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misoginia da extrema direita
Ricardo Salles xinga três mulheres, Flávio Bolsonaro ameaça a madrasta Michelle e Simone Tebet expõe a misoginia estrutural da extrema direita. Foto: FLIA (Imagem gerada por IA)
BRASIL

Sim, os neofascistas odeiam as mulheres

Extrema direita não poupa nem as suas próprias mulheres

Em apenas uma semana, a extrema direita brasileira ofereceu um verdadeiro festival de misoginia que deixou poucas dúvidas sobre o que pensa — e o que faria se voltasse ao poder — em relação às mulheres. O cardápio foi variado: teve xingamento misógino de Ricardo Salles contra três mulheres num único discurso, teve ameaça velada de Flávio Bolsonaro contra a própria madrasta e teve a constatação, feita por Simone Tebet, de que Michelle Bolsonaro “sofre na pele a ideologia que representa”.

O fio condutor é simples: no bolsonarismo, a mulher tem lugar definido. E, quando ousa sair dele, é punida.

Salles: o “homem de família” que xinga as mulheres

O deputado federal Ricardo Salles (Novo-SP), candidato ao Senado, achou que seria uma boa estratégia de campanha atacar não uma, não duas, mas três mulheres num único discurso. Durante evento do partido Novo, que é um apêndice neofascista do PL, ele chamou a pré-candidata Marina Silva de “tartaruga fugida do Acre”, referiu-se à ministra Simone Tebet como “mãe do desastre econômico” e ainda atacou dona Lindu, mãe do presidente Lula, que já faleceu.

A resposta de Marina foi um dos momentos mais lúcidos da semana.

“Eu lamento profundamente que um homem use três mulheres para agredir de uma vez, inclusive a dona Lindu, uma pessoa que já não está mais entre nós. Se ele faz isso com uma pessoa que já não está mais entre nós, uma batalhadora que criou uma família inteira sozinha, isso só demonstra quem ele é. Uma pessoa que tem ódio pelas mulheres”, afirmou.

O ex-ministro Fernando Haddad também foi cirúrgico. “Infelizmente eu não espero nada melhor de uma pessoa como ele. Ele tem realmente problemas com respeito às mulheres.”

Flávio Bolsonaro: “se não fosse mulher do meu pai, já tinha estancado”

Enquanto Salles fazia seu número de machista parlamentar, o pré-candidato neofascista à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), tratava de dar sua contribuição ao acervo misógino da semana. Ao comentar o racha público com a madrasta Michelle Bolsonaro, Flávio declarou que, se Michelle não fosse mulher de seu pai, a situação teria sido “estancada antes”.

A frase, que ecoa violência física em cada sílaba, não passou despercebida. A equipe de segurança de Michelle — sim, ela precisou reforçar a segurança depois disso — avaliou que, embora a fala não seja tratada como ameaça direta, “a expressão pode ser apropriada por pessoas radicalizadas”. Traduzindo: Flávio deu o comando, e a base se encarrega de executar.

O senador, que se apresenta como “defensor da família”, disse que não mantém mais relação com a madrasta.

Simone Tebet: “ela sofre na pele a ideologia que representa”

A senadora e pré-candidata ao Senado por São Paulo, Simone Tebet (PSDB), foi quem fez o diagnóstico mais preciso sobre o fenômeno. Em entrevista, ela afirmou que Michelle Bolsonaro “sofreu na própria pele o que pensa a ideologia que ela representa, que é a da extrema direita, que não poupa nenhuma mulher”.

“A mulher, para eles, tem que ficar em casa, submissa, sem liberdade de escolha”, completou Tebet. “Eu me solidarizo com a Michelle, que deve ter sofrido muita misoginia, muita violência política, para ela se rebelar.”

A ironia é digna de roteiro: Michelle, que durante anos defendeu publicamente os valores da família Bolsonaro, que posou de “mulher do capitão” e usou o discurso conservador para ganhar espaço político, agora descobre que o mesmo movimento que ela ajudou a construir não tolera que uma mulher tenha voz própria — nem que essa mulher seja a esposa do fundador.

O padrão

Ricardo Salles não tem cargo no executivo e talvez nunca tenha. Flávio Bolsonaro é pré-candidato à Presidência, o que significa que pode vir a comandar o país. Ambos, porém, compartilham a mesma visão sobre o lugar da mulher: um lugar de submissão, onde a fala não é ouvida, a opinião não é considerada e a violência — verbal ou física — é o recurso final.

No bolsonarismo, o “Deus, pátria, família” sempre foi uma fachada. A família, no projeto deles, é patriarcal, hierárquica e violenta. E as mulheres — todas elas, da dona Lindu à Michelle, da Marina à Tebet — são apenas instrumentos descartáveis.

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