O senador e pré-candidato neofascista à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), leu neste sábado (11) uma carta atribuída ao seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, em que o presidiário pede que seus apoiadores “deixem as diferenças de lado” e apoiem a pré-candidatura do filho. O movimento desesperado tenta estancar o processo acelerado de desintegração da candidatura do “01”, que afunda em crises familiares, aliados sendo presos em série e rejeição recorde entre os evangélicos.
Na carta, datada de 1º de julho e lida durante uma transmissão ao vivo, Jair Bolsonaro define o filho como seu “porta-voz” e “a melhor opção para livrar o Brasil da corrupção, da violência e do empobrecimento”. A ironia é tão densa que poderia ser cortada com uma faca: um ex-presidente condenado por tentativa de golpe de Estado e recolhido em prisão domiciliar — proibido de acessar a internet e as redes sociais — escreve uma carta para dizer que seu filho corrupto vai “livrar o Brasil da corrupção”.
O documento tenta colocar ordem na pré-campanha após o racha público com Michelle Bolsonaro, que expôs nas redes sociais um violento desentendimento com o enteado. A ex-primeira-dama acusou Flávio de humilhá-la e maltratá-la durante uma ligação, afirmando que o senador disse que ela deveria “ficar fora das decisões do partido porque chegou ontem e não entende nada de política”. Michelle deixou a presidência do PL Mulher e retirou da campanha uma liderança com influência própria entre mulheres evangélicas e conservadoras — um dos segmentos em que Flávio enfrenta maior rejeição. Depois foi alijada da candidatura ao Senado pelo Distrito Federal, por ordem do marido golpista.
O “porta-voz” que não fala sozinho
A carta não anuncia reconciliação, não registra apoio de Michelle e não responde a nenhuma das acusações feitas por ela. O método escolhido para encerrar a crise é mais simples e mais revelador: Jair Bolsonaro manda os outros esquecerem o assunto e fecharem com o filho. A cena transforma o lançamento de uma candidatura presidencial em uma leitura de testamento político, com o herdeiro pedindo silêncio na sala enquanto apresenta as instruções do patriarca.
Não é a primeira vez que Jair Bolsonaro precisa entrar em campo para garantir a candidatura do filho. Em dezembro de 2025, outra carta foi usada para reafirmar a escolha de Flávio em meio à resistência de aliados e à disputa com a madrasta. Meses depois, o senador continua precisando da mesma procuração para sustentar a própria autoridade. Um pré-candidato a presidente que depende de um bilhete do pai para impor obediência aos aliados não é um líder — é, no máximo, um mensageiro.
O lamaçal autofágico do bolsonarismo
Se a crise familiar já fosse suficiente para enterrar uma candidatura, bastava o racha com Michelle. Mas o buraco é mais embaixo. Enquanto Flávio tenta convencer o país de que é um nome viável, a lista de “amigos do peito” que foram parar na cadeia não para de crescer. A operação de resgate paterno via carta ocorre no mesmo mês em que:
- Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo e pré-candidato ao Senado apadrinhado por Flávio, foi preso com um fuzil e é investigado por lavar
R$ 7,6 bilhõespara o crime organizado usando postos de gasolina. - Davi Perini Vermelho, o Didê, presidente do Instituto Rio Metrópole e aliado histórico, foi preso por desviar
R$ 86 milhõesdos cofres públicos. - Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj e aliado de primeira hora, foi preso por suspeita de ligação com o Comando Vermelho.
- TH Joias, deputado estadual, foi preso por tráfico de armas para o Comando Vermelho — e antes de ser algemado, gravou vídeos ao lado de Flávio.
- Adilsinho, o bicheiro que mantinha planilhas com o nome do senador, também está atrás das grades.
- Alexandre Ramagem, ex-diretor da Abin e foragido nos Estados Unidos, aparece em listas de pagamento de bicheiro.
- Daniel Vorcaro, o banqueiro corrupto do Banco Master com quem Flávio cultivava “irmandade” a ponto de cobrar R$ 160 milhões, está preso negociando delação.
O padrão é claro: onde tem um aliado de Flávio, tem uma investigação, uma prisão ou um esquema de corrupção.
Carta de um presidiário não salva candidatura
A cena de Flávio Bolsonaro lendo uma carta do pai para pedir união ao próprio grupo político é o retrato de uma candidatura em franco processo de decomposição. O bolsonarismo, que sempre vendeu a imagem de “família unida” e “partido disciplinado”, agora expõe suas entranhas: um clã dividido, uma base de aliados sendo presa em série e um candidato que precisa de autorização por escrito do pai — que cumpre pena em prisão domiciliar — para tentar ser levado a sério.
O texto termina com o tradicional lema “Deus, pátria, família e liberdade”. Faltou combinar com Michelle, com a Polícia Federal e com o eleitorado.





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