Há políticos que mudam de ideia. Outros mudam de partido, de discurso, de aliados e até de convicções — tudo na mesma semana. O vereador paulistano Rubinho Nunes (União-SP) pertence a essa segunda categoria, mais numerosa e mais lucrativa.
No sábado (25), durante o podcast Três Irmãos, o deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) fez o que qualquer repórter minimamente atento deveria ter feito há anos: colocou diante de Rubinho as próprias palavras ditas em 2021, quando o então vereador pelo Patriota fulminava a entrada do senador Flávio Bolsonaro no partido.
“Eu não faço fileira com a família Bolsonaro, com bandido, criminoso”, disse Rubinho à época, com a convicção de quem ensina ética no cursinho. “Vou tocar a minha vida bem longe deles. Não vou anuir e concordar com a presença de figuras criminosas como os Bolsonaros.”
Cinco anos depois, lá está Rubinho abraçado ao bolsonarismo, candidatando-se a algo maior na extrema direita, como se as palavras de 2021 tivessem sido proferidas por outra pessoa — ou por um Rubinho de um universo paralelo.
O oportunismo como método
Glauber exibiu a citação em um quadro, no melhor estilo “a testemunha irrefutável é o senhor mesmo”. Rubinho tentou se esquivar, negou aproximação, pediu provas. O deputado do PSOL não deixou passar: “O senhor é um típico centrão. O senhor agora se aproxima da família Bolsonaro porque está achando que consegue voto com isso e porque tem uma afinidade com uma linha de orientação fascista de extrema direita.”
O oportunismo não é um traço de caráter isolado neste país — é uma engrenagem. Rubinho é apenas uma peça visível de um sistema onde partidos são siglas descartáveis, discursos são ferramentas de marketing e a memória do eleitor é tratada como um inconveniente a ser gerenciado. O centrão não é um bloco partidário; é um estado de espírito. E Rubinho, com todo o respeito que não merece, é seu aluno aplicado.
Se eu ouvisse só metade das coisas que Glauber Braga disse para o fascistinha do Rubinho, eu correria desse estúdio e passaria uns seis meses entocado. pic.twitter.com/AlaxkPfbEL
— PRAVDA-BR (@pravda_br) July 25, 2026
A provocação e a honra
Rubinho tentou revidar trazendo o episódio de 2024, quando Glauber chutou Gabriel Costenaro, do Movimento Brasil Livre (MBL), dentro da Câmara dos Deputados. O que parecia um contra-ataque virou armadilha.
Glauber explicou o contexto sem pedir desculpas: Costenaro o provocou oito vezes em locais públicos. Na quinta vez, dentro da Câmara, atacou a mãe do deputado, que sofria de Alzheimer avançado e morreu dias depois. “Você não honraria o nome de um familiar seu, vereador?”, perguntou Glauber. “Porque eu honro o nome da minha mãe.”
Não se arrependeu. Disse que se orgulhava? Não. Mas também não pediu desculpas. E encerrou: “Minha mãe foi uma mulher que cavou o chão com as unhas, enfrentou todas as barreiras para que eu pudesse estar aqui.”
Há uma diferença abissal entre os dois gestos. Rubinho mudou de discurso por conveniência eleitoral. Glauber reagiu por instinto de proteção à memória da mãe. Um é cálculo. O outro é sangue. Quem tenta equiparar as duas coisas está, no mínimo, sendo desonesto — ou, no máximo, sendo Rubinho Nunes.
O podcast Três Irmãos, aliás, tem funcionado como ringue preferido da direita para lavar roupa suja em público. Um formato onde vereadores tentam apagar o próprio passado e deputados do PSOL acabam fazendo o trabalho que a grande imprensa se recusa a fazer: lembrar. Porque no jornalismo brasileiro, esquecer é lucrativo. Lembrar, nem tanto.





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