Em 2019, o salário mínimo brasileiro valia, em dólares, US$ 193,41. Em 2026, vale US$ 315,91. O crescimento é de 63,3%. Não é inflação. Não é artifício contábil. Não é milagre. É a consequência direta de uma política econômica que escolheu valorizar o trabalho como motor do desenvolvimento, e que pode ser compreendida com clareza através de uma teoria que os economistas chamam de Paridade do Poder de Compra, ou PPP, sigla do inglês Purchasing Power Parity. Vamos explicá-la, porque entender a PPP é entender por que o brasileiro está comprando mais, voando mais, ganhando mais e vivendo melhor, mesmo com o dólar a R$ 5,13.
A teoria da Paridade do Poder de Compra, formulada no século XX pelo economista sueco Gustav Cassel e refinada por gerações de economistas desde então, parte de um princípio que qualquer dona de casa conhece intuitivamente: o que importa não é quanto dinheiro você tem no bolso, mas o que esse dinheiro consegue comprar. Uma cesta de produtos básicos, alimentação, moradia, transporte, saúde, educação, custa um valor em cada país. Se uma cesta que custa US$ 100 nos Estados Unidos custa R$ 400 no Brasil, a paridade do poder de compra entre os dois países, para aquela cesta, é de 4 reais para 1 dólar. Não é a cotação de mercado, que pode estar a 5,13. É a cotação real, a que mede o poder de compra efetivo.
O problema é que a cotação de mercado, aquela que aparece no telão da Bloomberg e faz a Faria Lima suar frio, não reflete o poder de compra. Reflete fluxo de capital, especulação, taxa de juros, risco-país, expectativa, medo, ganância. É volátil, instável e, na maior parte das vezes, irracional. O dólar a R$ 5,13 não significa que o brasileiro ficou mais pobre. Significa que o mercado financeiro está nervoso. O que importa para a vida real é a PPP, e a PPP se mede pelo salário mínimo em dólares, porque o salário mínimo é o piso, a base, o chão sobre o qual toda a pirâmide salarial se sustenta.

Arte: FLIA
Olhemos para a série histórica. Em 2012, o salário mínimo era de R$ 622 e o dólar médio do ano estava a R$ 1,95. O mínimo em dólares valia US$ 318,97. Em 2019, o mínimo era de R$ 998 e o dólar a R$ 5,16. O mínimo em dólares valia US$ 193,41. Entre 2012 e 2019, o salário mínimo em reais cresceu 60%, mas em dólares despencou 39%. O brasileiro ganhava mais reais e comprava menos dólares. A cotação de mercado dizia que o país estava mais pobre. A PPP dizia a mesma coisa, porque a cotação de mercado e a PPP convergiam para o mesmo diagnóstico: o poder de compra do trabalhador brasileiro estava em queda livre.
A virada começa em 2023. O salário mínimo sobe para R$ 1.320, o dólar médio cai para R$ 5,59, e o mínimo em dólares salta para US$ 244,90. Em 2024, R$ 1.412, dólar a R$ 5,59, mínimo em dólares a US$ 252,23. Em 2025, R$ 1.518, dólar a R$ 5,59, mínimo em dólares a US$ 271,74. Em 2026, R$ 1.621, dólar a R$ 5,13, mínimo em dólares a US$ 315,91. Em quatro anos, o salário mínimo em dólares cresceu 29%. Em relação ao fundo do poço de 2019, cresceu 63%. O brasileiro voltou a ganhar, em dólares, o que ganhava em 2012. Não porque o dólar caiu. Porque o salário mínimo subiu mais que o dólar. A política de valorização real do mínimo, com reajuste acima da inflação e reposição de perdas acumuladas, é o instrumento que restaurou o poder de compra.
E é aqui que a teoria da PPP encontra a vida real, porque o aumento do poder de compra não é número abstrato em planilha de economista. É gente comprando, gente voando, gente comendo, gente vivendo. Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados ao longo de 2025 e 2026, formam um muro de evidência que nenhuma narrativa de pessimismo consegue escalar.
Lula 3 empilha recorde atrás de recorde
O PIB brasileiro chegou a R$ 3,2 trilhões no segundo trimestre de 2025, com expansão de 0,4% em comparação ao período anterior. Foi recorde em relação ao início da série histórica, em 1996. Na comparação anual, a agropecuária saltou 10,1%. O consumo das famílias subiu 0,5%, também recorde histórico. O país cresceu porque o brasileiro voltou a consumir, e voltou a consumir porque voltou a ganhar.
A taxa de desocupação caiu para 5,1% no último trimestre de 2025, o menor nível da história da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua). No consolidado do ano, 5,6%. O Brasil nunca teve tanta gente trabalhando: 103 milhões de ocupados. Recorde absoluto de 38,9 milhões de trabalhadores com carteira assinada, 1 milhão a mais que em 2024. A taxa de informalidade recuou de 39% para 38,1%. O número de trabalhadores por conta própria bateu recorde, chegando a 26,1 milhões. Mais emprego, mais emprego formal, menos informalidade. Mais gente contribuindo para a previdência: 66,9% do total, equivalente a 68,1 milhões de pessoas, a maior proporção da série histórica.
O salário médio do trabalhador brasileiro atingiu R$ 3.722 no primeiro trimestre de 2026, o maior valor registrado desde o início da PNAD Contínua, em 2012. Crescimento real de 5,5% acima da inflação. A massa de rendimentos chegou a R$ 374,8 bilhões mensais, aumento real de 7,1% em um ano, o que significa R$ 24,8 bilhões a mais circulando na economia. A renda domiciliar per capita atingiu R$ 2.316 em 2025, segundo o IBGE. A coordenadora de pesquisas domiciliares do IBGE, Adriana Beringuy, afirmou: “Pode ter uma participação já dessa questão do reajuste do salário mínimo, que é uma recomposição e até ganhos reais.” A frase é técnica, mas o significado é claro: o salário mínimo puxa a base salarial para cima, e quando a base sobe, toda a pirâmide sobe.
A aviação civil registrou 65,2 milhões de passageiros no primeiro semestre de 2026, aumento de 5,4% em relação ao mesmo período de 2025. Foram 50,2 milhões em voos domésticos e 15 milhões em internacionais. Só em junho, 10,3 milhões de brasileiros passaram pelos aeroportos. A movimentação de cargas cresceu 1,4%, com 673,6 mil toneladas transportadas. Mais gente voando significa mais gente com dinheiro para comprar passagem. Mais carga significa mais produção, mais comércio, mais economia girando. A Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) não explica o porquê do recorde, mas a explicação está no bolso do trabalhador.
A Bolsa de Valores rompeu a barreira dos 150 mil pontos pela primeira vez na história em novembro de 2025. Em 2026, ultrapassou os 172 mil e fechou pregão com 175 mil pontos. O mercado financeiro, que apostava no desastre, engoliu o próprio pessimismo. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil, medido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), chegou a 0,805 em 2024. Pela primeira vez na história, o país entrou no grupo de nações com muito alto desenvolvimento humano. O SUS recebeu R$ 234,5 bilhões em 2025, o maior valor de sua história, e realizou 14,7 milhões de cirurgias eletivas, marco inédito. A Amazônia viu a devastação recuar 23,5%. O Cerrado, 17%. O país recebeu 9,3 milhões de visitantes estrangeiros, recorde de turismo. A taxa de homicídios registrou a menor da série histórica, com 42.590 assassinatos, queda de 6,9%.
É o salário, estúpido!
A pergunta que se impõe é: por que tudo isso está acontecendo ao mesmo tempo? A resposta está na PPP e na política econômica que a sustenta. Quando o Estado decide valorizar o salário mínimo acima da inflação, está, na prática, transferindo renda para a base da pirâmide social. O trabalhador que ganhava R$ 998 em 2019 e ganha R$ 1.621 em 2026 não está só ganhando mais reais. Está ganhando mais poder de compra. E o poder de compra, quando chega à base, multiplica-se. O trabalhador compra comida, e o supermercado contrata repositor. O trabalhador compra passagem, e a companhia aérea contrata comissário. O trabalhador reforma a casa, e a construtora contrata pedreiro. O trabalhador coloca o filho na escola, e a escola contrata professor. Cada real a mais no salário mínimo vira dois reais na economia, porque o dinheiro que chega à base circula, não estagna. Não vai para paraíso fiscal. Não compra derivativo em Cayman. Compra feijão, carne, ônibus, remédio, passagem, livro.
É o que os economistas chamam de efeito multiplicador da renda, e é a razão pela qual a valorização do salário mínimo é a política econômica mais eficiente para gerar desenvolvimento que existe. Não é teoria de esquerda ou de direita. É aritmética. Quando o dinheiro chega a quem precisa consumir, o consumo gera produção, a produção gera emprego, o emprego gera renda, a renda gera consumo, e o ciclo se retroalimenta. O PIB cresce porque o consumo das famílias cresce. O consumo das famílias cresce porque o salário cresce. O salário cresce porque o Estado decidiu valorizar o trabalho. E o Estado decidiu valorizar o trabalho porque entendeu, finalmente, que o motor do Brasil não é o mercado financeiro, é o trabalhador.
A Faria Lima chora. A Bloomberg se engasga. Os papa-terinais de plantão torcem o nariz. Mas os dados do IBGE, da ANAC, do PNUD, do Banco Central e do Ministério do Trabalho não mentem. O salário mínimo em dólares cresceu 63% desde 2019. O desemprego caiu para o menor nível da história. O salário médio bateu recorde. A massa salarial bateu recorde. A renda per capita subiu. O PIB cresceu pelo 16º trimestre seguido. O IDH entrou no grupo de muito alto desenvolvimento. 65 milhões de brasileiros voaram em um semestre. A Bolsa rompeu 175 mil pontos. O SUS recebeu o maior investimento da história. O desmatamento caiu. O turismo bateu recorde. A violência caiu.
Tudo isso aconteceu porque alguém decidiu que o salário mínimo deveria valer mais. Não em reais, que inflação corrói. Em dólares, que a PPP mede. Em poder de compra, que é o que importa. Em dignidade, que é o que sobra quando os números saem da planilha e entram na vida. Gustav Cassel, o sueco que formulou a teoria da Paridade do Poder de Compra há cem anos, não imaginava que um país tropical, periférico, desigual e estigmatizado pudesse provar sua teoria com tanta clareza. Mas provou. A PPP não é teoria. É o brasileiro comprando feijão, comprando passagem, colocando o filho na escola e vivendo, finalmente, como um ser humano que trabalha deveria viver. Com dignidade. Com poder de compra. Com a sensação, cada vez menos rara, de que o salário chegou e deu para viver.






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