Neste domingo (19), Espanha e Argentina decidem a Copa do Mundo. Mas a imagem que ficará deste torneio não está em nenhuma final. Está num pedaço de papel manuscrito, deixado num vestiário em Seattle por jogadores que voltavam para casa sob bombardeio.
A seleção do Irã foi eliminada na fase de grupos com três empates. Em cada jogo nos Estados Unidos, foi obrigada a retornar para Tijuana, no México, porque as autoridades americanas recusavam a permanência da delegação em território estadunidense. Os vistos chegaram no último minuto, sob um aviso do Departamento de Estado de que Washington não permitiria que o Irã “abusasse do sistema para levar terroristas para os EUA”.
O capitão Mehdi Taremi disse tudo: “Esta é uma Copa do Mundo desastrosa. Como jogadores, não podemos disputar uma competição nessas condições. Não está certo nem é justo”. Contou que o presidente da FIFA, Gianni Infantino, foi ao vestiário após o primeiro jogo e prometeu resolver tudo. “A FIFA não fez nada”, resumiu.

Seleção perseguida pelos EUA deixa mensagem de honra e fair play em vestiário. Enquanto o império bombardeia, os bombardeados escrevem sobre dignidade.
A resposta dos bombardeados
Os jogadores responderam à perseguição com duas cartas manuscritas. A primeira, em Los Angeles, após o empate com a Bélgica, pediu paz e lembrou do bombardeio americano a uma escola em Minab, onde crianças morreram. A segunda, em Seattle, após a eliminação contra o Egito, trouxe a seguir:
“Nós viemos do Irã. Viemos de uma terra que, há milhares de anos, coloca a honra acima da vitória. Para nós, o futebol não é apenas uma competição por resultados. É um teste de caráter. Talvez seja possível conquistar pontos de muitas maneiras, mas o respeito não. Talvez uma equipe possa avançar de fase, mas somente por meio da justiça e da honra alguém pode permanecer de cabeça erguida diante da história. O fair play não é apenas uma linha nas regras do futebol; é a alma do jogo. Obrigado, Seattle, pela hospitalidade. E obrigado a todos os iranianos que deram seus corações, suas vozes e todo o seu ser pelo Irã. IRÃ, sempre de cabeça erguida”.
O império que não entende honra
O império que bombardeia escolas e impede jogadores de dormir na mesma cidade onde jogam não consegue compreender o que significa honra. Para Washington, honra é uma palavra em outro idioma. Para os jogadores iranianos, era a única arma que restava num torneio armado para humilhá-los.
A FIFA, que organiza o espetáculo em território do país que bombardeia os atletas, lavou as mãos. Infantino prometeu e não cumpriu. Os EUA perseguiram e humilharam. E os iranianos saíram de cabeça erguida, como disseram que sairiam. A Copa acabou neste domingo. A carta do Irã fica.

View this post on Instagram




Deixe seu comentário