirmou que “não possui registros de denúncias ou informações relacionadas a esse tipo de prática”. A autarquia declarou ainda que eventuais casos devem ser investigados pela polícia. Traduzindo: o Estado que fechou as portas presenciais agora diz que o problema não é com ele. Enquanto isso, a milícia avança sobre a aposentadoria de quem já contribuiu a vida inteira para sustentar o país — e agora descobre que o país virou as costas.

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